Mapa elaborado pela Mongabay cruza o calendário de abastecimento no Recife com dados do IBGE e revela que o acesso à água tem recortes de gênero, raça e classe.
Em comunidades periféricas com grande presença de mulheres negras, o fornecimento de água tratada pode chegar a apenas 91 horas por mês; moradoras relatam 15 dias consecutivos de torneiras secas.
Não bastasse a escassez de água, as comunidades também sofrem com o excesso dela; bairros com fornecimento intermitente também estão entre os mais sujeitos a enchentes e deslizamentos.
A recente concessão parcial do abastecimento promete resolver parte do problema, mas críticos alertam que poderá ampliá-lo; enquanto isso, a eleição em Pernambuco definirá o governo que chegará a 2031, dois anos antes da meta nacional de universalizar o saneamento.
RECIFE, PE — No Ibura de Baixo, bairro encravado na Zona Sul do Recife, o dia de Jeyne Araújo, de 27 anos, começa muito antes de o sol nascer. Às 4h da madrugada, enquanto a capital pernambucana ainda dorme, o silêncio na casa de Jeyne é interrompido pelo som de baldes e tonéis sendo arrastados. É o início de uma corrida diária contra o tempo e contra a escassez: com apenas seis horas de abastecimento diário de água, ela precisa estocar cada gota antes que as torneiras sequem.
No entanto, a água que Jeyne consegue capturar não é o líquido saudável que se espera de um serviço essencial. Ela descreve uma substância saturada de componentes químicos, com um odor que a torna imprópria para o consumo imediato. Ao cair no balde, a água forma uma espuma branca e espessa, semelhante a sabão. “Chega cheio de cloro, que você não consegue fazer nada”, desabafa.
Essa precariedade deixou marcas profundas na saúde e na segurança alimentar de sua família. Por seis meses, seu filho mais velho, Wesley, de nove anos, teve vômitos e dores de barriga constantes. A causa, descoberta em uma consulta médica no Hospital de Areias, era o mingau preparado com água da torneira, o que resultou em uma infecção intestinal na criança. Para proteger o filho, Jeyne agora é obrigada a comprometer seu orçamento de R$ 950 do Bolsa Família com a compra de galões de água mineral a R$ 6 cada, uma despesa que sufoca a renda já escassa.
Dentro de casa, a intermitência é medida visualmente por pilhas de louças que se acumulam na pia, funcionando como um cronômetro da sede. Com o abastecimento oscilando entre 8h e 16h, cada tarefa doméstica torna-se uma disputa estratégica contra o esvaziamento dos reservatórios. “Tem que tirar o restinho da água para dar descarga, porque, se jogar fora, não tem água para mais nada”, explica Jeyne. O esforço é também braçal, exigindo que ela limpe manualmente o resíduo preto que se acumula no fundo dos tonéis a cada ciclo de falta de água.
A vulnerabilidade de Jeyne, contudo, não se limita às torneiras secas. O Ibura, classificado como área de Risco Hidrológico Alto (R3) e Muito Alto (R4) na metodologia da Defesa Civil, carrega a memória de tragédias recentes. Durante a enchente de 2022, Jeyne sofreu uma perda irreparável: seu companheiro morreu eletrocutado em um beco do bairro, após um fio elétrico atingir seu pé em meio aos alagamentos. Ela alega que houve negligência no desligamento da rede elétrica, que só teria ocorrido uma hora e meia após os primeiros chamados.
A reportagem da Mongabay entrou em contato com a Neoenergia, a distribuidora de energia elétrica no Recife, para comentar o caso, mas a empresa não respondeu.

O mapa da sede
Jeyne Araújo personifica o que especialistas chamam de racismo hídrico: um cenário em que a cor da pele, o gênero e o CEP determinam quem tem o direito de abrir a torneira e quem é condenado a gerenciar a sede e o risco climático em territórios invisibilizados.
Essa escassez seletiva é resultado de uma engrenagem de exclusão revelada por um “mapa da água” produzido pela Mongabay, que cruza o calendário de abastecimento da Companhia de Saneamento de Pernambuco (Compesa) com os microdados do Censo do IBGE de 2022, expondo como a intermitência no Recife possui nuances nítidas de gênero, raça e classe.
Das 311 localidades analisadas na capital pernambucana em julho de 2026, 236 enfrentam intermitência crônica de água. Os dados mostram que a escassez atinge majoritariamente mulheres negras com renda mensal média entre R$ 1.100 e R$ 2.300. O rendimento médio mensal corresponde à soma da renda de todos os domicílios dividida pelo total de moradores do bairro.
Pelos critérios da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), interrupções de seis horas ou mais no fornecimento são qualificadas como intermitência. Isso significa que, para uma interrupção diária ficar abaixo desse limite, o fornecimento teria de ocorrer por mais de 18 horas por dia. Em um mês de 30 dias, essa referência corresponderia a mais de 540 horas de abastecimento.
No entanto, territórios periféricos analisados pela reportagem sobrevivem com apenas 17% do tempo de abastecimento exigido pela norma da agência: o Ibura, bairro de Jeyne, tem o menor acesso à água na cidade. Composto majoritariamente por mulheres pretas e pardas com renda média de R$ 1.116, conta com apenas 91 horas de abastecimento por mês.
O bairro da Linha do Tiro, situado em uma área de morros na Zona Norte da cidade, é um exemplo de como o racismo hídrico se funde à vulnerabilidade climática. Segundo o mapeamento da Mongabay, a população local recebe água de 100 a 268 horas mensais, dependendo do setor, o que representa menos da metade do padrão mínimo regulatório.
O que torna o caso da Linha do Tiro ainda mais grave é sua classificação no Plano de Contingência 2026, elaborado pela Defesa Civil: o bairro está quase integralmente em zonas de Risco Alto (R3) e Muito Alto (R4) para inundações e deslizamentos de terra. É o paradoxo de viver sob o medo constante da água que desce das encostas em forma de lama, enquanto a torneira permanece seca por dias a fio.

Para entender o abismo social que separa as torneiras do Recife, basta observar o contraste geográfico. Enquanto as periferias gerenciam baldes, bairros de elite como Boa Viagem — que detém o segundo metro quadrado mais caro da cidade —, Apipucos e Espinheiro desfrutam de um fluxo quase ininterrupto, registrando mais de 700 horas de abastecimento mensal.
Nestas ilhas de segurança hídrica, a população é majoritariamente branca e os rendimentos saltam para a faixa entre R$ 7 mil e R$ 16 mil. A contradição é nítida na fronteira entre Apipucos e o vizinho Alto Santa Terezinha: separados por poucos metros, o primeiro goza de fartura hídrica, enquanto o segundo é condenado a um calendário de apenas 100 horas mensais.
Antônio Miranda, engenheiro civil e membro do Comitê Tecnológico Permanente do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia (Crea), classifica esse cenário como um “profundo desrespeito”. Com quase cinco décadas de atuação, ele observa que, enquanto a classe média equaciona a falha estatal cavando poços profundos e garantindo sistemas próprios de abastecimento ou adquirindo carros-pipa, os moradores das periferias vivem um “calendário permanente de racionamento de água de janeiro a janeiro”.
Pernambuco é o estado brasileiro com a menor disponibilidade hídrica por habitante do Brasil. Com uma média de apenas 1.270 m³ de água per capita ao ano, o que equivale a ínfimos 3,6% da média nacional, a realidade hídrica pernambucana apresenta índices comparáveis a regiões desérticas. Os dados são da Agência Pernambucana de Água e Clima (Apac).
Essa escassez estrutural, que atinge níveis ainda mais críticos em sub-regiões como o Agreste e o Sertão, explica por que a intermitência nas torneiras é uma condição permanente no Recife e por que a gestão desse recurso escasso torna-se o epicentro de uma profunda desigualdade social e racial.

Uma camada a mais de precariedade
Na Ocupação Cacique Chicão, outra parte do bairro do Ibura, a insegurança hídrica se soma à falta de infraestrutura. A ajudante de cozinha desempregada Alessandra Maria da Silva, de 51 anos, vive há nove anos em uma palafita de madeira. Para chegar à sua porta, a equipe de reportagem precisou equilibrar-se sobre trilhos de trem, que funcionam como a única via seca em meio a um “lago” de águas paradas e lixo boiando.
A moradora denuncia que obras da prefeitura agravaram a situação ao utilizarem bombas para empurrar dejetos diretamente para a frente das casas. “Vai correr para onde, se o único acesso que tem é aqui?”, questiona.
Alessandra habita o que os mapas técnicos classificam como área de Risco Hidrológico Muito Alto (R4), ou seja, fortemente sujeita a enchentes. Sem água encanada em sua casa, ela depende de um cano improvisado pela comunidade, que traz a água de uma rede desativada. O fornecimento é tão precário que, por volta das 20h, a água já não chega mais à única torneira externa de sua moradia.
Sofrendo com diabetes e uma hérnia que a afastou do trabalho, ela convive com ciclos constantes de problemas intestinais e infecções de pele. O quadro de saúde se agrava pela umidade permanente e pela falta de água de qualidade para os cuidados rigorosos que sua condição exige.

As cheias que atingiram o Recife em 2022 e impactaram severamente a Ocupação Cacique Chicão não representaram apenas a perda de bens materiais, mas também um golpe em sua memória afetiva. Enquanto a água misturada ao esgoto invadia sua palafita, Alessandra perdeu todos os seus documentos e as únicas fotografias e roupas que guardava como lembrança de sua filha, falecida em um acidente de carro.
A sobrevivência nessas zonas de sacrifício hídrico e ambiental ocorre sob a tensão de dois marcos regulatórios que nem sempre caminham no mesmo ritmo. De um lado, a cidade tenta gerenciar o desastre imediato por meio do Plano de Contingência (Placon) 2026, um protocolo elaborado pela Defesa Civil para coordenar a resposta a eventos climáticos extremos. Mas enquanto o Placon é um mecanismo de resposta reativa para salvar vidas durante as cheias, o horizonte de dignidade dessas famílias depende de outro compromisso: a meta de universalização prevista na lei federal conhecida como Marco Legal do Saneamento.
Atualizado em 2020, o novo marco estabelece que, até 2033, 99% da população brasileira deverá ter acesso à água tratada e 90% à coleta e ao tratamento do esgoto.
Controvérsias da privatização
Em um dos seus últimos passos antes da corrida pela reeleição, a então governadora Raquel Lyra (PSD) assinou um contrato de concessão parcial do abastecimento de água com a BASA Saneamento. O termo, que totaliza R$ 17,4 bilhões em investimentos e engloba 151 municípios, foi firmado em abril de 2026 sob críticas de especialistas e entidades representativas, que enxergam no modelo o risco de perpetuar as desigualdades históricas no acesso à água.
De acordo com Anderson Quadros, presidente da Associação dos Empregados do Grupamento Superior da Compesa (Procompesa), o arranjo atual transfere para a iniciativa privada a distribuição de água e a coleta de esgoto, as partes mais rentáveis do sistema, enquanto deixa sob responsabilidade da estatal Compesa a produção e captação de água, processos mais caros e severamente vulneráveis às crises climáticas.

“Diz-se que o [setor] privado vai investir R$ 19 bilhões, mas em nenhuma cláusula contratual consta essa meta. É apenas um valor referencial”, alerta Anderson. Sem a obrigatoriedade de aplicar recursos em obras específicas, as concessionárias tendem a seguir a lógica do lucro e postergar obras de infraestrutura em áreas de difícil acesso.
Contatada pela Mongabay, a BASA rebate a tese de fragilidade, assegurando “que o contrato prevê um aporte de R$ 15,4 bilhões ao longo de 35 anos”. A empresa diz ainda que “os valores serão aplicados com prioridades definidas por critérios técnicos e que o objetivo da companhia é cumprir integralmente as metas de expansão em todos os 151 municípios atendidos, seguindo diretrizes de planejamento que contemplam periferias e morros”.
Anderson pontua que a lógica do lucro privado ignora as complexidades técnicas e os custos elevados de abastecer áreas de morro. Ele cita a experiência da parceria público-privada com a empresa de saneamento BRK na Região Metropolitana do Recife, onde, em 13 anos, a empresa “não subiu sequer um morro” para expandir o esgotamento sanitário.
Segundo Anderson, a tendência, com a nova concessão, é que o investimento permaneça concentrado nas áreas planas e rentáveis, deixando as periferias, muitas vezes mapeadas como áreas de risco hidrológico, à margem do serviço.
Em nota enviada à Mongabay, o governo de Pernambuco rebate a tese de que a iniciativa privada evitará áreas de difícil acesso, afirmando que inexiste “previsão contratual que autorize tratamento diferenciado em razão da rentabilidade econômica das localidades”.
A dignidade perdida
Nas encostas da Linha do Tiro, a geografia acidentada impõe uma camada extra de perversidade à falta de água. Para a doméstica Joana*, de 44 anos, a verticalidade do bairro é um obstáculo diário à dignidade. Ela vive em uma vigília constante: no inverno, o medo é da água que desce das barreiras em forma de lama; no verão (chamado localmente de estio), a angústia é pela torneira que permanece seca por dias a fio. A entrevistada pediu para não ser identificada, pois acessa a rede pública de abastecimento por uma ligação clandestina.
Com um esquema de abastecimento de apenas dois dias de água para três dias de seca, Joana gerencia uma caixa d’água de mil litros. “Diminui o volumezinho e diz: ‘menino, menina, olha o banho aí demorado para economizar’”, relata ela sobre as instruções dadas aos filhos para evitar o “sufoco” de depender de baldes buscados em poços vizinhos. O limite desse sistema de privação é testado quando o racionamento se estende por períodos críticos, que já chegaram, segundo ela, a 15 dias consecutivos de desabastecimento total.

A Mongabay acompanhou o trajeto de Joana em busca de água nesses momentos de crise: uma descida por ladeiras íngremes, de asfalto irregular, atravessando áreas com deslizamentos ativos e trechos de concreto estreitos e elevados, até chegar à casa de uma vizinha, onde consegue tirar água de um poço. Equilibrar baldes e tonéis cheios nesse percurso exige um esforço que ela compartilha com os filhos pequenos.
Para Joana, morar no morro não foi uma opção, mas a única saída. A família utilizou as economias de uma rescisão trabalhista do marido, que atua como porteiro, para construir, “devagarzinho”, os três cômodos onde hoje vivem.

Pagando do próprio bolso
A luta por autonomia diante da negligência estatal é o motor da história de Maria do Bom Parto Albino da Silva, conhecida como Fia. Moradora da Linha do Tiro há duas décadas, ela foi forçada a autofinanciar um serviço que o Estado lhe negou.
Fia liderou um rateio familiar para cavar um poço artesiano, investindo R$ 800 na perfuração e nas bombas submersíveis. A “autonomia”, contudo, é custosa e parcial: a potabilidade da água do poço é incerta, o que a obriga a gastar parte de sua renda com água mineral para beber, reservando o recurso extraído do poço apenas para higiene e limpeza.
A água, para Fia, é o insumo que confere dignidade ao seu filho neurodivergente, Gabriel, de 31 anos. Gabriel possui um foco obsessivo na limpeza da casa e encontra bem-estar no ato de lavar pratos e limpar o fogão constantemente. Sem o poço, sua saúde mental e rotina de cuidados estariam comprometidas pelo rodízio das redes oficiais.
No entanto, a segurança dessa moradia é constantemente ameaçada por um clima cada vez mais instável. Em chuvas fortes, a família precisa levantar eletrodomésticos às pressas e colocá-los sobre blocos de isopor, uma medida de proteção que é frequentemente destruída por roedores (chamados de “catitas”) atraídos pelo esgoto acumulado nas ruas sem drenagem. “O inverno passado era chuva constante. Hoje chove um toró e amanhã está um sol pegando fogo. É onde a gente e as crianças ficam doentes”, observa Fia.
A justificativa governamental para a concessão parcial apoia-se no argumento de que a gestão estatal é incapaz de universalizar os serviços. Anderson Quadros, da Procompesa, no entanto, resgata o sucesso histórico do Plano Nacional de Saneamento (Planasa) na década de 1970 para provar o contrário: sob indução estatal e com financiamento garantido pelo Banco Nacional da Habitação (BNH), os índices de saneamento no Brasil dobraram em apenas 15 anos. “O problema nunca foi a incompetência técnica, mas a descontinuidade dos mecanismos de financiamento público”, afirma.

Na contramão, os números recentes do saneamento no Brasil acendem um alerta. Em seus primeiros cinco anos, em vez de expansão, houve uma regressão de 0,5% no índice de atendimento de água no país. O crescimento do esgoto desacelerou de uma média histórica de 6% para apenas 2% ao ano. Os dados são do estudo Avanços do Marco Legal do Saneamento Básico no Brasil de 2025, produzido pelo Instituto Trata Brasil.
Para Anderson, o modelo pernambucano é uma “engenhoca” financeira desenhada de trás para frente, na qual o lucro do parceiro privado e o valor da outorga foram priorizados em detrimento da sustentabilidade do sistema. O governo estadual anunciou o repasse de R$ 1,3 bilhão, proveniente dessa outorga, a 151 municípios.
Independentemente disso, Anderson enxerga que há um problema de sustentabilidade da própria Compesa. Enquanto o custo operacional de produção da estatal é estimado em R$ 2,12 por metro cúbico (m³) de água, a tarifa definida na concessão foi de apenas R$ 1,84 por m³. “Com essa tarifa, em quatro anos a Compesa acumulará R$ 5 bilhões de prejuízo”, ele prevê, sugerindo que a precarização pode ser uma estratégia proposital para favorecer uma futura privatização total da companhia.
Em contrapartida, a gestão estadual destaca, em nota à Mongabay, que o modelo garante uma indenização imediata à Compesa superior a R$ 1,5 bilhão, além de uma “Conta de Universalização do Saneamento” dedicada a investimentos da própria estatal. A nota ressalta ainda que os argumentos dos movimentos contrários foram analisados pelo Tribunal de Contas do Estado (TCE), que concluiu pela improcedência das denúncias.
Contudo, Anderson denuncia uma falha ética e gerencial: esse recurso chega aos cofres municipais sem a obrigatoriedade de ser reinvestido em saneamento. “Esse dinheiro pode ser usado pelos prefeitos em praças, rodovias ou até em shows de artistas famosos”, critica. O governo de Pernambuco, por meio da assessoria de imprensa, informou à Mongabay que as Microrregiões de Água e Esgoto deliberaram pela obrigatoriedade de aplicar esses recursos, preferencialmente em saneamento.

O rodízio nas urnas
O futuro de milhares de famílias do Recife, que param as suas vidas quando escutam o estampido no cano anunciar que “hoje é dia de água” está depositado nas urnas. O governador a ser escolhido pelo voto popular nas eleições de outubro encerrará o mandato em 2031, a dois anos do fim da meta estabelecida pelo Marco Legal do Saneamento. Na corrida pelo posto, que já está a todo vapor, o tema da privatização ganhou ênfase. O candidato da oposição, João Campos (PSB), que disputa o cargo pela primeira vez, capitalizou as críticas à medida, defendendo “mais diálogos com os municípios, contratantes diretos do serviço”.
Para além da retórica focada em reverter votos, o cientista político, pesquisador e professor do Centro Universitário Tabosa de Almeida (Asces-Unita), Vanuccio Pimentel, acredita que “a privatização dificilmente será revertida”.
Apesar de terem se originado em lados opostos do espectro político, ambos os candidatos ao governo estadual são simpáticos ao pragmatismo. No entanto, explica Vanuccio, Raquel Lyra não tem como forte, na atual gestão, obras que beneficiem as periferias. “Ela nunca fez uma obra de drenagem, uma ponte, uma avenida nova, ou seja, são prioridades que não contemplam exatamente periferias”, observa.
Já, segundo ele, “Campos pode, por puro pragmatismo político, prometer um pacote de bondades, mas não irá reverter o contrato de privatização. É mais fácil ele reforçar a capacidade da Compesa de produzir água para distribuição”.
A Mongabay entrou em contato com as assessorias de imprensa das campanhas dos candidatos João Campos (PSB) e Raquel Lyra (PSD) para que comentassem os pontos abordados pela reportagem. Eles não responderam aos e-mails até a publicação desta reportagem.

De olho nos mananciais
A “torneira seca” que castiga as periferias do Recife não é apenas uma falha técnica, mas um reflexo direto da saúde do sistema ambiental que sustenta a Região Metropolitana. Segundo Maria do Carmo Sobral, engenheira civil e professora do Departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), a cidade atingiu seu limite geográfico de exploração hídrica superficial: “O último grande manancial foi Pirapama. Não temos outro rio para ser explorado em um raio de 40 a 50 quilômetros”.
Hoje, a capital pernambucana depende de um complexo de sete barragens principais: Pirapama, Tapacurá, Botafogo, Gurjaú, Duas Unas, Bita e Utinga, além da preservação estratégica das águas subterrâneas do aquífero Beberibe — recurso de boa qualidade que atende as residências por meio de poços independentes, mas que enfrenta riscos de contaminação e intrusão marinha.
Para garantir que a água captada não adoeça a população, como ocorreu com os filhos da moradora Jeyne Araújo, a proteção dessas fontes exige medidas técnicas que vão além da engenharia hidráulica. Maria do Carmo, que coordenou projetos internacionais de planejamento de bacias, destaca a necessidade vital do reflorestamento da mata ciliar em um raio de pelo menos 100 metros ao redor dos reservatórios para evitar que sedimentos e poluentes sejam carreados pela chuva.

A vigilância deve ser constante contra a eutrofização, termo dado ao crescimento excessivo de algas que degrada a potabilidade da água e é causado pelo despejo de fertilizantes agrícolas, dejetos industriais e resíduos das usinas sucroalcooleiras. Diante da escassez severa de Pernambuco, a água que chega às casas é um recurso de “alto valor”, e sua integridade ambiental é o que permite que o tratamento nas estações da Compesa seja eficaz.
No desenho do novo modelo de concessão, preservar esses mananciais permanece sob responsabilidade pública. Maria do Carmo enfatiza que a universalização do acesso à água, especialmente para as populações dos morros e das periferias, exige uma mudança urgente de paradigma: em vez de focar apenas na expansão, é preciso investir em sistemas de reúso e no combate drástico às perdas na rede, que hoje chegam a 50%.
Em nota, a BASA Saneamento informou que “está elaborando um diagnóstico técnico sobre o desperdício que fundamentará um Plano de Investimentos em Redução de Perdas”.
A decisão a ser tomada pelos gestores pode mudar o histórico de aflições na vida de Jeyne. A matriarca conta que seus filhos “ainda têm trauma de cheia” e ficam desesperados quando a chuva começa a causar novos alagamentos. Em 2022, a água atingiu a metade da altura da porta da casa onde viviam. Não bastasse o risco do excesso de água, Jeyne ainda tem que lidar com a falta dela — ambas as situações apontando para o mesmo destino, o das incertezas.
Imagem do banner: torneira na Ocupação Cacique Chicão, no bairro do Ibura, em Recife. Foto: Yamini Benites.