A poucas semanas do primeiro turno das eleições presidenciais do Brasil, a violência contra ativistas e defensores do meio ambiente no país voltou a ganhar destaque negativo em um novo relatório da Global Witness, divulgado nesta quarta-feira (16).
O mapeamento, que considera casos ocorridos em 2025, aponta que o número de brasileiros assassinados em decorrência da atividade ambiental que exercem chegou a 26 no último ano. A cifra mais do que dobra o total de vítimas documentadas em 2024 — 12 casos, segundo o informe publicado pela mesma entidade em setembro passado. O resultado é uma variação anual de 116%.
“A maioria [dos casos de 2025] estava relacionada a reivindicações de reconhecimento de territórios ancestrais e de demarcação de propriedades rurais. Documentamos que, entre as vítimas fatais, havia 11 pequenos agricultores e 7 indígenas”, afirma a Global Witness.
O relatório detalha, ainda, que os ataques se concentraram nos estados amazônicos de Rondônia e Pará, que corresponderam à metade das mortes no Brasil. “Nessa região, as fronteiras agrícolas e extrativistas continuam a invadir comunidades de pequenos agricultores, com madeireiros, garimpeiros e pecuaristas ilegais promovendo incursões, grilagem e violência letal”, diz a ONG.
A análise também discute os efeitos da COP30, realizada em Belém no final do ano passado. Segundo a organização internacional, embora o evento climático tenha sido marcado pela participação indígena e incluído “compromissos importantes sobre direitos à terra”, a implementação de medidas que avancem nesse caminho “continua desigual”.
José Carlos da Silva Lima, coordenador nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT), entende que os números reforçam um “problema histórico” no Brasil e evidenciam as falhas do Estado em proteger quem luta por justiça ambiental e territorial. “A natureza é agredida para deixar ‘o terreno limpo’ para o capital. E quando há pessoas que se levantam contra esse sistema, são vistas por ele como obstáculos”, disse à Mongabay.
Em um contexto regional, as cifras também chamam a atenção: das 124 mortes de ativistas ambientais documentadas no mundo em 2025, 105 (cerca de 85%) ocorreram na América Latina. A Colômbia liderou mais uma vez o ranking de assassinatos, com 39 casos, seguida pelo Brasil; somados, os vizinhos sul-americanos concentraram 52% dos episódios letais do último ano.
Em uma ótica continental, diz o texto, “a insegurança fundiária continua sendo um dos principais fatores que motivam os ataques, o que demonstra a necessidade urgente de que os governos garantam os direitos territoriais e fundiários dos povos indígenas e afrodescendentes, bem como das comunidades de pequenos agricultores”.
Imagem do banner: Manifestante indígena protesta contra projetos extrativistas durante passeatas em defesa da terra em Brasília (DF). Foto: Jefferson Rudy/Flickr Agência Senado.