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No Paraná, projeto realiza vacinação inédita do mico-leão-caiçara

Um mico-leão-da-cara-preta, ou mico-leão-caiçara, fotografado durante o projeto de vacinação contra febre amarela conduzido pela SPVS. Foto: Gabriel Marchi. 

  • No litoral paranaense, em áreas de restinga da Mata Atlântica, pesquisadores conduziram a primeira vacinação contra a febre amarela em indivíduos de mico-leão-da-cara-preta (Leontopithecus caissara).

  • A ação inédita ocorreu em julho de 2026 e visa proteger a espécie — conhecida na região como “mico-leão-caiçara” — contra surtos que podem reduzir ainda mais sua já escassa população.

  • O primata está classificado como “em perigo” pela IUCN e sua população silvestre é estimada em menos de 400 indivíduos. Segundo especialistas, ao contrário de outros animais ameaçados, não há micos-leões-da-cara-preta em criadouros, o que aumenta o risco de sua extinção repentina.

Em uma quarta-feira de julho, no coração de uma área de restinga do litoral do Paraná, o chilrear dos tangarás na manhã úmida era pontuado pelos passos abafados. Três pesquisadores de campo da ONG de conservação Sociedade de Pesquisa em Vida Selvagem e Educação Ambiental (SPVS) avançavam cuidadosamente por uma trilha, cada um carregando uma pequena gaiola coberta com um pano escuro.

Dentro de cada gaiola havia um mico-leão-da-cara-preta, conhecido na região como mico-leão-caiçara (Leontopithecus caissara). Depois de capturados com segurança no dossel das árvores, os pequenos primatas — dois machos e uma fêmea — foram levados para uma barraca improvisada em uma clareira, onde fariam história. Algumas horas depois, os indivíduos se tornariam os primeiros de sua espécie a serem vacinados contra a febre amarela.

A postos, uma pequena equipe de pesquisadores e veterinários colocou os micos, um a um, dentro de uma bolsa de algodão para pesá-los, dando início a uma corrida contra o tempo para proteger um dos mamíferos mais ameaçados da fauna brasileira.

O L. caissara é uma das quatro espécies de mico-leão endêmicas da Mata Atlântica e está entre os primatas mais raros do mundo. Descoberto e identificado pela ciência somente em 1990, sua população silvestre foi estimada em 392 indivíduos, segundo um estudo de 2011. Em sua maioria, os animais estão restritos às restingas costeiras entre os estados de São Paulo e Paraná.

Um veterinário da SPVS examina um mico-leão-caiçara já sedado. Foto: Gabriel Marchi.

Sua distribuição, já bastante limitada, também sofre, há décadas, com a fragmentação do habitat. Parte do problema se deve à abertura do canal do Varadouro, uma hidrovia artificial, de 6 quilômetros de extensão e 50 metros de largura, inaugurada no início dos anos 1950 para facilitar o comércio e o transporte interestadual de mercadorias. Ao separar a península do continente, o canal moldou um novo território insular — dando origem à ilha do Superagui.

Assim, a via fluvial que liga a baía de Cananeia (SP) às baías de Paranaguá e dos Pinheiros (PR) dividiu a população de micos, concentrando diferentes grupos entre o Parque Estadual Lagamar de Cananeia, no litoral paulista, e a ilha do Superagui, no litoral norte paranaense, protegida por um parque nacional.

Segundo especialistas, essas separações interrompem o fluxo genético natural e podem levar pequenas subpopulações a sofrer depressão endogâmica, um quadro de redução na capacidade de sobrevivência e reprodução que resulta do cruzamento frequente entre indivíduos aparentados. Além disso, o problema pode limitar a capacidade de adaptação da espécie às mudanças ambientais.

Há uma discussão sobre qual seria o nome mais apropriado para o L. caissara, segundo a veterinária Paula Mangini, da SPVS, que participou da vacinação inédita realizada em 2026. Embora “mico-leão-da-cara-preta” seja a denominação mais utilizada, seguindo a lógica dos nomes baseados nas características físicas de seus parentes — como o mico-leão-dourado (Leontopithecus rosalia), o mico-leão-da-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) e o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) —, a cultura popular e alguns pesquisadores preferem “mico-leão-caiçara”, estabelecendo um vínculo entre o animal e a região onde vive.

“É a mesma coisa com o mico-leão-da-cara-dourada, que muitas vezes é chamado de ‘mico-leão-baiano’”, disse Mangini à Mongabay. “Eu sou a favor de identificá-lo com a região; acho que é para ajudar na conservação: você faz a população se identificar com o animal. Eu voto em ‘mico-leão-caiçara’. E está no nome científico, né? Ele é o Leontopithecus caissara.”

Um mico-leão-da-cara-preta, também conhecido como mico-leão-caiçara. Foto: Gabriel Marchi.

Atualmente, o animal está classificado como “em perigo” na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Ainda com base no estudo de 2011, a IUCN estima atualmente a existência de 250 indivíduos adultos.

Paula Mangini explica que, ao contrário das outras espécies de mico-leão, o L. caissara não conta com uma população de segurança mantida em ambiente controlado, seja em centros de primatologia ou em zoológicos. Assim, caso sua reduzida população silvestre seja seriamente afetada por uma doença, a espécie poderia desaparecer de maneira repentina — sem que haja animais reclusos que possam ser incluídos em projetos de repovoamento.

A febre amarela está entre as maiores ameaças aos primatas brasileiros, como a Mongabay mostrou recentemente em outra reportagem. E, embora a ausência de monitoramento contínuo da espécie de cara-preta na ilha do Superagui — que abriga o Parque Nacional do Superagui, local das primeiras vacinações — tenha impedido os pesquisadores de encontrar evidências de micos-leões-caiçaras mortos em surtos recentes da doença, a ciência aponta diversos riscos.

“Sabemos que a febre amarela passou pela ilha do Superagui [em anos recentes] porque os bugios sumiram. O bugio é extremamente sensível à febre amarela, com baixas [números de casos fatais confirmados] enormes”, disse a veterinária.

Vacinação é parte de plano para conservação da espécie

A especialista explica que, assim, surgiu a ideia de vacinar o mico-leão-caiçara, parte de uma missão que busca oferecer ao animal uma linha de defesa biológica. De acordo com Mangini, além de ser o mais raro dos micos-leões, o L. caissara é também o menos estudado.

Depois de sua descrição formal, em 1990, pelas pesquisadoras Vanessa Persson e Maria Lúcia Lorini, que confirmou boatos sobre a existência de um mico-leão de face escurecida nas florestas costeiras da ilha do Superagui, surgiram estudos sobre seu comportamento e sua alimentação, bem como avaliações sanitárias. Trabalhos de amostragem populacional em campo começaram a ser conduzidos no início dos anos 2000.

Depois disso, porém, especialistas apontam que o monitoramento perdeu força. Durante um trabalho de recuperação do papagaio-de-cara-roxa (Amazona brasiliensis) na mesma região entre os dois estados, na década de 2010, pesquisadores da SPVS perceberam que não havia ninguém atuando ativamente no estudo e na proteção do pequeno mamífero.

Em 2018, a SPVS assumiu a coordenação do programa de conservação do mico-leão-caiçara. O plano reuniu pesquisa científica, monitoramento de fauna, conservação de áreas naturais, gestão de unidades de conservação e trabalho de educação socioambiental junto às comunidades locais. O programa tem como prioridade reduzir os riscos de futuras epidemias.

Já entre 2021 e 2023, também sob o comando técnico da SPVS, foram conduzidas oficinas interinstitucionais, reunindo técnicos do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Fiocruz e do Instituto de Tecnologia em Imunobiológicos (Bio-Manguinhos), para realizar uma ampla avaliação dos riscos sanitários enfrentados pela espécie.

A base científica do projeto de vacinação da SPVS, improvisada em uma área de restinga da Mata Atlântica, na ilha do Superagui (PR). Foto: Gabriel Marchi.

O período de avaliação resultou em um acordo técnico entre pesquisadores e entidades de conservação: com base em diretrizes firmadas na Oficina de Planejamento da SPVS, em abril de 2025, todos os micos-leões-caiçaras capturados na natureza durante atividades de pesquisa devem ser vacinados contra a febre amarela. Essa pactuação levaria Mangini e seus colegas a vacinar os três animais em julho de 2026.

A vacinação também integra as diretrizes do PAN PPMA, política pública de conservação coordenada pelo ICMBio. A iniciativa envolve a colaboração de diferentes instituições, entre elas a Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística do Estado de São Paulo (Semil), cuja equipe participa, desde 2018, de articulações e de contribuições técnicas relacionadas ao programa.

“Há um monte de incerteza sobre essa espécie. Mas, se você puder ter a certeza, no meio [científico], de que [o animal] está vacinado contra a febre amarela, o risco à sua sobrevivência diminui”, diz Mangini.

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O dia da vacinação combinou tensão, procedimentos hospitalares realizados em ritmo acelerado e momentos de forte emoção. A veterinária explicou que, assim que os três animais foram levados para a clínica improvisada, a equipe passou a correr contra “dois relógios”.

Primeiro, contra o efeito inicial da anestesia — que durava, no máximo, cerca de 50 minutos. Nesse período, a equipe tinha uma longa lista de procedimentos a realizar: coleta de sangue, de amostras de pelos e de fezes, obtenção de dados biométricos, implantação de microchip, de radiocolar e, por último, a vacinação.

Além da janela estreita para realizar todos os procedimentos em cada animal, a própria vacina contra a febre amarela também tinha uma contagem regressiva.

Produzido pelo Bio-Manguinhos e derivado das vacinas contra a febre amarela utilizadas em humanos, o imunizante permanece viável por apenas três horas após a diluição. Assim, os três micos precisavam receber suas doses nesse intervalo.

A base científica do projeto de vacinação da SPVS, improvisada em uma área de restinga da Mata Atlântica, na ilha do Superagui (PR). Foto: Gabriel Marchi.

O momento de maior tensão, porém, ocorreu durante a etapa dos radiocolares, usados para rastrear e monitorar o grupo vacinado. Os dispositivos são formados por um cabo flexível de aço revestido de silicone, e cada um precisa ser montado na hora, sob medida, de acordo com o tamanho do pescoço de cada animal.

“Parece fácil quando a gente fala, mas na hora de fazer não é. O cabo não passa, volta; daí o outro fio volta…”, relembra Mangini. Não foi simples: a colocação dos colares demorou tanto que os dois primeiros micos precisaram receber suplementação anestésica para garantir que continuassem sedados enquanto a equipe concluía o procedimento.

Desde que receberam as doses, os três micos vacinados vêm sendo monitorados diariamente por meio dos radiocolares e de armadilhas fotográficas e não apresentaram efeitos colaterais.

Pesquisadora carrega um mico-leão-caiçara em uma gaiola, pouco após a captura para fins de pesquisa e vacinação. Foto: Gabriel Marchi.

Pesquisadores apostam na conscientização ambiental

No fim de agosto, uma reunião entre os pesquisadores e a comunidade local foi convocada para apresentar os resultados do projeto de imunização e responder às perguntas dos moradores.

À frente do trabalho de relacionamento com a comunidade de Superagui, no município de Guaraqueçaba (PR), está Adrianne Pires, bióloga da SPVS. Nascida e criada na ilha, ela organiza oficinas, palestras e atividades práticas com escolas e moradores para ampliar o conhecimento sobre o mico-leão-caiçara. Sua missão é despertar a percepção comunitária de que o animal é um símbolo compartilhado de identidade, memória e patrimônio cultural.

Na avaliação de Pires, os moradores da região passaram a compreender que “conservação e desenvolvimento podem, sim, caminhar juntos, desde que haja diálogo com a comunidade e respeito pelo território”.

“O caminho é buscar um desenvolvimento que valorize a cultura local, as pessoas e a natureza. Como sou do território, eu vejo que conservar não é impedir o desenvolvimento, mas encontrar formas de desenvolver sem perder aquilo que torna esse lugar tão especial”, disse.

Elenise Sipinski, coordenadora técnica do programa de conservação do mico-leão-caiçara, acredita que, com as populações silvestres protegidas, o primata pode se tornar um chamariz para a ilha do Superagui, atraindo a atenção de observadores de fauna, pesquisadores e turistas interessados em atividades sustentáveis.

“O mico só vai estar lá se essa área continuar bem conservada e se os moradores continuarem com esse olhar de cuidado. Em troca, esse ativo ecológico pode qualificar o turismo e os serviços de barqueiro, de pousada e de artesanato, que são características da região”, diz.

A equipe de campo da SPVS responsável pela vacinação dos micos. Foto: Gabriel Marchi.

A etapa seguinte do trabalho envolveu a recaptura do primeiro grupo de animais vacinados e a análise de amostras de sangue para verificar se a imunização foi bem-sucedida. Os pesquisadores ainda aguardam os resultados do laboratório — mas disseram à Mongabay que a recaptura e a soltura dos animais ocorreram sem problemas.

A partir desses resultados, segundo Sipinski, o plano é repetir o procedimento de vacinação em outros grupos de micos-leões-caiçaras, tanto na ilha do Superagui quanto do outro lado da divisa estadual, no litoral paulista.

No longo prazo, o objetivo será estabelecer uma população cativa de segurança, como já ocorre com outras espécies de mico-leão. Segundo a coordenadora, uma das metas do programa de vacinação da SPVS é reunir o máximo possível de dados científicos básicos sobre a espécie para determinar estratégias seguras de controle.

“É um processo muito delicado, e temos que trabalhar com a comunidade para que saibam que não estamos retirando o animal da natureza para colocá-lo em um zoológico. É preciso identificar quais indivíduos são adequados para que cada um seja colocado no lugar ideal. É necessário trazer a natureza para o lugar em que se sente o mais próximo possível do seu ambiente”, diz Sipinski.

Ao falar da soltura dos micos vacinados, Mangini se emociona. Ela descreve, reflexiva, uma cena que a marcou durante o trabalho de campo: à medida que os animais se recuperaram dos últimos efeitos da sedação, agarraram-se aos galhos e saltaram de volta para a floresta.

Ninguém na barraca pôde conter as lágrimas.

“É uma esperança a mais. A gente sabe que [vacinar apenas] três bichos não é nada para [toda a população] de uma espécie. Mas é o primeiro passo.”

Leia também: Estudo mapeia áreas prioritárias para vacinar micos-leões-dourados

Edição: Lucas Berti.

Imagem do banner: Um mico-leão-da-cara-preta, ou mico-leão-caiçara, fotografado durante o projeto de vacinação contra febre amarela conduzido pela SPVS. Foto: Gabriel Marchi. 

Citação: 

Nascimento, A. T. A., Prado, F., Valladares-Padua, C. B., & Júnior, P. M. (2011). Population density of black-faced lion tamarin (Leontopithecus caissara). Neotropical Primates, 18(1), 17–21. doi:10.1896/044.018.0103

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