Na floresta de Tónduè, região central de Moçambique, 70% das espécies replantadas foram dadas como perdidas devido a queimadas descontroladas. As demais estão ameaçadas pelo baixo crescimento e caules danificados.
O monitoramento após o replantio constitui um dos principais desafios para a manutenção das florestas na província da Zambézia. Ocorrendo atualmente apenas uma visita por ano, em média, a cada floresta, frequência considerada insignificante e sem impacto positivo sobre o crescimento da vegetação.
Comunidades exigem benefícios que promovam maior conservação das espécies replantadas, num cenário em que parte do valor dos créditos de carbono destinado a essas comunidades ainda não foi distribuído, por causa da falta de documentação adequada dos beneficiários.
MOCUBA, Zambézia – Moçambique está entre os dez países do mundo com maiores taxas de desmatamento, com perda anual de cerca de 267 mil hectares, com maior índice nas províncias de Nampula, Zambézia e Manica. Por isso, o país definiu, há cerca de 10 anos, a meta ambiciosa de reflorestar um milhão de hectares até 2030 ao mesmo tempo que estabeleceu, em 2025, a meta de restaurar 52 mil hectares por ano até 2029, com um orçamento de 105 mil milhões de meticais (1,65 milhões de dólares).
Entretanto, até ao momento, existem apenas 58 mil hectares reflorestados, incluindo plantações que já existiam antes da meta de um milhão, segundo informações coletadas pelo professor e pesquisador na área de florestas, Sá Nogueira Lisboa, Universidade Eduardo Mondlane (UEM).
A província da Zambézia, no centro de Moçambique, tem uma das principais áreas florestais do país e apresenta elevada importância para a conservação da biodiversidade, regulação dos recursos hídricos, proteção dos solos, assim como sequestro do carbono e sustento das comunidades locais. Entretanto, é uma das províncias fortemente ameaçada pelo desmatamento e com maior perda de cobertura florestal.
Entre 2000 e 2024, por exemplo, a Direção Provincial de Desenvolvimento Territorial e Ambiente (DPDTA) indica que a perda florestal acumulada na província foi de 1,26 milhões de hectares, o que representa cerca de 19% da área total da floresta. Assim, o replantio desempenha um papel essencial na restauração de áreas degradadas, mas o monitoramento precário das espécies após o replantio tem desperdiçado os esforços pela conservação da floresta.
Dados fornecidos pela DPDTA indicam que houve tendência de melhoria nos níveis de desmatamento nos últimos anos. Depois de terem sido registrados 65,6 mil hectares desmatados em 2021, no ano seguinte o número baixou para 46,8 mil e, em 2023, para 42,2 mil hectares. O órgão governamental afirma que a queda foi fruto dos projetos de redução de desmatamento e reflorestamento conduzidos na província.
A Floresta de Tónduè, com mais de 22 hectares de área protegida, na comunidade de mesmo nome, localizada em Munhiba, distrito de Mocuba, na Zambézia, é exemplo para mostrar que o replantio por si só não basta e que as ações de monitoramento são cruciais para a sobrevivência das espécies replantadas.
Com o último replantio registado há três anos, parte da floresta enfrenta, atualmente, queimadas descontroladas causadas pela população local, de acordo com o presidente do Comité de Gestão de Recursos Naturais em Tónduè, Ordem Maugete. Registradas no ano seguinte ao replantio, as queimadas resultaram na perda de 70% das espécies replantadas numa área de 10 hectares, segundo Uilson Malango, técnico do Serviço Distrital de Actividades Econômicas (SDAE) em Mocuba, que acompanhou a Mongabay à floresta.
Parte das mudas que sobreviveram tem o caule totalmente queimado; outras, com três anos de existência, ainda ostentam uma pequenez de apenas 30 centímetros de altura.

“Elas têm três anos de vida, o mesmo tempo [de replantio] das que têm atualmente uns cinco metros [e não foram afetadas pelo fogo], mas continuam tão pequenas porque queimaram; caíram as folhas mas não morreram, assim tentaram se regenerar em meio a condições não favoráveis”, disse Uilson Malango.
Trata-se de uma floresta de miombo, ecossistema florestal que cobre quase dois terços da área florestada moçambicana, segundo dados do Banco Mundial, de 2018. As espécies dominantes são chanfuta (Afzelia quanzensis), mbaua (Khaya nyasica), umbila (Pterocarpus angolensis) e murroto (Cordyla africana), para além de espécies medicinais como giraro e de frutas silvestres como goiabeira selvagem (Psidium guajava), colodja (Azanza garckeana) maphidge (Vangeria infausta) e themá (Landolphia kirkii).
Em 2025, a Floresta de Tónduè foi repassada à responsabilidade da comunidade, uma medida tomada pelo governo na expectativa de garantir que a comunidade cuide continuamente, com regularidade e mais frequência, mitigando os desafios relacionados ao fraco monitoramento por parte do governo.
No entanto, as espécies replantadas há três anos voltaram a queimar pouco tempo depois do repasse da floresta à comunidade. Entre as principais causas das queimadas descontroladas na Floresta de Tónduè destacam-se a abertura de novas áreas para a prática de agricultura, habitação e a caça a animais de pequena espécie, comenta Malango. Por isso, como a equipe de reportagem constatou ao visitar a região, é sempre necessário andar com cuidado no interior da floresta, porque existem armadilhas montadas para a caça dos animais, majoritariamente roedores silvestres conhecidos como rato-do-mato, usados como alimento para a sobrevivência das comunidades.

Logo na entrada de um povoamento com pouco mais de duas mil habitações, em Munhiba, a Mongabay também constatou desmatamento recente de pelo menos dois hectares. Um cenário de devastação com todas as árvores cortadas e pequenos ramos espalhados pelo chão, para dar lugar a casas e prática de agricultura.
Já à entrada da Floresta de Tónduè, localizada no interior do povoado, a cerca de 10 quilômetros da Estrada Nacional Número 11 (Mocuba-Milange) extensas áreas anteriormente verdes estão atualmente em cinzas. De acordo com informações do governo distrital, apenas 30% das espécies replantadas em 2023 sobreviveram às queimadas.
O replantio foi feito pelo governo através da contratação de uma empresa, no entanto, mais uma vez não houve monitoramento. Assim, a área foi repassada à gestão da comunidade, ano passado, “mas o maior desafio é que a mesma comunidade precisa de machamba [pequenos terrenos para agricultura de subsistência, muitas vezes de propriedade do Estado e de uso comunal por membros da mesma família] para a agricultura”, explica Uilson Malango.
A maior parte das queimadas registradas é proposital e sem motivo aparente, admitiram membros da comunidade, mencionando que a educação ambiental continua deficiente na região, mas também destacando que faltam meios para a sobrevivência das comunidades. Famílias ganham o sustento na agricultura, sobretudo no plantio de feijão bóer e mandioca para produção de farinha, para venda, residem distante da cidade, sem postos de trabalho, casas feitas com blocos de adobe e cobertas com palha.
No geral, esta é a característica da maior parte das comunidades residentes próximas às florestas, num país em que a maioria da população vive nas zonas rurais, onde as economias e os meios de subsistência dependem dos recursos naturais como florestas, pescas e solos saudáveis.

“Há pessoas de mau carácter, que queimam a floresta sem justificação aparente. Acredito que outras fontes de energia como eletricidade podem reduzir a pressão sobre os recursos, porque o que mais causa a devastação da floresta na nossa comunidade é a busca por lenha para a confeção de alimentos”, conta Nonita Maurício, jovem agricultora nascida naquela comunidade e que percorre mais de 10 quilômetros diariamente, com bebê ao colo, no trajeto casa – machamba. De acordo com relatório do Banco Mundial, publicado em 2018, 80% das famílias do país dependiam de madeira e carvão para gerar energia elétrica à época.
Para Zita Lampião, outra moradora, a floresta não só garante recursos como lenha, carvão e suplementos medicinais, ela é vida, porque as árvores protegem as habitações precárias dos ventos fortes, “mas enquanto persistir a falta de quase tudo na região, males contra a flora serão contínuos”, lamenta.
De acordo com a legislação, o Estado estabalece unidades de manejo florestal em áreas delimitadas e sob gestão participativa e inclusiva, por meio de um plano de manejo florestal integrado, visando assegurar a sustentabilidade e gestão holística do patrimônio florestal, ao mesmo tempo que promove a organização das comunidades locais e assegura a gestão participativa deste patrimônio.
Apesar do Estado reconhecer a gestão participativa das florestas com o envolvimento das comunidades, entidades não-governamentais denunciam fraca participação das pessoas na gestão dos recursos florestais, regras ineficazes na redução da pressão sobre os recursos e fiscalização governamental esporádica. Um estudo publicado pela Fundação para a Conservação da Biodiversidade, em 2007, já apontava que, para um manejo florestal comunitário real, seria necessário resolver uma série de problemas tanto internos como externos, conferindo às comunidades o direito de acesso e propriedade dos recursos, eliminando barreiras burocráticas.
Mecanismos de financiamento às comunidades são ineficientes
Em Moçambique, as queimadas descontroladas, 90% ligadas à ação humana, são responsáveis pela devastação de cerca de 30 milhões de hectares de floresta por ano. O problema está associado à pobreza, já que populações rurais usam fogo como o meio mais rápido e barato para a abertura dos campos para a agricultura e limpeza de arredores das residências como forma de proteção contra animais.
Particularmente nas florestas da província da Zambézia, dados da DPDTA indicam que as queimadas descontroladas são responsáveis pela destruição de 65 mil hectares por ano.
O director do SDAE, Florentino Cardoso, explicou à Mongabay que o distrito tem desenvolvido vários programas para reduzir o desmatamento, destacando-se o financiamento através do Banco Mundial, a 33 Organizações Comunitárias de Base (OCB), uma delas em Tónduè, para fomento a outras fontes de renda, como a apicultura. Estas OCBs – grupos formados por membros da comunidade para a proteção das florestas, foram financiadas no âmbito do Fundo de Carbono, num valor de 37,8 milhões de meticais (591 mil dólares).
“Sentimos que as mensagens de sensibilização às comunidades ainda não estão a ser adotadas. A consciência da comunidade está mais virada a aspectos culturais. Um dos programas financiados foi a apicultura, mostramos a eles que sem floresta não há apicultura, assim seria necessário manter a floresta para continuar a praticar a atividade”, detalha.
Paralelamente à monitoria feita pelo governo para desenvolver novas fontes de renda, Cardoso explica que as comunidades têm a responsabilidade de monitorar a floresta continuamente e, segundo ele, pelo menos 75% das plantas sobrevivem à fase embrionária no distrito onde o programa é desenvolvido.
O diretor do SDAE destaca que esta ação durou cinco anos e já foi encerrada. Com isso, terminado o programa de financiamento, cabe ao governo adotar outras medidas para a continuidade dos cuidados num contexto de corte ilegal de árvores que ronda os 60% das mudas de replantio.
O presidente do Comité de Gestão de Recursos Naturais e um dos líderes da comunidade de Tónduè, Ordem Maugete, explica que os benefícios para a população local, no âmbito da gestão de florestas, foram registrados pela primeira vez no ano passado, quando colmeias para a produção de mel foram instaladas, beneficiando 22 membros da comunidade.
“Temos sim colmeias, instaladas no ano passado, mas a falta de técnicos que nos possam ajudar no manuseio está a causar desistências por parte dos membros beneficiários. Ainda não obtivemos ganhos [financeiros] com a atividade, porque iniciamos há quase um ano e ainda não foi possível colher para a venda”, detalha.
Para Maugete, não é fácil manter alguém cuidando da floresta em tempo integral, por isso, mesmo depois de ter sido repassada à gestão comunitária, houve queimada. Neste contexto, a falta de educação ambiental é apontada como o maior desafio, ao mesmo tempo em que a falta de meios de sobrevivência pressiona os recursos.
As visitas do governo, segundo Maugente, resumem-se, na maioria das vezes, a verificar as mudas e conversar com as comunidades sobre a necessidade de proteção dos recursos. Entretanto, não há informações sobre quando será feito o próximo replantio.
Falta de dados, apoio comunitário e dinheiro desafia monitoramento
O cenário de devastação e queimadas constatado na Floresta de Tónduè resume os problemas de desmatamento enfrentados pela província da Zambézia, admite o diretor da Direção Provincial de Desenvolvimento Territorial e Ambiente (DPDTA), Marcos Sapateiro, apontando a agricultura itinerante – sistema em que o solo é usado pelo agricultor até perder a fertilidade, abandonado depois disso e uma nova área de plantio é aberta – como a principal causa de desmatamento.
Segundo Sapateiro, o reflorestamento em si não constitui problema na província, mas o acompanhamento das espécies replantadas até a fase de crescimento e sensibilização das pessoas para que considerem as plantas como importantes são os grandes desafios, sobretudo devido à insuficiência de recursos financeiros.
No entanto, ele também admitiu que o governo não sabe quanto dinheiro seria necessário para fazer o monitoramento ideal das mudas plantadas, porque esses cálculos ainda não foram feitos.
“Em condições normais, o acompanhamento devia ser feito de três em três meses até a fase adulta das plantas e mesmo assim haveria a necessidade de contatos contínuos com as comunidades onde houve reflorestamento, para que elas sejam os principais atores de conservação”, disse.
O cenário atual de acompanhamento das florestas apenas uma vez ao ano é insignificante e não terá impacto positivo no crescimento das florestas, sobretudo se não houver projetos de monitorização que integrem instituições do Estado, afirma Sapateiro.
“As soluções ideais não são implementadas por falta de recursos financeiros. Se tivéssemos capacidade financeira de fazer o acompanhamento, mais de 50% de resultado positivo poderia ser observado”, menciona.
Créditos de Carbono: inclusão das comunidades ainda é um desafio
Apesar da falta de recursos financeiros mencionada pelo diretor do DPDTA, a província da Zambézia é pioneira no país na implementação do programa de Redução de Emissão por Desmatamento e Degradação Florestal (REDD+), tendo recebido 6,4 milhões de dólares por reduzir 1,28 milhão de toneladas de emissões de carbono em nove distritos da província: Mocuba, Mulevala, Mocubela, Alto-Molócuè, Maganja da Costa, Pebane, Ile, Gilé e Gúruè.
Sapateiro explicou que o valor foi canalizado em duas fases, desde 2021, o que ajudou na restauração das florestas nos distritos de Mocuba, Maganja da Costa e Alto-Molócuè. Nessas regiões, há grandes florestas de eucalipto, fruto do projeto, com destaque para a aposta em sistemas agroflorestais, que combinam arborização e produção de alimentos, permitindo a captura do carbono. Ele afirmou ainda que, nas duas fases, os valores provenientes do Banco Mundial e canalizados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento Sustentável (FNDS) foram repartidos entre os governos distritais, provinciais e comunidades.
“As comunidades não estavam preparadas para o recebimento dos valores de crédito de carbono, devido à falta de documentos de identificação e conta bancária. Trata-se de comunidades rurais e, na sua maioria, não possuem documentação. Por isso, a maior parte dessas comunidades ainda não recebeu os valores devidamente. Essa experiência nos coloca a refletir sobre o que deve ser feito se houver outra oportunidade”, detalha.
A canalização dos recursos para as comunidades é apenas um dos desafios que a província enfrenta na implementação dos créditos de carbono. As dificuldades também envolvem a utilização de ferramentas para medir corretamente o carbono, falta de técnicos formados para a atividade, além de assegurar a permanência da floresta em pé.
Um relatório do Centro de Integridade Pública (CIP) publicado em 2024 já indicava à época que o progresso do Programa Integrado de Gestão da Paisagem da Zambézia (ZILMP), cujo objetivo era reduzir o desmatamento nos nove distritos entre 2018 e 2024 e gerar 50 milhões de dólares em receitas de créditos de carbono, estava limitado devido à lenta liberação de fundos e ao aumento do desmatamento, com benefícios mínimos chegando às comunidades locais.
Resultados de outro relatório publicado em dezembro de 2025 pelo Observatório do Meio Rural (OMR) indicam a ineficácia social e ambiental dos projetos de geração de créditos de carbono registrados e implementados em Moçambique, sobretudo no âmbito da estratégia REDD+.
Os pedidos de entrevista enviados ao FNDS por e-mail, assim como contatos telefônicos feitos pela Mongabay, não foram respondidos até a publicação desta reportagem.

Estabelecer uma relação entre as árvores plantadas e as comunidades
Face ao cenário de queimadas verificado após o replantio na Floresta de Tónduè, a aposta numa relação entre as árvores e as comunidades para garantir melhor engajamento na conservação é necessária, de acordo com o Observatório do Meio Rural (OMR), organização não-governamental que realiza estudos na área de florestas.
Almeida Sitóe, membro do OMR explica, em entrevista à Mongabay, que o estabelecimento desta relação pode ser feito através do processo da escolha das espécies, observando o que as comunidades gostariam de ter como árvores ao mesmo tempo que se cria benefícios para elas.
É igualmente importante considerar a segurança da posse da terra da área onde as árvores são plantadas, saber se pertence ao Estado, comunidade, família ou uma empresa privada, o que faz muita diferença no processo de monitoramento e proteção contra danos.
Neste contexto, delegar a floresta de Tónduè à responsabilidade da comunidade foi uma medida acertada, porém é preciso que as comunidades sejam capacitadas suficientemente para garantir o devido cuidado, na visão da OMR.
A capacitação estende-se, igualmente, ao monitoramento, sendo fundamental que o controle seja feito mesmo na ausência de um extensionista ou técnico florestal do governo, permitindo redução dos custos.
“Num ano em que houver ciclone, por exemplo, o recurso do monitoramento pode ser utilizado para atender à emergência. Logo, não haverá monitoramento. Mas se as comunidades estiverem capacitadas para cuidar, o processo estará facilitado”, exemplifica Sitóe. Ele defende ainda a atenção para outros fatores de pressão, como a agricultura, corte de árvores para a produção de lenha e carvão, assim como a caça a ratazanas.
Segundo ele, fornecer mais insumos agrícolas e torná-los mais produtivos contribuiria significativamente para a redução da pressão, ao mesmo tempo que diminuiria as taxas de desmatamento.
A antecipação das queimadas por meio de técnicas de manejo integrado do fogo, como as queimadas frias, uma das formas muito conhecidas especialmente na vegetação de miombo, pode reduzir índices de devastação por este mal na época quente.
“As queimadas feitas muitas vezes na caça a ratazanas significam que as pessoas procuram proteína animal, penso que pode-se dar oportunidade de criarem espécies de pequeno porte como frangos e patos, junto a isso pode-se desenvolver atividades de geração de renda como produção do mel através de colmeias modernas”, aponta.
Em relação ao corte de árvores para a produção de lenha e carvão, Sitóe sugere a adoção de meios alternativos de energia, como eletricidade e gás natural, que apesar de ser um combustível fóssil, tem baixa emissão de gases de efeito estufa, sendo Moçambique um dos principais produtores de gás natural.
País precisa de deixar de plantar árvores e passar a estabelecer florestas
Reflorestar não é simplesmente plantar árvores, é garantir que essas árvores sobrevivam e consigam formar uma floresta. Por isso, o sucesso do reflorestamento deveria deixar de ser medido apenas pelo número de árvores ou hectares plantados, sendo fundamental saber quantas árvores sobreviveram, como cresceram e se as áreas continuam efetivamente reflorestadas ao longo do tempo.
O posicionamento é de Sá Nogueira Lisboa, professor na Universidade Eduardo Mondlane (UEM), que defende investimento na manutenção das áreas, reposição das mudas que morreram, controle das queimadas, proteção contra atividades que possam comprometer a regeneração e escolha de espécies adequadas às condições de cada local.
“Uma muda plantada é apenas o primeiro investimento, o verdadeiro resultado é a árvore que sobrevive, cresce e permanece no terreno. Se uma parte das mudas não sobrevive, o número inicialmente plantado deixa de ser um indicador suficiente de sucesso”, destaca.
Sobre os programas de reflorestamento, olhando para a meta anual de 52 mil hectares e de um milhão de hectares até 2030, Lisboa explica que a meta anual é quase equivalente a toda a área que o país tem atualmente plantada, estimada em cerca de 58 mil hectares. Por isso, o acadêmico classifica o número como uma ambição muito grande, que significaria replicar todos os anos a área total estabelecida até agora.
“A meta anual é muito exigente e requer uma mudança significativa na capacidade de implementação do setor. Faltam poucos anos para 2030 e precisamos aumentar substancialmente o ritmo de plantio, mas também garantir que o que foi plantado sobreviva”, disse.
Em relação às comunidades, Lisboa defendeu que não podem ser vistas apenas como parte do problema, precisam de ser uma parte central da solução, sendo essencial que a educação ambiental comece nas escolas, mas também chegue às comunidades através dos líderes locais, associações de produtores e estruturas comunitárias de gestão dos recursos naturais.
Para os próximos anos, ele vê uma grande oportunidade para Moçambique, por causa das tecnologias atuais que permitem monitoramento mais eficiente de grandes áreas por meio da combinação de imagens de satélite, drones, sistemas de informação geográfica e dados recolhidos no terreno.
Citações
Muatendauafa, A. S. R., & Come, S. F. (2023). Participação das comunidades locais na mitigação de queimadas descontroladas no Parque Nacional de Chimanimani em Moçambique. RECIMA21 – Revista Científica Multidisciplinar, 4(8), Artigo e483777. https://doi.org/10.47820/recima21.v4i8.3777
Imagen do banner: Área de floresta queimada, na província moçambicana de Zambézia. Foto: Far Vubil.