Philip Fearnside passou 50 anos estudando os limites práticos do desenvolvimento na Amazônia, a partir dos assentamentos agrícolas implantados ao longo da Rodovia Transamazônica, no Brasil. Ao longo da carreira, voltou repetidamente à questão de quem se beneficia desses projetos e quem paga seus custos de longo prazo.
Ele produziu pesquisas influentes sobre desmatamento, carbono florestal, barragens tropicais e os impactos mais amplos das estradas, muitas vezes questionando premissas oficiais sobre emissões e viabilidade econômica. Mais tarde, contribuiu para o trabalho do IPCC sobre mudança climática.
Fearnside combinou pesquisa e atuação pública: traduziu artigos para o português, escreveu para a Amazônia Real e para a Mongabay, conversou com jornalistas e prestou depoimentos sobre projetos como a BR-319. Esse papel também o tornou alvo de hostilidade, inclusive em uma audiência pública em 2021 na qual teve o microfone cortado.
Ex-alunos e colegas o descrevem como um orientador generoso e exigente, com domínio incomum da literatura científica. Em uma homenagem recente no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, ele rejeitou qualquer tom de despedida: pretende continuar trabalhando.
Em uma audiência pública realizada em setembro de 2021 em Manaus, Philip Fearnside leu uma declaração preparada para apresentar seus argumentos contra o reasfaltamento da BR-319, rodovia que liga Manaus a Porto Velho. Ele classificou o projeto como economicamente inviável, afirmou que o processo de licenciamento no Brasil era falho e alertou que a estrada provocaria um desmatamento “catastrófico”.
A plateia começou a vaiar. Fearnside tentou seguir falando, em seu português com sotaque americano, por cima do barulho, até que alguém cortou seu microfone.
Depois dele, falou Sérgio Kruke, do Movimento Conservador Amazonas, aliado declarado do então presidente Jair Bolsonaro. Kruke apontou para Fearnside e perguntou que direito um americano tinha de dizer aos brasileiros o que fazer com sua terra. Acrescentou que os brasileiros tinham o direito de derrubar todas as árvores da floresta, se assim quisessem. A plateia aplaudiu. “Esta casa é nossa!”, gritou Kruke.
O clima foi completamente diferente no início de agosto no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa). Durante duas horas, pesquisadores e ex-alunos realizaram um evento em reconhecimento aos 50 anos de pesquisa de campo de Fearnside na Amazônia, trabalho que fez dele uma das principais autoridades científicas sobre a maior floresta tropical do planeta.
O climatologista Carlos Nobre falou sobre como conheceu Fearnside no Inpa nos anos 1970, antes de sua própria carreira na área de estudos do clima decolar, e sobre a colaboração dos dois em medições pioneiras das trocas gasosas entre floresta e atmosfera. Susanna Hecht, professora da Universidade da Califórnia em Los Angeles, lembrou que encontrou Fearnside em um bar de Belém quando procurava um tema para a dissertação; ele sugeriu o Acre, onde ela acabaria desenvolvendo sua pesquisa.
Ana Albernaz, ex-diretora do Museu Paraense Emílio Goeldi, falou sobre o escritório dele no Inpa. Quando estudantes chegavam com perguntas, Fearnside ouvia com paciência, voltava-se para os “milhões de arquivos” empilhados ao redor, abria a gaveta certa, achava a pasta correta e desenterrava um artigo com algo útil — um gesto especialmente valioso numa época em que era difícil obter literatura científica na Amazônia.
Cadu Young, economista, lembrou que saiu do escritório de Fearnside em 1995, quando era pós-graduando, carregando caixas de papel. O ambientalista Roberto Smeraldi, que passou uma década ao lado dele no órgão consultivo do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil, recordou que Fearnside chegava regularmente com pilhas de artigos recém-publicados; mais tarde, passaria a distribuí-los em CDs e pen drives em conferências e outros espaços. Ao lado de nomes como Tom Lovejoy, Bertha Becker, Paulo Nogueira-Neto e Carlos Nobre, os pares de Fearnside faziam apostas, entre um drinque e outro, quantos novos artigos ele levaria a cada reunião.

A trajetória de Fearnside
Depois de se formar em biologia pelo Colorado College, em 1969, nos Estados Unidos, Fearnside ingressou na organização Corpo da Paz e foi para o Rajastão, na Índia, trabalhar com produção de alimentos e pesca em reservatórios locais. Em seguida, entrou na Universidade de Michigan para preparar sua pesquisa de doutorado sobre a capacidade da agricultura tradicional de sustentar populações humanas.
A intenção era fazer o trabalho de campo na Índia, mas a guerra de Bangladesh, em 1971, atravessou seus planos. Depois que os Estados Unidos apoiaram o Paquistão, a Índia barrou pesquisadores americanos, e Fearnside precisou encontrar uma nova área de estudo.
Ele escolheu a Amazônia.

No Pará, o regime militar implantava projetos de colonização ao longo da recém-aberta Rodovia Transamazônica com a missão de ocupar e “desenvolver” o interior. Fearnside passou dois anos vivendo nas agrovilas ao redor de Altamira, assentamentos criados pelo Incra, onde estudou os sistemas agrícolas dos colonos e a capacidade daquelas terras de sustentar a população assentada. Quando a Índia reabriu, ele já havia decidido ficar no Brasil.
O trabalho sobre colonização partia da mesma pergunta que ele havia formulado para a Índia: quantas pessoas uma área consegue sustentar ao longo do tempo antes que a base de recursos entre em colapso? O governo brasileiro pressupunha que a terra continuaria produzindo; o trabalho de campo de Fearnside indicava que os projetos não levavam em conta os custos de longo prazo da degradação do solo.
Nos assentamentos, Fearnside documentou a velocidade com que os solos amazônicos perdiam nutrientes sob cultivo contínuo e sob as formas regionais de criação de gado. À medida que vastas áreas de floresta tropical eram derrubadas, calculou perdas de biomassa para estimar emissões líquidas de gases de efeito estufa, chegando de forma consistente a números bem acima das linhas de base oficiais do governo. Também publicou estudos sobre perda de solo, hidrologia e o destino de pastagens abandonadas.
Ane Alencar, hoje no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), contou ter visto de perto essa capacidade de antecipação quando era uma jovem cientista, no início dos anos 1990. Na homenagem, destacou os primeiros modelos de Fearnside que acompanhavam a expansão da regeneração secundária pela Amazônia — trabalho publicado muito antes que dados de satélite permitissem verificá-lo. Décadas depois, os mapas do MapBiomas confirmaram os ciclos de desmatamento e abandono que ele havia descrito.
Outro ex-aluno, Gabriel Carrero, disse que recentemente comparou um dos cálculos de biomassa feitos por Fearnside nos anos 1990 com bases de dados atuais de alta resolução. A estimativa antiga coincidiu com os números atuais, com uma diferença de poucos décimos.

Os custos ocultos das barragens e do desmatamento
Quando o Brasil começou a impulsionar grandes hidrelétricas na Amazônia, autoridades as apresentavam como fonte de energia limpa. Fearnside mostrou que reservatórios tropicais rasos alagavam grandes áreas de floresta e geravam emissões significativas de metano a partir da vegetação em decomposição nas primeiras décadas após o enchimento. Publicou extensamente sobre Balbina nos anos 1980 e depois voltou a atenção para Tucuruí, Samuel e megaprojetos posteriores.
Smeraldi observou que questionar a energia hidrelétrica era impopular na época até mesmo dentro de grupos ambientalistas brasileiros, nos quais as barragens eram amplamente aceitas como energia verde. Fearnside se manteve obstinadamente fiel à ciência, documentando fluxos de gases e falhas no projeto de reservatórios em dezenas de artigos, além de questionar as previsões econômicas e as premissas de políticas públicas por trás do boom de construção de barragens naquele período.
Juarez Pezzuti, hoje professor da Universidade Federal do Pará, encontrou esses artigos enquanto investigava os impactos de hidrelétricas sobre comunidades indígenas. Quando Pezzuti ajudou a lançar um esforço independente de monitoramento ao lado de pesquisadores indígenas afetados por Belo Monte — a controversa hidrelétrica no rio Xingu, criticada por previsões infladas de geração de energia e por danos ecológicos substanciais —, Fearnside se ofereceu para ajudar.

A pecuária seguia uma lógica econômica semelhante. As pastagens ocupam a maioria das terras desmatadas na Amazônia, embora sejam relativamente improdutivas sob o manejo mais comum. A partir do fim dos anos 1970 e dos anos 1980, Fearnside argumentou que a pecuária nunca se resumiu à produção de carne: a derrubada era uma ferramenta para garantir a posse da terra e especular com a valorização fundiária, que muitas vezes superava a inflação.
Um proprietário podia lucrar com a derrubada mesmo quando a produtividade do gado era baixa. Os custos resultantes — emissões de carbono, mudanças nas chuvas e perda de biodiversidade — ficavam para a sociedade. No fim dos anos 1980, Fearnside já defendia que a política de desenvolvimento deveria pagar por serviços ambientais da floresta em pé, em vez de subsidiar a derrubada. Em 2003, a revista científica Pesquisa Fapesp observou que ele já havia passado quase 20 anos defendendo os serviços ambientais como base da economia amazônica.
Seus cálculos de biomassa e desmatamento foram usados em avaliações internacionais sobre o clima. Em 2006, a Thomson-ISI classificou Fearnside como o segundo autor mais citado do mundo sobre aquecimento global. Ele quantificou estoques de carbono, contestou estimativas oficiais de emissões que considerava subnotificadas e pressionou pela criação de mecanismos de compensação por desmatamento evitado; mais tarde, contribuiu para os relatórios do IPCC, que compartilhou o Prêmio Nobel da Paz de 2007 com Al Gore.
As estradas criavam a mesma dinâmica em paisagens inteiras. A faixa pavimentada em si ocupava uma área relativamente pequena, mas abria acesso a terras públicas, permitindo que estradas laterais ilegais, acampamentos madeireiros e derrubadas especulativas se espalhassem no clássico padrão em espinha de peixe.

O que vem depois da estrada
A BR-319 percorre cerca de 880 km entre Manaus e Porto Velho. O trecho central de 400 km permaneceu sem pavimentação por décadas, virando lama durante a estação chuvosa e, na prática, bloqueando o tráfego de veículos pelo centro da Bacia Amazônica. Pavimentar essa seção intermediária conectaria Manaus diretamente à fronteira agrícola ao sul. Fearnside e outros pesquisadores argumentaram que as avaliações formais de impacto consideravam apenas as áreas diretamente afetadas, ignorando as redes de estradas secundárias que surgem depois da pavimentação e que inevitavelmente podem desencadear ondas de invasões de terra e desmatamento.
“A decisão de construir uma estrada é do governo”, observou Fearnside em uma entrevista de 2024. Mas, uma vez aberta, posseiros e especuladores entram apostando que o desmatamento ilegal acabaria sendo perdoado por programas de anistia.
Se Fearnside já pensou que conceder títulos em terras públicas não destinadas poderia conter a derrubada especulativa, hoje vê a “regularização fundiária” como um motor de perda florestal. Segundo ele, programas de titulação historicamente legitimam grilagens e incentivam novas invasões.
Vários alunos de Fearnside acabaram trabalhando com ele na estrada.
Claudia Vitel, no evento do Inpa, lembrou os solavancos na BR-319, de Manaus a Lábrea, ao lado de Fearnside e de outros pesquisadores, numa época em que os recursos para viagem eram escassos demais para pagar passagens aéreas. Na ocasião, Fearnside passava o trajeto redigindo um manuscrito no banco de trás.
Maryane Andrade, também ex-aluna, participou com ele de dezenas de audiências públicas tensas sobre a rodovia. Em uma parada em Manicoré, Fearnside desapareceu antes do café da manhã e reapareceu atrasado, depois de vasculhar a cidade atrás de uma copiadora para distribuir a moradores locais artigos científicos traduzidos. Naquela manhã, Andrade fotografou uma moradora indígena lendo um dos impressos.

Além dos periódicos
Fazer a pesquisa chegar às mãos de pessoas fora das universidades tem sido uma parte constante do trabalho de Fearnside. Ele traduz seus artigos técnicos para o português e escreve regularmente para o veículo independente Amazônia Real. Também assinou dezenas de artigos para a Mongabay destrinchando licenças de infraestrutura e projetos de barragens. Os jornalistas eram outra via para levar os achados para além dos círculos acadêmicos.
Henrique Pereira, hoje diretor do Inpa, lembrou como as aulas de pós-graduação de Fearnside eram frequentemente interrompidas por ligações da imprensa: alguém aparecia à porta para avisar que a BBC ou a Folha de S.Paulo estava na linha, Fearnside saía para atender e então retomava exatamente de onde havia parado.
Lucas Ferrante, um dos doutorandos de Fearnside e coautor frequente, trabalhou com ele em estudos sobre a BR-319 e em críticas às políticas ambientais da era Bolsonaro, mapeando pressões sobre terras indígenas. O trabalho gerou reação intensa: Ferrante sofreu assédio, ameaças anônimas e uma agressão física. Na audiência de 2021, em que Fearnside teve o microfone cortado, Ferrante estava sentado na primeira fila.
A audiência de 2021 não foi a primeira vez que o trabalho de Fearnside provocou uma reação xenófoba. Já em 2003, a revista Pesquisa Fapesp observava que as primeiras críticas de Fearnside a megaprojetos como a hidrelétrica de Balbina atraíram ataques diretos. A antropóloga Janet Chernela, que trabalhou com ele no Inpa a partir do fim dos anos 1970, observou que contestar grandes projetos industriais e barragens apoiadas pelo Estado durante a ditadura militar envolvia risco pessoal real.
A bolsa Pew que Fearnside recebeu em 1990 incorporou a atuação pública ao seu trabalho. Ele prestou depoimento com frequência no Congresso, em Brasília — tantas vezes que o ecólogo Carlos Peres brincou que havia perdido a conta.
Fearnside faz uma distinção entre a forma como a pesquisa é conduzida e o que um cientista faz com os resultados. “Uma vez que você fez a pesquisa, precisa tirar conclusões”, disse ele em 2024. Para Fearnside, essas conclusões só se tornam significativas se de fato informarem a tomada de decisão.
O que mais havia mudado ao longo de sua carreira, disse ele à Mongabay, era a escala de tempo. As ideias sobre construir uma economia amazônica em torno da floresta em pé continuavam muito importantes, mas, à medida que os pontos de inflexão do clima e da floresta se aproximavam, reduzir o desmatamento e o uso de combustíveis fósseis se tornou cada vez mais urgente.
Para muitos dos cientistas que ele formou e orientou, esse rigor nas evidências deixou uma marca duradoura. Leonardo Guimarães Ziccardi observou que Fearnside raramente oferecia soluções rápidas, ensinando os alunos a interrogar os dados por conta própria. Gabriel Carrero lembrou que entrou no escritório dele com uma longa lista de perguntas, apenas para ver Fearnside reduzi-las ao único fio que importava. Flora Magdaline chegou da Bolívia praticamente sem publicações; sob sua orientação, dominou a escrita técnica e voltou para casa para construir uma carreira prolífica na pesquisa.
O cientista Britaldo Soares-Filho, cujas simulações de uso da terra se tornaram referência para o planejamento de infraestrutura, conheceu Fearnside em uma conferência do Programa de Grande Escala da Biosfera-Atmosfera na Amazônia (LBA). Fearnside o convidou a Manaus para dar um curso de modelagem — e se matriculou como aluno. Em uma tarde, Fearnside pediu licença para sair mais cedo da aula: precisava voar a Brasília para receber um prêmio.

Trabalho ainda por fazer
Ao fim da homenagem no Inpa, depois de quase duas horas de relatos sobre trabalhos que remontavam aos anos 1970, Fearnside pegou o microfone.
As reflexões, disse ele, pareciam “quase como se isto fosse uma despedida.”
Ele mencionou uma disputa jurídica em andamento que pode forçar sua aposentadoria formal do Inpa, embora a direção do instituto tenha garantido que seu espaço de laboratório permanecerá aberto. Além disso, acrescentou, seu médico lhe disse que ele chegaria aos 100 anos.
Há muito ainda a fazer. Enquanto o Brasil segue esboçando novos projetos de estradas na Amazônia e de exploração de petróleo na foz do rio Amazonas, os problemas que ocuparam Fearnside por meio século não desapareceram.
“Pretendo continuar por muitos anos”, disse ele.
Imagem do banner: Philip Fearnside no estudo de queima da Fazenda Dimona, em 1990. Imagem cedida por Fearnside. Arte de fundo adicionada pela Mongabay para ajustar às dimensões do cabeçalho.