Na comunidade de Feliz Lembrança, situada na região do Caparaó, Espírito Santo, um movimento liderado pela juventude transforma a agroecologia em um modelo de prosperidade sustentável, com o café como principal produto agrícola.
Há cerca de 20 anos, jovens começaram a diversificar culturas, agregar valor à produção e implementar práticas de agrofloresta, enfrentando desafios como as mudanças climáticas, pobreza e nascentes contaminadas e represadas para a pecuária
Hoje, a comunidade celebra a expansão de suas atividades com a aquisição de 144 hectares através de crédito fundiário para cultivo sustentável, revertendo o abandono rural e atraindo novas gerações para a terra.
Diversas políticas públicas, entre elas o programa estadual Reflorestar, têm desempenhado um papel crucial, incentivando práticas de recuperação ambiental que ajudam a fortalecer a resiliência da comunidade.
No alto da porta da igrejinha, lê-se em letras garrafais: “Conscientização”. Não é uma palavra que se costuma ver na entrada de muitas igrejas católicas. “Se a gente não tiver consciência crítica das coisas, a comunidade não melhora. Primeiro, a consciência. O bem não muda as pessoas, o que muda é a consciência.” Quem fala não é o padre, e sim Fabio de Souza Silva, o Fabinho, produtor familiar agroecológico e uma das lideranças de Feliz Lembrança, parte do município de Alegre, no coração da região do Caparaó, no sul do Espírito Santo. A palavra está lá para relembrar que não basta ter fé, é preciso agir. Prova disso é a própria trajetória da comunidade.
“Hoje temos prazer e orgulho de dizer que somos da roça”, diz Fabinho, enquanto pousa a mão no peito e escancara um sorriso. Nem sempre foi assim. Há 25 anos, o cenário era de escassez. Pobreza mesmo. Não à toa, havia uma noção de que roça era sinônimo de vergonha. “A gente via a juventude desanimada, com a autoestima lá embaixo. Na escola não diziam que eram da roça. Mas aí eu me perguntava: rapaz, será que a roça é tão ruim assim? Temos que mudar essa história.”
Estamos no quintal de Fabinho, um lugar espaçoso, rodeado de flores e Mata Atlântica, onde sua filha de pouco mais de um ano de idade corre e brinca, incansável. O café — principal atividade econômica da comunidade, como em todo o Espírito Santo — acaba de ser passado, inundando o ar com um aroma fresco. Uma cena que se multiplica em diferentes áreas de Feliz Lembrança.

Do êxodo rural à prosperidade sustentável
Fabinho foi presidente da Associação de Moradores de Feliz Lembrança (Amfa) em 2024 e administra a Frumel, uma agroindústria de polpas naturais. Acerola, maracujá, manga, abacaxi, graviola, goiaba, amora: a maior parte da matéria-prima é cultivada, colhida e processada dentro do território da comunidade. Atualmente, são quatro agroindústrias em Feliz Lembrança que oferecem produtos diferenciados da agricultura familiar ao mercado local e nacional.
Por meio de um movimento que começou na Igreja e depois se formalizou no associativismo, e sobretudo no trabalho coletivo, a comunidade conseguiu não só fazer com que os jovens permanecessem no campo, mas também trazer de volta aqueles que, em busca de melhores oportunidades, precisaram deixar as terras da família para tentar a vida na cidade. Lá, a agroecologia é um modelo de prosperidade sustentável.
Num contexto em que a população rural brasileira tem encolhido de forma acelerada, com uma redução de 33,8% entre 2000 e 2022 (enquanto a média mundial foi de 19,2%), segundo o Banco Mundial, a trajetória de Feliz Lembrança é um ponto fora da curva. Dados do Censo 2022 (IBGE) mostram que apenas 14,3% dos brasileiros vivem no campo, refletindo um êxodo rural que contribuiu para o crescimento das áreas urbanas e que fragiliza comunidades agroecológicas e tradições locais.
No início dos anos 2000, a diversificação da produção agrícola e de práticas mais ecológicas de cultivo foi intensificado na área. Essa virada foi crucial para abrir os horizontes da juventude local. Fabinho lembra bem: “Se esse ano a produção bruta da comunidade girou em torno de 4 milhões de reais [em 2024], foi porque teve muito suor envolvido.”
“Tudo virando pasto”
A história desta terra, localizada no sul do Espírito Santo, pode ser rastreada até cerca de 300 anos atrás por quem faz parte da linhagem fundadora da comunidade. “Meus tataravós, quando vieram pra cá, encontraram pessoas trabalhando como escravos. Era terrível mesmo. No interior demorou muito mais para a escravidão terminar”, diz Paulo Jr., rapaz louro de olhos azuis, do alto da colina que dá vista para quase todo o território. Sua mão aponta para arbustos, ervas, gramíneas, musgos e brotos, além de milhares de árvores como mangueiras, palmitos, bananeiras, jequitibás, jerivás e, claro, o café. Os diversos tons de verde compõem um mosaico vivo, ondulando ao vento sobre o relevo que sobe e desce. São 262 hectares de terra na totalidade, sendo aproximadamente 80% sistemas agroflorestais (SAF).
Paulo Gonçalves de Azevedo Junior é descendente de portugueses e de outros imigrantes europeus que não sabe especificar. Conta que, ao terminar a escravidão, os antigos proprietários abandonaram as terras e outros foram vendendo-as aos poucos. Nisso, a mata voltou. Os novos donos, incluindo sua família, derrubaram um tanto da floresta para plantar. A parte central, então, foi herança, sendo passada de geração em geração. A porção ao redor foi adquirida através de crédito fundiário. Nascia Feliz Lembrança.
A falta de energia elétrica, como em muitas comunidades rurais brasileiras, fez com que as dezenas de famílias se aproximassem: na base da vela e do querosene, se reuniam, cantavam, rezavam, casavam. A luz só chegou há pouco mais de 30 anos.
Por volta da década de 1960, a crise cafeeira decorrente da erradicação de cafezais pelo governo dizimou o plantio da espécie arábica (Coffea arabica) em toda região, mas inaugurou uma nova era da cultura no estado: a do café conilon (da espécie Coffea canephora), mais resistente e adaptado a ambientes quentes e úmidos. Hoje, ainda que siga vulnerável às mudanças climáticas, é o principal tipo de café plantado na comunidade e arredores, já que o aumento das temperaturas inviabilizou o arábica nessa altitude.

O que se seguiu foi uma realidade dramática. As lavouras foram ficando abandonadas, porque gente como o pai de Hélio Antônio de Azevedo haviam envelhecido e já não davam conta da roça. “Os desafios sociais e econômicos, a falta de instrução, tudo isso era uma preocupação pra mim”, conta Hélio, abrindo caminho com um facão por sua terra reflorestada. Depois de plantar milhares de mudas de árvores nativas, ele deixou que a Mata Atlântica retomasse seu espaço. Isso não quer dizer que seja improdutivo. Só no ano passado, foram 4 toneladas de manga. É um dos únicos que não planta mais café. “Naquele morro ali, o pessoal estava derrubando toda a mata, tudo virando pasto. Eu dizia: gente, vai acontecer um desastre.”
O jovem agricultor de então olhava o padre da recém-construída igreja e encontrava alguém diferente do resto da comunidade, que não se deixava manipular. Um cara que tinha consciência do que estava falando, segundo ele. Hélio foi buscar respostas para suas inquietudes fora do campo, no seminário e nos estudos de teologia e filosofia.
“A CEBS [Comunidades Eclesiais de Base] estava no auge. Tinha essa coisa da Bíblia na vida, então a gente ia para as comunidades todos os finais de semana. Fiquei sempre ligado a essas questões de movimentos [sociais] e ambientais”, diz. Quando voltou a Feliz Lembrança, trouxe consigo sementes de mudança.
Oração: a hora da ação
“Foi a igreja que acabou puxando o movimento”, conta Paulo Jr., que, na época, era uma criança. Não poderia imaginar que, hoje, aos 27 anos, se tornaria o presidente atual da Associação de Moradores. Pela segunda vez. Fabinho, então um jovem na casa dos 20 anos de idade, era um dos participantes mais ativos do grupo de jovens da Igreja, que começou como um espaço para que as novas gerações pudessem falar e se escutar com mais espontaneidade.
Como muitas comunidades rurais, a Igreja funciona como cola social. Feliz Lembrança tem forte relação com a religião, que norteou (e ainda norteia) a conexão entre moradores. “A gente se encontrava, rezava e ia pra casa. Aí viram que só rezar não adiantava. Não resolvia muita coisa”, diz Fabinho. Foi Hélio — a essa altura já professor, mas desistira da docência e voltara para a roça da família — quem sinalizou: oração tem as palavras hora + ação. “A partir dos encontros, a gente passou a levar para a prática a experiência da oração.”
A primeira ação concreta foi um mutirão para recolher o lixo da comunidade. Junto com a coleta, também foi feita uma cartilha e um trabalho de conscientização. Conseguiram que a Prefeitura de Alegre passasse a recolher o lixo, mas o caminho até lá exigiu esforço. Começaram em dois, reunindo-se toda semana, até envolverem os 28 jovens da comunidade — no fim, tiraram 14 carretas cheias de resíduos do território.

Além da limpeza da comunidade, o grupo de jovens se mobilizou para a implementação de fossas sépticas (que depois foram aprimoradas) e para mutirões, que incluíam o cuidado e atenção com doentes, idosos, grávidas, ou quem quer que estivesse passando por um momento delicado. “Os mais velhos são como uma biblioteca de saberes pra gente, né? A gente tem que cuidar deles”, diz Paulo Jr.
Nada era simples. A falta de transporte impactava no acesso à feira de agricultura familiar de Alegre e as primeiras intenções de comercializar diferentes produtos, para complementar a renda da cafeicultura. Hélio conta que, na década de 1980, alguns iam de charrete e outros levavam os produtos nas costas dentro de saco e quiçamba (cesto de taquara).
Acesso à Educação também era um desafio: não havia escola próxima e era necessário percorrer 8 km (a pé ou de bicicleta) até a cidade para estudar. “Eu mesmo fiz só ensino médio supletivo, foi muito sofrido terminar”, diz Fabinho.
“À medida que as ações [voluntárias] foram surgindo, a gente foi percebendo que precisava entender mais, estudar mais. Foi assim que descobrimos que existiam oportunidades e políticas públicas para o campo, mas que não chegavam pra gente. Então começamos a buscar”, diz Fabinho. Iam até cidades próximas ou até a capital Vitória participar de reuniões, audiência públicas, assembleias e conselhos municipais e estaduais. “A gente não entendia nada, mas pensava: um dia nós entende.”
Mais consciente e capacitada, a juventude resolveu assumir a organização da Associação de Moradores e Produtores de Feliz Lembrança, já que, via Igreja, não conseguiam trazer recursos concretos além da fé e do espírito solidário. “O pessoal ria da gente.” O histórico do associativismo não era muito encorajador: havia uma fama de dar muita dor de cabeça, pouco resultado. Mesmo assim, seguiram adiante: regularizaram uma dívida pré-existente, refizeram o estatuto e entenderam que era o mecanismo necessário para acessar políticas públicas e prosperar como coletivo.
“A retomada da associação foi uma beleza para organizar e empoderar a comunidade. Nos aproximamos de vários parceiros, e formamos vínculo com Incaper (Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural) e a UFES (Universidade Federal do Espírito Santo), por exemplo. Todo mundo entrou nessa formação”, conta Hélio.
Políticas públicas e novas oportunidades
A partir de 2007, a comunidade passou a integrar o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e o Programa Nacional de Alimentação Escolar (Pnae). Com a venda direta da produção da agricultura familiar para o governo, passaram a abastecer hospitais públicos, escolas e entidades socioassistenciais, fortalecendo a geração de emprego e renda. Essencial no combate à fome, o PAA foi sucateado nos governos Temer e Bolsonaro, mas retomado no primeiro ano do governo Lula.
“Deu uma freada no êxodo. Começou a gerar oportunidade na comunidade”, diz Fabinho. Além de serem oportunidades essenciais para escoar a produção, os programas, associados à Feira da Agricultura Familiar em Alegre, garantiram uma entrada financeira mais estável para os agricultores, permitindo novos investimentos.
A sequência de conquistas veio feito cascata: construíram a escola rural, que hoje vai até o quarto ano do fundamental. Em 2011, uma emenda parlamentar garantiu a construção da quadra poliesportiva. Em 2012, a sala de informática foi viabilizada com um edital anunciado pelo Ministério das Comunicações na Voz do Brasil.
A cozinha industrial, principalmente gerida pelas mulheres, veio em 2015 e tornou-se um espaço de transformação e autonomia financeira, como conta Josiane Abreu Machado, outra liderança na comunidade, atualmente coordenadora do grupo da Igreja e ministra da palavra. “Questionamos também o que teria para nós, para que pudéssemos ajudar na renda”. De 11 mulheres, muitas começaram a produzir pães, bolos e outros produtos para o PAA e o PNAE, além de fornecer alimento para empresas. Elas estavam agora ganhando seu próprio dinheiro, fortalecendo tanto a economia local quanto o espírito coletivo.
Josiane também é peça-chave em outra rede de colaboração: a apicultura. Ela descreve sua relação com as abelhas como um consórcio. Seu marido trabalha com mel há três décadas, e juntos transformaram a atividade em uma agroindústria regularizada. Com o tempo, veio também a consciência ambiental. “As abelhas estão morrendo, e isso seria catastrófico”, diz. Além da renda, perceberam outro benefício: a polinização melhora a produtividade do café. “Li que tem gente que contrata apicultor só pra colocar caixa de abelha na plantação, porque aumenta em até 30% a produção.” O café ainda é a principal fonte de sustento, mas o mel complementa a renda — assim como a feira do agricultor na cidade.
“A gente viu que tinha mais força do que imaginava, com a união”, diz Fabinho. Feliz Lembrança foi definindo seus pilares fundamentais: religioso, ambiental, social e econômico. “Sem esses quatro pilares, a comunidade não anda”, afirma. Para ele, cada um desses pilares é vital: o religioso fortalece a convivência e o respeito; o ambiental é a base de sua saúde e sobrevivência; o social garante que ninguém fique para trás, mantendo a harmonia; e o econômico é o motor que sustenta as conquistas, sem jamais perder de vista a importância do equilíbrio entre os aspectos da vida. “A gente trabalha isso”, resume.

Inchar é diferente de crescer
E se tem uma batalha que acompanhou a comunidade desde os tempos do êxodo rural foi a luta pela terra. Ou a falta dela. Como conta Paulo Jr., havia necessidade de espaço para crescer, não inchar. “Se as famílias estão aumentando de número, mas não têm oportunidade de desenvolvimento, você está inchando e não crescendo.”
As fronteiras de Feliz Lembrança são bem claras: para além da mata e das agroflorestas, há um gigantesco tapete ralo de pasto, manchado de tons marrons de terra degradada no alto dos morros que cercam a propriedade, formando paredões. ”Estamos igual a um sanduíche: ali em cima também é gado, tudo desse grande proprietário”, sinaliza Paulo Jr., sem citar nomes.
Acontece que o vizinho latifundiário dificultou muito o sonho de crescimento da comunidade. Foram cerca de dez anos de uma corrida contra o tempo e várias idas e vindas. “A gente conseguia o empréstimo pelo crédito fundiário com o valor e ele dizia: ‘agora eu quero mais 10 mil por alqueire'”. Foi um doador que prefere não ser identificado, mas que sabia da história da comunidade, quem emprestou o dinheiro que faltava para a aquisição da tão almejada terra vizinha, via Programa Nacional de Crédito Fundiário (PNFC).
Às 50 famílias que resistiram, outras 30 se juntaram. Os 144 hectares adquiridos foram divididos igualmente entre as famílias adicionais para cultivos em Sistemas Agroflorestais (SAFs), sendo que 20% são destinados à restauração. Em um ano conseguiram pagar o doador. E as parcelas do PNFC estão em dia, com possibilidade até de quitação antecipada.
Pela saúde física, mental, econômica e ambiental
Os sistemas agroflorestais e a agroecologia já eram praticados pelas famílias de Feliz Lembrança, mas não eram conhecidos por esse nome. A diversificação da produção ocorria por questões de sobrevivência. É pelo mesmo motivo que, segundo as lideranças, 95% das lavouras na comunidade não utilizam agrotóxicos. O que usam é pulverização de fungos e produtos biológicos, além de homeopatias naturais. Mas também já teve muito veneno no território. O próprio Paulo Jr. usava agrotóxicos em uma horta de 1 hectare. “Coisa enorme. Mas me deu uma ansiedade, causada pelo inseticida, que ataca o sistema nervoso central. Eu usava veneno faixa vermelha na época.”
A consciência sobre os impactos dos agrotóxicos cresceu não só pela experiência de Paulo Jr., mas também pelos casos de vizinhos que adoeceram. Não era apenas uma questão de saúde física e mental, mas também econômica. Muitos agricultores priorizavam a produtividade a qualquer custo, sem perceber que, no fim, o prejuízo poderia ser maior. “O capitalismo comanda o negócio. O cara pensa em 200 sacas por hectare, mas dependendo da prática que ele fizer, não vai ter nem saúde pra aproveitar o lucro desse café”, diz Fabio. Uma conta que não fecha. Para ele, a sociedade precisa discutir isso.
Mas não é só o solo que precisa ser protegido. O avanço da monocultura e o mau uso da terra afetaram as nascentes, e em alguns períodos, faltou água para muitas famílias. Para reverter esse quadro, investiram em caixas secas e reflorestamento. Todas as nascentes da comunidade estão protegidas agora. O desafio, no entanto, continua, já que vizinhos seguem drenando e contaminando cursos d’água. Mas em vez de gastar energia brigando, a estratégia tem sido cuidar do que é deles e fortalecer as áreas comuns de preservação. Uma das grandes vantagens da nova terra adquirida, por exemplo, é que tem água, e já existe projeto aprovado pelo poder público para o apoio na construção de uma barragem.

Reflorestar “para arrancar o trem pra frente”
Entre 2022 e 2023, a comunidade ingressou no Programa Reflorestar, iniciativa do Governo do Estado do Espírito Santo para investir na recuperação de áreas degradadas e no apoio técnico na implantação de SAFs com café e outras culturas. “Foi um chute no traseiro para a gente arrancar o trem pra frente”, brinca Paulo Jr., destacando como o incentivo acelerou mudanças que já estavam no horizonte.
A transição para modelos mais sustentáveis não é um movimento isolado. Uma pesquisa do Sebrae de 2024 revelou que um terço dos cafeicultores já trabalha, parcial ou integralmente, com produtos orgânicos. Além disso, quase 70% manifestam o desejo de adotar práticas agroecológicas e mais de 30% das lavouras já contam com sistemas agroflorestais. A urgência dessas mudanças se torna ainda mais evidente diante das previsões climáticas: mais de 50% das terras em todo o mundo se tornarão inóspitas para o café até a virada do século, conforme previu um estudo da Universidade de Zurique.
O Espírito Santo tem se destacado como território estratégico para restauração por estar dentro do corredor central da Mata Atlântica e contar com políticas públicas estruturadas, como o próprio Reflorestar. Organizações como o WWF-Brasil enxergam Feliz Lembrança como um exemplo a ser fortalecido. “Nosso apoio se deu na forma de capacitações e assistência técnica para manejo dos SAFs”, explica Gabriela Pereira, analista de conservação do WWF-Brasil. Além disso, a comunidade tem participado de campanhas de monitoramento de aves, um indicador da recuperação ambiental. “Mas esse acompanhamento precisa continuar, para percebermos como a biodiversidade vai respondendo às mudanças”, acrescenta.
A restauração não é apenas ambiental, mas também econômica. Pequenos produtores encontram nesses programas uma maneira de conciliar renda e conservação. “Com sete anos de atuação em pagamentos por serviços ambientais (PSA), observamos que as organizações sociais estão cada vez mais estruturadas e buscam oportunidades para suas regiões”, aponta Vinícius Santana, co-fundador da MV Gestão Integrada, que conecta produtores a iniciativas de PSA. Os números mostram que esse caminho está só começando: apenas dentro do Reflorestar, mais de 1.200 famílias já foram atendidas no Espírito Santo pela MV, com 3 milhões de mudas plantadas e mais de 2 mil hectares recuperados.
Outro avanço importante tem sido a estruturação dos negócios locais. O WWF-Brasil tem apoiado a comunidade na criação de uma identidade visual para sua marca própria de café, o Café Feliz Lembrança. A ideia é comercializar tanto cafés tradicionais quanto especiais, abrindo novas possibilidades de mercado, inclusive para os cafés produzidos por meio da restauração produtiva, como os sistemas agroflorestais. O lançamento está previsto para o primeiro trimestre de 2025. “Esperamos que Feliz Lembrança se torne um case de sucesso, uma vitrine para inspirar outras comunidades e projetos – para que também percebam que é possível integrar os aspectos ambientais com os sociais e econômicos. Além de possível, é fundamental.”, projeta Gabriela.

Um futuro de liberdade
A comunidade segue avançando, sem abrir mão do que considera essencial. Apesar das inovações tecnológicas, os mutirões continuam sendo um pilar, tanto pelo trabalho coletivo quanto pelo valor do encontro. A liderança permanece distribuída, garantindo que decisões e responsabilidades sejam compartilhadas. Os resultados alcançados abrem novas portas, atraindo parcerias e fortalecendo a relação com órgãos públicos. O reconhecimento também vem de fora: a comunidade recebeu o Prêmio Biguá de Sustentabilidade 2019 e passou a integrar o Pacto da Mata Atlântica. Entre os próximos passos estão a ampliação da escola rural e da igreja, a conclusão do calçamento da estrada e da barragem, além da implantação de projetos como energia solar e um centro de formação agroecológico.
Mas, acima de tudo, o maior feito já está em curso: a autossuficiência da comunidade, sua qualidade de vida e a segurança sobre seu próprio caminho. Enquanto embala a filha, agora exausta, nos braços, Fabinho reflete: “Nem eu nunca imaginava essa trajetória linda. Eu tô muito realizado.” E projeta: “O que eu quero para o futuro é liberdade de escolha para a juventude”.
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Imagem do banner: O agricultor Paulo Gonçalves de Azevedo Junior observa a paisagem do Caparaó capixaba; em primeiro plano, as hortas agroecológicas da comunidade de Feliz Lembrança. Foto: André Cherri/V.U.E.L.A.