Diante da falta de registros sobre as abelhas nativas no Tocantins, o biólogo mineiro Waldesse Piragé se mudou para Palmas e criou o BeeTech, primeiro grupo de pesquisa dedicado ao estudo dos insetos no estado.
Segundo Piragé, as pesquisas realizadas pelo projeto têm ampliado o conhecimento sobre a biodiversidade em território tocantinense e já são protagonistas em trabalhos socioeducativos desenvolvidos com comunidades rurais e pequenos produtores.
Em entrevista à Mongabay, o pesquisador falou sobre a importância das abelhas para além da produção de mel e apontou desafios para a ciência na busca por maior proteção às espécies.
Apaixonado por um pequeno inseto que mudaria sua história, o biólogo paulista Waldesse Piragé de Oliveira Júnior dedica parte da sua vida ao estudo das abelhas. A jornada teve início em 1992, em Uberlândia (MG), durante sua graduação. Foi em meio à saga universitária que o então estudante começou a trabalhar com a Apis mellifera, espécie de abelha mais utilizada no país para a melicultura — e fundamental para a polinização.
O interesse de Piragé por esses insetos continuou em seus estudos de mestrado e doutorado em genética e bioquímica, respectivamente, entre 1997 e 2003. Foi nesse período que o biólogo passou a se dedicar às espécies nativas sem ferrão (o caso da maioria das abelhas brasileiras).
Suas linhas de pesquisa o levariam ao Cerrado, bioma predominante no Tocantins. Em 2004, ele deixou Uberlândia e se mudou para Palmas, a capital do estado, onde hoje atua como pesquisador e professor de engenharia ambiental da Universidade Federal do Tocantins (UFT).
Anos depois, em 2016, o entusiasta das abelhas fundaria o “BeeTech”, um grupo que pesquisa o manejo, a conservação e a biologia desses insetos. Além da produção científica, a iniciativa desenvolve projetos de extensão, iniciativas das universidades brasileiras que levam o conhecimento acadêmico para a sociedade por meio de ações junto a comunidades, produtores rurais e escolas no campo.
Segundo o pesquisador, a ausência de registros das espécies de abelhas no Tocantins foi uma de suas principais motivações para tirar a ideia do papel. “Somos pioneiros no estado”, disse Piragé.
A Mongabay conversou com o biólogo sobre o trabalho desenvolvido pelo BeeTech, e questionou o cientista sobre as principais descobertas e desafios envolvendo as abelhas no Tocantins.
Mongabay: Quais foram as descobertas mais marcantes em sua trajetória de trabalho com as abelhas?
Waldesse Piragé: O que mais me surpreendeu foi o grande número de espécies no Tocantins. Se pensarmos que a maioria dos relatos fala de cerca de 3 mil espécies nativas no Brasil, as espécies catalogadas no Tocantins representariam 10% desse total. Foi uma surpresa. Eu não imaginava que tínhamos tantas espécies [no estado].
A outra surpresa, que eu imaginava, mas não dimensionava, é o desconhecimento [sobre esse fato]. É uma oportunidade de instruir [a população]. Quando você instrui, mostra que as abelhas existem e, assim, quando mostra que existem, mostra que elas também importam.
Quais eram os objetivos quando você criou o projeto em 2016?
Criamos o BeeTech pensando, primeiro, em estudar a biodiversidade [das abelhas]. Mas ele também foi pensado para a [iniciativa de] extensão, por meio do projeto ‘Polinizando o Saber’. E também para o ensino, com trabalhos de educação ambiental dentro do curso [de engenharia ambiental da UFT]. Assim, traçamos essas metas: na pesquisa, estudar inicialmente a biodiversidade [das abelhas]; nas [áreas de] extensão, levar esse conhecimento; e, no ensino, trabalhar com os alunos essa parte da biologia e do conhecimento sobre abelhas nativas. A grande maioria não as conhece.

Você mencionou a descoberta de mais de 200 espécies no Tocantins até hoje. Como isso aconteceu?
Assim que conseguimos acesso a uma determinada região, município ou propriedade do Tocantins, convocamos a equipe. Normalmente são dois dias de coleta. Temos materiais específicos, como redes e armadilhas.
Nem sempre, porém, o trabalho de campo sai como planejado. Quando fomos para Lagoa da Confusão [município no sudoeste do Tocantins], por exemplo, deixamos as armadilhas e depois de uma semana, ao retornarmos para retirá-las, o local estava alagado. Recolhemos o equipamento com a água quase na cintura. Foi complicado.
As abelhas encontradas são levadas ao laboratório [do BeeTech], onde passam pela montagem entomológica [técnica de fixar, secar e organizar insetos em alfinetes e caixas expositoras]. A partir das características de cada espécie, conseguimos classificá-las. Depois, separamos as abelhas por espécie. Começamos esse trabalho em 1996 e, de lá para cá, o número só aumentou. Hoje temos cerca de 220 espécies diferentes. Sabemos que esse total ainda vai crescer, porque já temos material em análise. Contamos com o auxílio da bióloga Favízia Freitas de Oliveira, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), uma das maiores especialistas [em abelhas] do mundo. Ela nos auxilia em uma identificação mais refinada [dos animais].
Muitas pessoas associam as abelhas apenas à produção de mel. Essa associação faz sentido quando se fala em abelhas sem ferrão?
As pessoas se acostumaram ao mel do dia a dia, produzido pela abelha com ferrão, a Apis mellifera. Alguns a conhecem como “oropa”, outros como ‘africanizada’. Essa abelha, inclusive, é exótica e foi introduzida no Brasil, não é daqui.
Então, é preciso fazer uma distinção: existe a abelha com ferrão, que produz mel em grande escala e é a mais conhecida, e existem as abelhas nativas [sem ferrão]. Dessas, cerca de 10% a 20% das espécies produzem mel, em menor quantidade e mais elaborado, por causa da diversidade de plantas visitadas, pela regionalização das colônias e pela ação de leveduras na fermentação do mel.
Foi com essas espécies sem ferrão que o homem no Brasil começou a trabalhar. Por isso, as abelhas sem ferrão acabam sendo automaticamente associadas também à produção de mel.
Quais são os principais desafios para a conservação dessas espécies de abelhas no Cerrado tocantinense?
O Tocantins é uma fronteira agrícola, e o principal modelo que temos desenvolvido no Brasil é o da monocultura em larga escala. O que acontece [nesse modelo] é a supressão da vegetação. Quando vim para cá, em 2004, a realidade era muito diferente. Havia áreas mais cobertas pela vegetação típica do Cerrado e nelas havia biodiversidade. Muitas das abelhas com que trabalhamos constroem seus ninhos nos troncos das árvores, que são um refúgio importante, assim como o solo. A partir do momento em que se retiram essas árvores, o solo é remexido, a área é exposta, e o veneno é levado para a cultura [de diferentes plantas]. Isso passa a ser uma ameaça à biodiversidade.
Em resumo, a ameaça à biodiversidade [das espécies no Cerrado] hoje consiste na atividade agrícola que promove o desmatamento e o uso do que eles chamam de agrotóxico, mas que, para as abelhas, é veneno. Se juntarmos esses fatores, teremos a morte de espécies. E muitas delas nós sequer conhecemos. Hoje, essa prática do homem é a maior ameaça à biodiversidade delas.
Como surgiu o projeto de extensão voltado aos produtores locais? E qual a importância dele para a conservação das abelhas?
O projeto começou com crianças nos Centros Municipais de Educação Infantil (Cemeis) de Palmas e, depois, passou para adolescentes do ensino médio [público], em outra versão. Então veio a pandemia e fizemos uma versão on-line.
Logo em seguida, pensamos: já atendemos crianças, já atendemos jovens, já fomos para a internet, mas o pequeno produtor, aquele que vive em assentamentos, também precisa ser atendido. É a pessoa que está no campo, que tem contato mais direto com as abelhas e que, de repente, pode encontrar nesse conhecimento uma fonte de renda.
Assim, vimos que havia uma demanda e começamos a entrar em contato com essas comunidades para levar um pouco de conhecimento. Esse trabalho é contínuo. Sempre que surge uma oportunidade de fazer uma visita e levar esse conhecimento por meio da extensão, nós vamos, conscientizando essas comunidades sobre a importância das abelhas e mostrando que essa também pode ser uma atividade de geração de renda.

E como tem sido essa troca de conhecimento?
Do ponto de vista pessoal e como docente, é muito gratificante, porque você chega a um cenário em que há pouquíssima informação. Claro que eles conhecem as abelhas, mas o conhecimento que têm é muito popular. Quando você leva a ciência e mostra a importância dos animais, eles passam a vê-los de maneira diferente.
Muitos relatam: ‘Eu tinha uma prática destrutiva’ [ao meio ambiente], porque o único interesse era [obter] o mel. A partir do momento em que você mostra outra perspectiva, esse conceito muda. Essa mudança mostra que você levou o conhecimento e transformou a realidade daquelas pessoas.
Utilizamos as abelhas como modelo para educação ambiental dos produtores. Mostramos que elas podem ser fonte de renda, mas que o maior valor é o ambiental, uma vez que elas polinizam matas e culturas. Daí a importância de preservar as matas e evitar queimadas e o uso de venenos.
Com as ameaças causadas pelas atividades humanas, vemos a diminuição dessas espécies. Uma forma de promover a conscientização é mostrar às comunidades e ao cidadão comum que essas abelhas têm importância na polinização, na perpetuação das florestas e no ecossistema. Além dessa importância biológica, que gera a necessidade de preservá-las, existe a oportunidade de gerar renda com seus produtos.
Há alguma história ou experiência vivida pelos produtores que represente o impacto do trabalho desenvolvido?
Levamos o Polinizando o Saber a uma comunidade perto de Marianópolis do Tocantins, [município] próximo à nossa estação de pesquisa do Canguçu, no município de Pium, às margens do Rio Javaés. Na época, eles não faziam criação de abelhas.
Durante essa ação, conheci um rapaz da Secretaria do Meio Ambiente e Recursos Hídricos do Estado do Tocantins (Semarh) que já tinha a intenção de levar para a comunidade o conhecimento sobre a A. mellifera e a apicultura, para a produção de mel. Nós o sensibilizamos também para iniciar um programa de meliponicultura, com abelhas sem ferrão produtoras de mel. Apicultura é a criação da Apis; meliponicultura é a criação dos meliponíneos, que são as abelhas sem ferrão produtoras de mel.
Ele conheceu esse trabalho durante nossa ação — e isso despertou uma nova iniciativa. Tivemos a notícia de que essa comunidade, além de produzir o mel da A. mellifera, também cria algumas abelhas sem ferrão hoje em dia. Ficamos muito felizes com essa notícia e esperamos que isso contribua para melhorar as condições de quem vive lá.
Quais avanços são necessários para fortalecer a pesquisa, a conservação e a criação sustentável de abelhas no Tocantins?
Para melhorar o que está acontecendo no estado, precisamos de políticas públicas mais adequadas e de legislação. Estamos começando a engatinhar na legislação de proteção às abelhas nativas, mas ela ainda é incipiente.
Também é preciso investir em educação e pesquisa. Para dar um exemplo pessoal, nessas coletas, eu mesmo me ofereço para dirigir, porque assim diminuímos os gastos com diárias de um motorista da universidade. Além disso, pago o combustível do meu próprio bolso. Dessa forma, preservamos a cota de combustível da universidade, que é pequena e mais direcionada ao ensino do que à pesquisa, e consigo utilizar o veículo que a universidade me cede. Isso reflete a carência de investimentos em pesquisa e educação.
Além da legislação, é preciso investir em educação ambiental. As duas caminham juntas, porque não basta apenas obrigar; é preciso conscientizar sobre por que é necessário. Com investimentos em educação, pesquisa e uma legislação adequada, talvez tivéssemos ferramentas para avançar. Isso não vale apenas para o Tocantins. No Brasil,, o conhecimento e o estudo das abelhas ainda são negligenciados. Esse cenário só começou a melhorar porque o ser humano percebeu que, sem as abelhas, haverá impacto até mesmo na segurança alimentar. Ou seja, de maneira até egoísta, desconsiderando a biodiversidade, passou-se a pensar na segurança alimentar humana e, por isso, as abelhas ganharam mais notoriedade.
Imagem do banner: Tronco perfurado que integra um hotel de abelhas solitárias, estrutura criada pelo BeeTech para servir de ninho para essas espécies, onde as fêmeas depositam os ovos. Foto: Acervo pessoal da fonte.
ERRATA: no texto original desta reportagem, havíamos escrito que o biólogo Waldesse Piragé era mineiro. Ele é paulista, de Ribeirão Preto, São Paulo, e cursou a graduação em Uberlândia, Minas Gerais. O texto foi corrigido em 11/08/2026.