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Tubarão-anjo é vendido livremente no RS apesar da proibição do Ibama

O tubarão-anjo, conhecido popularmente como peixe-anjo, segue sendo vendido nas bancas do Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Alex Rocha/PMPA.

  • O Ibama publicou novas regras proibindo a importação de carne de espécies de tubarão ameaçadas de extinção, tornando ilegal qualquer venda de espécies do gênero Squatina, conhecidas como “peixe-anjo” pelos gaúchos.

  • Apesar das novas normas, o peixe-anjo segue vendido livremente no Mercado Público de Porto Alegre, e prefeituras e o governo do Estado fizeram novas encomendas do produto.

  • Além da falta de fiscalização, especialistas apontam que o cumprimento das novas regras esbarra na venda da carne de várias espécies de tubarão sob o nome genérico de cação.

“Boa escolha!”, disse o funcionário de uma das bancas de peixe do Mercado Público de Porto Alegre, quando perguntado sobre o peixe-anjo. “Esse sai bastante. É bem bom, e sem espinho.” O mesmo produto estava à venda em pelo menos outras quatro peixarias do tradicional mercadão da capital gaúcha, a um preço atrativo que variava entre 30 e 37 reais o quilo.

O problema é que o anjo não é peixe, e sim tubarão. Mais especificamente, o nome se refere a três das espécies de tubarão mais ameaçadas do mundo, e cuja pesca é proibida no Brasil: Squatina guggenheim, conhecida como cação-anjo-espinhoso, Squatina occulta, também chamada de cação-anjo-liso, e Squatina argentina, ou peixe-anjo-argentino.

Por muitos anos, o governo brasileiro autorizou a importação de tubarão-anjo dos países vizinhos. Segundo dados da Receita Federal obtidos pela Mongabay através da Lei de Acesso à Informação, 48 toneladas de carne de Squatina guggenheim e 194,6 toneladas de Squatina argentina entraram no Brasil entre janeiro de 2021 e 10 de setembro de 2026, totalizando 242,6 toneladas. A maioria das cargas veio da Argentina, ingressando no país pelas aduanas de São Borja e Uruguaiana, no Rio Grande do Sul, e Dionísio Cerqueira, em Santa Catarina.

Uma vez no Brasil, o produto importado se misturava a grandes quantidades de pescado ilegal. “Havia um esquentamento do produto capturado ilegalmente no Brasil com notas fiscais de importação,” explicou à Mongabay o analista ambiental e agente de fiscalização do Ibama em Porto Alegre, Luiz Eduardo Bonilha.

No início de 2026, o Ibama proibiu a importação de espécies de tubarão ameaçadas de extinção no Brasil, acabando com qualquer brecha para a venda do peixe-anjo. A nova regra foi incluída em uma Instrução Normativa publicada no dia 27 de março, que disciplinou a importação e exportação de diversas espécies de tubarão, e reforçada por uma portaria em 28 de abril.

“Hoje, qualquer quilo [de peixe-anjo], de qualquer origem, é ilegal”, afirma Bonilha.

Peixe-anjo à venda no Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Fernanda Wenzel/Mongabay.

No Mercado Público de Porto Alegre, no entanto, os comerciantes dizem desconhecer a nova regra. Dois vendedores disseram trazer o produto congelado da Argentina, e seguiam confiantes de que o produto era legal. “Como o nosso [anjo] aqui tá proibido, a gente tem que comprar de fora pra conseguir vender”, justificou um dos vendedores. Informado sobre a proibição da importação, ele duvidou da nova regra: “Pela quantidade [de peixe-anjo] que entra toda a semana aqui no Sul, eu acho que não….”

Outros dois comerciantes disseram que o pescado tinha origem no próprio litoral gaúcho, nos municípios de Tramandaí e Rio Grande. “Vamos reforçar a fiscalização junto ao comércio,” disse Bonilha quando soube da venda do tubarão-anjo no mercado público. “Isso constitui conduta criminal.”

Em e-mail à Mongabay, a Secretaria de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul não esclareceu se foi feita alguma ação de fiscalização para garantir o cumprimento das novas regras no Estado (leia a íntegra da resposta aqui).

As normas foram publicadas pelo Ibama meses após a Mongabay publicar um conjunto de reportagens sobre compras de carne de tubarão por órgãos públicos em diferentes regiões do país. No Rio Grande do Sul, a investigação identificou encomendas de 211 toneladas de peixe-anjo por prefeituras e pelo governo estadual, em pregões realizados entre 2015 e 2025. Sob a justificativa de ser um peixe barato e sem espinhos, o tubarão foi parar na merenda de alunos de escolas públicas e no cardápio de hospitais, postos de saúde e abrigos.

Em nota enviada à Mongabay, a assessora técnica Associação Brasileira das Indústrias de Pescados (Abipesca), Lais Belsito, informou que as novas regras são coerentes com a política de conservação de espécies ameaçadas, mas ressaltou que é preciso “avaliar periodicamente o estado de conservação dessas espécies e, quando necessário, reavaliar seu enquadramento”. Segundo a Belsito, ainda não é possível dimensionar o impacto das novas normas nas importações do setor (leia a íntegra da resposta aqui).

Estado e prefeitura ignoram novas regras

Segundo o coordenador de Fiscalização da Biodiversidade do Ibama, Igor de Brito Silva, as compras públicas de tubarão-anjo ficaram automaticamente proibidas a partir da publicação das novas regras. “Novos contratos se tornam ilegais, porque todas as espécies do grupo Squatina de ocorrência no Brasil estão ameaçadas”, ele disse à Mongabay.

Ainda assim, a reportagem descobriu quatro editais recentes para a compra de tubarão-anjo. Um deles foi publicado em 10 de agosto pelo governo do estado do Rio Grande do Sul e prevê o fornecimento de 960 quilos de peixe-anjo para o Hospital Psiquiátrico São Pedro, em Porto Alegre. O processo licitatório já foi concluído.

No levantamento realizado em 2025, a Mongabay identificou 11 editais para a compra de tubarão-anjo pelo executivo gaúcho, totalizando 16 toneladas do pescado. Na época, o governo do estado prometeu orientar todas as suas unidades a retirarem as espécies dos editais de compra.

Questionado pela Mongabay sobre o novo edital, o governo disse por e-mail que “estão sendo adotadas as providências necessárias para a revisão do processo, com a retirada do item e sua substituição por outra espécie de pescado permitida.” Ainda segundo o executivo gaúcho, serão reforçadas as orientações aos órgãos responsáveis pelas compras de pescados” (leia a íntegra da resposta aqui).

Carne de tubarão ameaçado de extinção foi parar na merenda de alunos da rede pública do Rio Grande do Sul. Foto: Angelo Miguel/MEC.

As quantidades registradas nos editais não correspondem necessariamente ao volume de peixe adquirido. As licitações foram realizadas pelo sistema de registro de preços, criado para facilitar compras recorrentes, como é o caso de alimentos. Os órgãos públicos divulgam uma lista com os produtos de que vão precisar ao longo do ano, e as empresas que oferecerem o menor preço vencem. O edital prevê um volume máximo de fornecimento para cada produto, mas isso não significa que os pedidos tenham que alcançar este limite.

Encomendas recentes de peixe-anjo também foram realizadas por três prefeituras gaúchas. Gravataí, que no levantamento de 2025 aparecia como a segunda maior compradora do produto, com 59,4 toneladas, abriu um novo pregão para o fornecimento de tubarão-anjo em 27 de julho de 2026. O edital previa a compra de até 250 quilos do produto, mas nenhum fornecedor venceu o certame. A prefeitura não respondeu aos questionamentos da Mongabay.

A prefeitura de Gramado, que no levantamento anterior havia orçado a compra de 250 quilos de anjo, abriu um novo edital em 1º de julho para o fornecimento de 2.156 quilos do produto. Em mensagem de Whatsapp, a prefeitura afirmou à Mongabay que a aquisição de peixe-anjo em 2025 havia sido cancelada. “O processo licitatório deste ano foi elaborado por outra Secretaria Municipal, constando novamente esta espécie, no entanto, o processo está em andamento e deve ser revisto”, afirmou a prefeitura (leia a íntegra da resposta aqui).

A administração de Colinas também abriu edital em 27 de julho para a compra de 250 quilos de peixe-anjo para a merenda escolar dos alunos da rede municipal. Em e-mail à Mongabay, a prefeitura afirmou que até o momento não houve compra do produto, e que diante da norma ambiental “não será realizada a aquisição do referido item” (leia a íntegra da resposta aqui).

Além do dano ambiental, o consumo de carne de tubarão também pode trazer riscos à saúde em função da presença de substâncias tóxicas como mercúrio, arsênio e chumbo — por estarem no topo da cadeia alimentar, o corpo destes animais acumula os contaminantes de suas presas, das presas de suas presas e assim por diante. Tanto que o Food and Drug Administration (FDA), órgão equivalente à Anvisa nos Estados Unidos, orienta que adultos devem comer carne de tubarão com moderação, enquanto crianças e mulheres grávidas devem evitar totalmente o alimento.

No Brasil, no entanto, a carne de tubarão é recomendada pelo Ministério da Saúde como um dos peixes sem espinhas a serem ofertados a crianças de até dois anos. Em agosto deste ano, a ONG de proteção à vida marinha Sea Shepherd Brasil entrou com uma ação na Justiça contra o Ministério da Saúde, pedindo que essa orientação seja retirada do Guia Alimentar.

“Incluir esse tipo de carne em merendas escolares ou em refeições institucionais públicas é um ato [de] exposição frequente desnecessária de populações vulneráveis a riscos cancerígenos e neurotóxicos”, afirma a ONG na ação.

Embalagens dificultam a fiscalização

A proibição da importação de espécies de tubarão ameaçadas de extinção era uma demanda antiga da Sea Shepherd Brasil. Além de abrir margem para o esquentamento de animais capturados ilegalmente, a organização afirma que é um contrassenso proteger o tubarão-anjo no litoral brasileiro e ao mesmo tempo estimular a captura das mesmas populações na costa dos países vizinhos.

“No Brasil 39% das espécies de tubarão já em risco de extinção,” disse Nathalie Gil, presidente e diretora executiva da Sea Shepherd Brasil, em entrevista à Mongabay. “É um mercado que é absurdamente permissivo.”

Segundo os especialistas, as novas normas do Ibama representam um avanço na regulação deste mercado, mas não resolvem o problema. A carne de tubarão continua sendo vendida em embalagens sob o nome genérico de cação, sem identificação da espécie. Com isso, espécies de tubarão ameaçadas de extinção podem ser facilmente comercializadas “disfarçadas” de tubarão-azul, por exemplo, cuja pesca é permitida no Brasil.

“A importação está resolvida, mas o mercado interno ainda está ao Deus dará”, disse Gil. “É um gargalo e espero que a gente continue buscando alguma solução para isso, seja por vias judiciais ou administrativas”, acrescenta Silva, do Ibama. Para ele, a descrição genérica dos produtos fragiliza a fiscalização e induz o consumidor ao erro. “Não há justificativa para isso. É somente uma conveniência oportunista que favorece a burla.”

Carne de tubarões de diversas espécies são vendidas no Brasil com o nome genérico de “cação”. Foto: Philip Jacobson/Mongabay.

A venda ilegal de tubarão-anjo em Porto Alegre mostra que também é preciso fiscalizar o cumprimento das novas normas pelos estabelecimentos comerciais, mas faltam agentes de fiscalização.

“A gente tem uma estruturação muito deficiente para dar conta de toda a fiscalização ambiental no Estado”, disse Bonilha, do Ibama de Porto Alegre, acrescentando que há apenas 10 agentes de fiscalização para cobrir todo o território gaúcho. “É muito difícil a gente parar tudo para fazer uma operação focal numa espécie.”

A fiscalização também precisa atuar nas fronteiras. Em e-mail à Mongabay, a Receita Federal informou que o controle inicial da importação do tubarão-anjo é feito pelo Ibama, que pode negar a licença de importação. As cargas também estão sujeitas à inspeção física pelo Ministério da Agricultura.

O maior desafio, no entanto, é garantir que o produto não entre no Brasil usando uma documentação de importação falsa, referente a outro tipo de pescado. “O maior desafio é identificar uma carga com falsa declaração de conteúdo e combater o descaminho e o contrabando, que é quando introduzem no país mercadorias lícitas ou ilícitas sem passar pelos controles aduaneiros,” afirmou a Receita Federal (leia a íntegra da resposta aqui).

Imagem do banner: O tubarão-anjo, conhecido popularmente como peixe-anjo, segue sendo vendido nas bancas do Mercado Público de Porto Alegre. Foto: Alex Rocha/PMPA.

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