Pesquisadores estão desenvolvendo soluções para ajudar a reduzir o esforço físico dos coletores de castanha-do-brasil na Amazônia, incluindo tirolesas para transportar sacos pesados, cestos ergonômicos para diminuir a tensão nas costas e um aplicativo que ajuda a encontrar a melhor rota na floresta.
Essas novas tecnologias podem incentivar jovens indígenas e ribeirinhos a seguir coletando castanhas, atividade crucial para a subsistência das comunidades que mantêm a Amazônia de pé.
Esses avanços fazem parte do esforço do Brasil para fomentar a bioeconomia, modelo projetado para gerar crescimento econômico e inclusão social enquanto protege a floresta tropical.
Todos os anos, a chegada da estação chuvosa e a cheia do Rio Anauá indicam que é hora do povo Indígena Wai Wai subir o rio para coletar castanhas-do-brasil. Eles passam as semanas seguintes em acampamentos no meio da Floresta Amazônica, percorrendo os castanhais e enchendo milhares de sacos com os chamados ouriços, os frutos lenhosos que contêm as nozes.
As castanhas-do-brasil são a principal fonte de renda para cerca de 60 mil amazônidas que vivem em comunidades indígenas e ribeirinhas. No território Wai Wai, em Roraima, as castanhas também são parte importante da alimentação, misturadas com farinha de mandioca ou transformadas em caldo, suco ou azeite.
No entanto, trazer as castanhas das profundezas da floresta até as aldeias, e de lá para os comerciantes, é uma aventura. Assim que a coleta termina, os indígenas enchem seus barcos com sacos pesados de castanha e descem o rio sinuoso, onde enfrentam uma série de corredeiras rochosas e cachoeiras. Isso frequentemente força os Wai Wai a saírem de seus barcos e rebocá-los.
Uma das cachoeiras, conhecida como Conceição, é muitas vezes impossível de atravessar, forçando o grupo a terminar o percurso a pé. “A gente encosta a canoa lá em cima da cachoeira”, disse à Mongabay Levi José da Silva, líder da comunidade Anauá. Ele possui uma canoa de 10 metros, que pode levar cerca de 50 sacos de castanha, cada um pesando 50 quilos. “Aí tem um lugar onde a gente desembarca as castanhas e carrega de lá nas costas até o galpão. Eu tenho que carregar os 50 sacos nas costas. O trabalho é muito pesado.”

É por isso que o povo Wai Wai esteve entre as primeiras comunidades coletoras de castanha a aderir a um projeto para facilitar a logística para as comunidades amazônicas. A iniciativa faz parte do projeto Newcast, de fomento à cadeia da castanha, liderado pela Embrapa e financiado pelo Finep.
A ideia é usar um tipo de tirolesa feita com cabos de aço para transportar as castanhas em áreas de difícil acesso. “Essa tecnologia tem uma grande aplicação em locais com corredeiras e cachoeiras”, disse Kátia Silva, que desenvolve o projeto na Embrapa do Amazonas. “A gente escolhe árvores com mais de 25 cm de diâmetro, para poder aguentar o peso, e ancora o cabo nestas árvores com certa declividade, usando sacos grandes que conseguem transportar aproximadamente 200 kg em um trecho de pelo menos 50 metros.”
Em junho, a Embrapa reuniu representantes de três comunidades do Amazonas em Manaus para testar o novo sistema, que recebeu a aprovação dos coletores de castanha. Segundo Kátia, tirolesas já são usadas para transportar commodities agrícolas como banana e maçã, mas esta é a primeira vez que são aplicadas a recursos extraídos da floresta. “A gente vê nesta tecnologia dos cabos aéreos uma oportunidade de trazer os jovens [para o trabalho com a castanha], porque eles já não querem mais assumir essa atividade por ser muito penosa.”
A iniciativa surge enquanto o Brasil trabalha para impulsionar a chamada bioeconomia — empreendimentos econômicos que geram lucro e, ao mesmo tempo, mantêm a floresta de pé. Com as ferramentas e o apoio adequados, um estudo mostra que as comunidades amazônicas tradicionais poderiam gerar até US$ 8 bilhões por ano, mantendo a floresta preservada.
Governos estaduais na Amazônia brasileira têm adotado gradualmente o modelo de bioeconomia, com iniciativas como o Programa Prioritário de Bioeconomia (PPBio), que financiará negócios sustentáveis no Acre e em Rondônia. O Pará lançou seu próprio Plano de Bioeconomia (PlanBio), que promete apoiar o ecoturismo e fornecer assistência técnica aos que trabalham com produtos florestais. No entanto, em muitas partes da Amazônia, as comunidades ainda carecem de acesso a financiamento e infraestrutura básica para processar e movimentar seus produtos.
Um aplicativo para encontrar rotas
O plano é combinar as tirolesas com outra ferramenta em desenvolvimento pela Embrapa: um aplicativo para smartphone que funcionaria como o popular Waze urbano, mas adaptado para a floresta. O usuário inseriria a localização de rios e castanheiras, bem como informações sobre o terreno. O sistema, então, mostraria a melhor rota para mover as castanhas de um ponto a outro.
“Com base neste mapa, em conjunto com estes extrativistas, vamos identificar os locais mais difíceis de acesso e tentar instalar estes cabos lá”, disse Silva. A Embrapa já desenvolveu o aplicativo usando um software pago e agora trabalha para transferi-lo para uma plataforma gratuita e de código aberto (open-source).

Na Reserva Extrativista Rio Cajari (Resex Cajari), no Amapá, cada família tem seu castanhal designado e pode passar até três semanas no meio da floresta coletando as castanhas. “Os castanhais são bem grandes; tem que ficar ali andando o dia todo juntando ouriço, um por um”, disse à Mongabay Elziane Ribeiro de Souza, da comunidade Água Branca do Cajari. “O primeiro passo é juntar tudo, colocar em um local dentro do castanhal que a gente chama de quebrador, onde a gente quebra os ouriços e depois transporta para um ponto onde o caminhão dos atravessadores já estão esperando para comprar.”
Os coletores pegam os frutos caídos no chão com uma vara de madeira conhecida como cambito ou mão-de-onça. Eles jogam os ouriços em cestos trançados que carregam nas costas, conhecidos como paneiros. Devido ao esforço repetitivo, muitos extrativistas sofrem de dor nas costas.
“Imagina você coletando um monte de ouriços, trabalhando o dia inteiro com 50, 60 kg nas costas, e fazendo um movimento para virar isso num monte, pressionando totalmente a coluna”, disse à Mongabay Marcelino Guedes, pesquisador da Embrapa que trabalha com as comunidades da Resex Cajari.

Para aliviar a pressão física, Marcelino e a pesquisadora Aldine Pereira Baia, da Universidade Federal do Amapá, estão trabalhando em um novo modelo de paneiro. Eles o chamam de “paneiro maneiro”. “Estamos trabalhando para desenvolver um paneiro mais leve e ergonomicamente mais adequado”, disse Marcelino. “Também vamos fazer um cambito regulável em termos de tamanho, que é importante para alcançar o fruto que está embaixo de um cipó, por exemplo.”
A cadeia de suprimentos da castanha-do-brasil depende exclusivamente das comunidades da floresta, que geralmente vendem seus produtos a intermediários ou diretamente às indústrias. De acordo com o Observatório Castanha-da-Amazônia (OCA), uma rede da sociedade civil que apoia os produtores de castanha, essa cadeia de valor gera mais de R$ 2 bilhões por ano. No entanto, menos de 5% do lucro vai para as comunidades da floresta.
Além dos desafios comerciais e logísticos, as comunidades também precisam lidar com o acesso precário a serviços básicos como eletricidade e água tratada. Isso as impede de processar as castanhas localmente, o que lhes permitiria vender o produto um preço mais alto. As comunidades também têm enfrentado recentemente os impactos das mudanças climáticas, o que resultou em duas quebras de safra desde 2017. Na safra 2024/2025, algumas comunidades amazônicas colheram 80% menos do que na safra anterior.
Imagem do banner: Indígenas Wai Wai carregam castanhas-do-brasil pela floresta em sacos de 50 quilos. Foto: Rogério Assis/ISA.