A Mongabay revisou quase três décadas de estudos científicos sobre os impactos dos metais pesados e percorreu comunidades na Amazônia peruana para seguir o rastro da contaminação por mercúrio.
Pesquisas mostraram que um terço das crianças avaliadas em comunidades indígenas no entorno da Reserva Comunal Amarakaeri, no Peru, cresceu com níveis de mercúrio no cabelo acima do limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
A contaminação não se limita às áreas de garimpo: o mercúrio desce pelos rios e chega a povos indígenas que sequer têm relação com a mineração, enquanto gestantes e recém-nascidos são expostos não apenas ao mercúrio, mas também ao chumbo.
Especialistas denunciam que a verba pública destinada a atender populações afetadas é ínfima, ao passo que o Peru carece de estrutura para medir os níveis de metilmercúrio — a forma mais tóxica do metal, associada ao consumo de peixes de rios amazônicos.
MADRE DE DIOS, Peru — “Bayolet, minha filhinha, fez alguns exames quando tinha cinco anos”, disse Gladys Ordoñez, mãe e moradora da comunidade indígena Shintuya, às margens do rio Madre de Dios, na Amazônia peruana. “Ela já tinha desmaiado duas vezes na escola, mas não sabíamos qual era o motivo… Foi aí que encontraram o mercúrio.”
Gladys ainda se lembra do grupo de “forasteiros” que chegou há uma década para coletar amostras de sangue e de cabelo. Semanas depois, eles voltaram com um alerta: o peixe consumido pela comunidade, principal fonte de alimento local, poderia estar contaminado.
“Dissemos que não, que não podia ser”, disse María Santos, outra mãe que vive ali. “Aqui não extraímos ouro. Aqui não há mineração.” A origem, porém, não estava na aldeia. Na área de rio acima, o garimpo ilegal despejava mercúrio nos rios que cortam a região de Madre de Dios. Assim, os peixes entravam em contato com o metal pesado e desciam o curso d’água até chegarem ao prato de dezenas de famílias da comunidade.
Onze anos depois, o problema continua. Bayolet, então uma criança pequena, hoje tem 16 anos. Cursando o ensino médio, ela disse que ainda enfrenta dificuldades para se concentrar nas aulas. Seu maior desejo é concluir os estudos e cursar enfermagem. Ela se lembra do cansaço constante em sala de aula, da fadiga e da fraqueza. No entanto, após o diagnóstico de exposição ao mercúrio, Bayolet disse ter recebido apenas tratamento para anemia.

Em casa, a família de Bayolet tenta optar por carne de frango e por menos peixe, mas o dinheiro nem sempre é suficiente. As famílias da comunidade vivem em situação de pobreza, sob a pressão de altas taxas de desnutrição e do escasso acesso ao atendimento médico. O contato com as comunidades vizinhas, além do próprio rio, depende de caminhonetes 4×4 que realizam transporte privado — sem horários fixos. Quando os veículos aparecem, cerca de 20 crianças e adultos correm para se espremer na caçamba, amontoados durante uma longa e perigosa viagem de três horas.
“Acredito que o Estado deveria nos informar e realizar novos estudos [sobre contaminação]”, disse Gladys. “Não só para as crianças, mas também para os pais, porque a mineração nas áreas ao redor avançou muito e não sabemos o que fazer nesses casos.”
Shintuya é um dos dez territórios indígenas dos povos Harakbut, Yine e Matsigenka no entorno da Reserva Comunal Amarakaeri. Compartilhada entre os departamentos peruanos de Madre de Dios e Cusco, a área protegida está em uma das zonas de maior biodiversidade do país. Ao mesmo tempo, trata-se de um dos maiores epicentros de contaminação por mercúrio, uma crise impulsionada pela expansão do garimpo. Apenas entre 2021 e 2023, a mineração prejudicou 1.800 hectares em três comunidades ao redor da reserva, segundo relatório de 2024 do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP, na sigla em inglês).
Nos últimos anos, várias dessas comunidades amazônicas ao longo da rota da mineração receberam cientistas de universidades peruanas e estrangeiras interessados em medir os impactos dos metais pesados na população. Os “forasteiros”, como são chamados pelos moradores de Shintuya, deixaram uma mensagem que ainda ecoa em seus pensamentos: “O mercúrio vem sendo servido em suas mesas de jantar.”

Para dimensionar o problema, a Mongabay montou uma base de dados com 7.725 amostras de mercúrio em seres humanos e mais de 5.900 em peixes. Elas foram coletadas às margens de rios amazônicos em Madre de Dios, no Peru; no rio Beni, na Bolívia; e no rio Madeira, no Brasil.
A análise de 39 estudos científicos publicados entre 1997 e 2024 mostrou que moradores de pelo menos 249 comunidades indígenas e ribeirinhas foram expostos à contaminação ao longo de 27 anos. Além disso, revelou-se que outras 702 comunidades vivem em risco apenas por estarem localizadas entre focos de mineração ilegal e áreas onde pessoas testaram positivo para a presença de mercúrio.

No Peru, pesquisadores reuniram 3.380 amostras de pessoas em 102 comunidades; em 78,4% delas — o equivalente a 80 locais —, os níveis de mercúrio superavam o limite estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Em pelo menos 16 comunidades da bacia do rio Madre de Dios, 846 amostras de peixes revelaram a presença de mercúrio nos tecidos de duas espécies consumidas com frequência por indígenas e ribeirinhos. Além disso, outras 291 comunidades não sabem quanto de metais pesados carregam no corpo nem quais são os riscos dessa exposição constante.
Depois de analisar os dados, a Mongabay visitou comunidades peruanas vizinhas à Reserva Comunal Amarakaeri, no sudeste do Peru, como Queros, Shintuya e Puerto Luz, além de outras comunidades sob influência da mineração. A ideia era descobrir o que aconteceu com crianças e gestantes que testaram positivo para mercúrio há mais de dez anos.

Infância contaminada
Durante a reportagem, algumas mães de Shintuya perguntaram quando poderiam voltar a fazer exames de sangue. Outras queriam saber qual remédio tomar para “limpar” o metal do corpo ou mesmo como reconhecer os sintomas de intoxicação por mercúrio.
Sem hesitar, as mulheres apontam a pandemia de coronavírus como um divisor de águas. Segundo elas, foi nesse período que as crises econômica e alimentar se agravaram, obrigando as famílias a recorrer à mineração sazonal para sobreviver. Embora a atividade não ocorra em seu território, alguns indígenas harakbut são forçados a migrar por curtos períodos para trabalhar em áreas ilegais de extração de ouro, o que aumenta ainda mais a exposição a metais pesados.
Eles não têm escolha.

“Eu ajudo meu companheiro na mina”, disse Iris Yante, mãe de três crianças expostas à contaminação por mercúrio. “Durante alguns meses por ano, vamos para as áreas de Quincemil e Delta. Entramos no rio, extraímos, lavamos, mas também queimamos mercúrio. Não sei como isso nos afeta… Já me disseram que faz mal. Não sei se meu marido está doente ou se eu estou. Quem poderia explicar isso para nós?”
Em um dos estudos incluídos na base de dados da Mongabay, pesquisadores investigaram a relação entre os níveis de mercúrio e o desenvolvimento cognitivo, motor e visual de crianças que vivem perto de áreas de mineração artesanal e de pequena escala. Para isso, coletaram amostras de cabelo de 164 crianças de cinco a 12 anos em 14 localidades peruanas, urbanas e não urbanas, no entorno da Reserva Amarakaeri; seis pontos correspondem às comunidades indígenas de Diamante, Shipetiari, Puerto Luz, Boca Isiriwe, Puerto Azul e Shintuya.

A pesquisa foi realizada entre 2015 e 2016 como parte do Estudo de Coorte Amarakaeri (AmCS, em inglês), liderado por pesquisadores da Universidade Duke, dos Estados Unidos, por meio do Duke Global Health Institute, em parceria com cientistas de instituições estrangeiras e peruanas. Os resultados, publicados em 2020, mostraram que um terço das crianças avaliadas (32,9%) apresentava níveis de mercúrio no cabelo acima do limite estabelecido pela OMS; entre as crianças afetadas, foram identificados déficits cognitivos, piora da saúde física geral e problemas nas respostas visomotoras.
Os dados também indicaram que menores que vivem em comunidades indígenas apresentam taxas de toxicidade mais altas do que seus vizinhos em povoados ou áreas urbanas: o nível médio de mercúrio encontrado em seus cabelos foi de 4,1 miligramas por quilo (mg/kg), contra 1,6 mg/kg em crianças não indígenas. No total, 85% das amostras de menores indígenas superavam o nível de segurança de 2 mg/kg estabelecido pela OMS.

Em Shintuya, pouco a pouco, casas de madeira começam a dar lugar a construções de tijolo e cimento. No meio da floresta, a construção mais moderna é a escola, um ponto de encontro onde a internet chega e as crianças se reúnem para brincar. Washington Anyosa Bernales, um dos professores mais antigos, disse à reportagem que os estudantes continuam tendo problemas de atenção, embora atribua isso ao uso de celulares, e não à exposição a metais pesados.
Seu relato, no entanto, traz outra pista. “Em sua maioria, são crianças que, nas férias, vão com os pais às áreas de mineração. Os pais trabalham com ouro, e a família vai junto com eles. Eles migram constantemente. Trocam de escola e, por isso, notamos muitas ausências”, disse.
Bernales se lembra da chegada de um grupo de cientistas à escola há cerca de uma década, quando a infraestrutura ainda era precária. Eles reuniram professores e estudantes para explicar formas de reduzir os níveis de intoxicação. Citaram, por exemplo, o consumo de frutas ricas em antioxidantes e de castanhas devido ao teor de selênio, além da diminuição do consumo de peixes predadores — que acumulam níveis mais altos de mercúrio.
Essas recomendações são respaldadas pela ciência. Claudia Vega, do Centro de Inovação Científica Amazônica (Cincia), explicou que a principal via de exposição ao mercúrio em áreas de mineração é o consumo de peixes carnívoros, que, ao predar peixes menores, concentram mais metais em seus tecidos. Ela recomenda espécies menores, como boquichico (Prochilodus nigricans) ou carachama (Hypostomus sp.), em vez do dourado (Brachyplatystoma flavicans) ou do doncella (Pseudoplatystoma sp.).

Nessa cadeia alimentar, os peixes acumulam metilmercúrio, substância formada na água a partir do mercúrio e considerada a forma mais tóxica do metal. José Alfonso Apesteguia, químico especializado em toxicologia e professor da Universidade Nacional Mayor de San Marcos, em Lima, explica que esse composto orgânico é rapidamente absorvido pelo corpo humano e pode permanecer no organismo por meses; em casos de exposição prolongada, pode provocar danos ao sistema nervoso e aos rins.
Seu Víctor, morador das proximidades de Shintuya, não sabe disso. Toda sexta-feira, às 9h, ele prepara as redes e os apetrechos de pesca e os lança no rio atrás de sua casa. “É para meu consumo, e o resto vendo por aqui”, disse. “Aqui eu pego mais o boquichico, só peixe pequeno. Deve ser melhor, não?”
O mercúrio chega às escolas
O líder comunitário de Shintuya, Fernando Shimbo Vera, disse que nenhuma entidade estatal realizou exames ou promoveu palestras preventivas sobre metais pesados em sua comunidade. A ausência do poder público, segundo ele, abriu espaço para a desinformação: alguns moradores passaram a afirmar que a coleta de sangue era “perigosa” ou que era vendida no mercado clandestino. Hoje, muitos até se recusam a fazer os testes.
Os estudos, porém, existiram — e suas conclusões foram compartilhadas com o Estado peruano à época. Dos Estados Unidos, William Pan, um dos professores que lideraram o Estudo de Coorte Amarakaeri, disse que os resultados foram traduzidos e entregues à Direção Regional de Saúde (Diresa) de Madre de Dios e às famílias da comunidade. A Mongabay consultou o Ministério da Saúde do Peru e a Diresa sobre as medidas adotadas, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Entre 2011 e 2024, Pan e seus colegas publicaram 16 artigos acadêmicos sobre os impactos dos metais pesados nesta região amazônica. Os estudos abordam a exposição ao mercúrio e ao chumbo, seus efeitos sobre o neurodesenvolvimento infantil, o menor peso ao nascer e o período gestacional, além da associação com quadros de anemia e com os riscos ligados ao consumo de peixes e de carne de animais de caça. Cinco desses artigos foram analisados na base de dados elaborada para esta investigação.
Entre esses cinco materiais, um estudo de 2020 sobre neurodesenvolvimento infantil em Amarakaeri alertou que crianças que vivem perto de áreas de mineração precisam de mais informações para reduzir sua exposição ao metal, além de um sistema público de monitoramento para avaliar seu desempenho biológico e cognitivo.
“A descoberta mais importante é que algumas comunidades têm uma exposição tão alta ao mercúrio que crianças e adultos apresentam déficits cognitivos significativos, o que pode gerar desvantagens de longo prazo e intergeracionais em comparação com outras comunidades”, disse Pan. “Muitas dessas populações altamente expostas não participam da mineração nem se beneficiam de suas atividades. Esta é a pior forma de injustiça ambiental.”

O déficit cognitivo é perceptível em Queros, uma das comunidades próximas à Reserva Comunal Amarakaeri e incluída no estudo. Nesse povoado cercado de árvores frutíferas, a escola cabe em uma única sala. Todas as manhãs, nove crianças de seis a 12 anos começam as aulas com uma canção tradicional na língua amazônica harakbut; depois, abrem os cadernos e tentam revisar as lições do dia anterior. Os mais velhos ajudam os mais novos, mas a aula avança aos solavancos: alguns se distraem durante a leitura — ou acham os números complexos demais. Exaustas, as crianças pedem à professora que as deixe sair para brincar à beira do rio.
Ali, não há mineração. No entanto, o território está na mira de quem busca o ouro. “As pressões aumentaram durante a pandemia [de coronavírus]”, disse Sonia Dariquebe, líder comunitária de Queros. “Alguns vieram nos convencer a dar passagem para que extraíssem o ouro, mas não queremos mineração aqui.”
Algo parecido ocorre em Diamante, também vizinha à Reserva Amarakaeri. A professora Miriam Lupac, que trabalhou por mais de uma década com crianças da educação infantil e do ensino fundamental, lembra que seus alunos sofriam com problemas de memória, baixa capacidade de retenção e cansaço constante. “Todos acreditamos que a contaminação chegou pelo rio Colorado, afetando os peixes consumidos pelas crianças. Sem novas avaliações, não podemos medir o avanço da contaminação”, disse.

Em Puerto Luz, onde a mineração atraiu alguns moradores, o diretor da escola, Emilio Sarique Janiri, conta que observa um padrão: os estudantes participam das aulas, mas, no dia seguinte, o avanço desaparece. “Tentamos fazer um pouco de reforço. Mas é como se eles não se lembrassem do que aprenderam”, disse à Mongabay.
O líder educacional acredita que a distração não se deve apenas ao uso de celulares, mas também à exposição a metais pesados. Já o presidente da comunidade, Johnny Nayori, recordou que, há dez anos, uma brigada estatal confirmou a presença de mercúrio em alguns moradores, mas não houve acompanhamento.
Com o tempo, o medo desapareceu.
Os problemas de aprendizagem se repetem em povoados de Madre de Dios situados na área de influência da mineração, ao longo da Rodovia Interoceânica: Santa Rosa, Laberinto, Alto Libertad, Santa Rita e Primavera Baja. Nesta última, o professor Ricardo Olave vê seus alunos resolverem operações básicas, mas travarem diante de problemas de lógica: “Gostaríamos de oferecer reforço, mas essas crianças são as que mais abandonam a escola. Seus pais trabalham sazonalmente em La Pampa [um enclave mineiro], e as crianças acabam migrando junto com eles.”

Os filhos e filhas do garimpo
Em agosto de 2025, a escola da comunidade de Santa Rosa foi convertida em uma clínica improvisada. Em uma das salas, dezenas de crianças do ensino fundamental, vestidas com uniformes brancos e cinzas, fizeram fila para serem avaliadas pela brigada da Diresa de Madre de Dios. Médicos de diferentes especialidades mediram a altura e o peso, examinaram o cabelo e os dentes e fizeram perguntas sobre a rotina em casa e sobre as dificuldades de aprendizagem. Os estudantes brincavam e riam até a hora de passar pela fila mais temida: o exame de sangue feito com uma leve picada no dedo.
Os exames fizeram parte de uma campanha conduzida pela Diresa, entre junho e agosto de 2025, para identificar a exposição a metais pesados em comunidades indígenas no entorno da Reserva Amarakaeri e em povoados afetados pela mineração. Os especialistas procuravam sinais pouco evidentes: falhas de memória, dificuldade de aprendizagem e incapacidade de adquirir novas habilidades. Às vezes, esses sinais vinham acompanhados de dor de cabeça, baixa estatura, despigmentação da pele ou cabelo quebradiço. Não eram provas, mas alertas.
Com base nesses indícios, as brigadas médicas itinerantes identificaram crianças e gestantes que poderiam ser encaminhadas para a coleta de exames de urina, uma das formas de detectar a exposição ao mercúrio. Nem todos são escolhidos porque o teste é processado em Lima e é considerado caro, segundo o médico Esteban Vásquez, um dos integrantes da brigada. Em média, explicou o profissional, de 25 crianças avaliadas, apenas dois quadros seriam considerados suspeitos.
Na campanha de 2025 realizada nos arredores de Amarakaeri, 27% das pessoas com amostras de urina coletadas superaram o limite seguro de mercúrio.

“Nesses povoados, a exposição a metais pesados ocorre pelo consumo de peixe e pela água subterrânea sem tratamento que bebem. Mas também pelo ar que respiram e pelo que tocam. Muitas crianças acompanham os pais às áreas de mineração nos fins de semana, brincam e tomam banho em rios ou poças que contêm chumbo, mercúrio e arsênio, ou respiram os vapores quando o ouro é queimado em casa”, disse Vásquez.
A descrença da população quanto à gravidade da contaminação por metais pesados é outro obstáculo às medidas de prevenção. Em comunidades como Laberinto, a presença do mercúrio é vista pelos moradores com ceticismo. “As pessoas aqui não acreditam nisso”, disse Rosa Fuentes Castro, obstetra do posto de saúde comunitário de Laberinto. “Elas me dizem: se o mercúrio é pesado, como poderia entrar no peixe?” Essa descrença, segundo ela, não é nova: está enraizada nessa zona de mineração há décadas. “Há até quem se lembre de que, antigamente, se dizia que beber água com mercúrio ajudava a ‘esquecer as tristezas’.”
A Mongabay solicitou uma entrevista ao Ministério da Saúde do Peru e à sua Unidade Funcional de Atenção a Pessoas Expostas a Metais Pesados e Outras Substâncias Químicas para conhecer os resultados dessas avaliações e os esforços de prevenção e mitigação dos riscos. No entanto, mesmo após semanas de insistência, a pasta não indicou um representante para falar com a reportagem.

Mercúrio e chumbo ameaçam gestações
K. tem 17 anos e acaba de se tornar mãe. Seu bebê dorme em uma rede improvisada com retalhos de fibra, dentro de um cômodo com piso de terra e paredes de plástico que serve, ao mesmo tempo, de quarto, cozinha e sala. Ela vive em Santa Rita, um dos locais incluídos no estudo conduzido pela Universidade Duke e seus parceiros para investigar os efeitos da exposição pré-natal a metais tóxicos associados à mineração.
A amostra reuniu 198 pares de mães e seus filhos recém-nascidos de Santa Rosa, Laberinto, Alto Libertad, Primavera Baja e Santa Rita, como parte do projeto Coorte de Nascimentos de Madre de Dios (Conamad).
K. permanece ao lado da mãe durante toda a entrevista. Ela falou sobre a precariedade em que vive e sobre seu companheiro, que trabalha no setor de transporte em várias áreas de mineração. Quando questionada sobre a contaminação por mercúrio à qual pode estar exposta, preferiu o silêncio. Em determinado momento, porém, conseguiu dizer que nunca tinha ouvido falar dos efeitos do metal nem da relação entre o problema e os peixes que alimentam sua família.

Os resultados do Conamad, publicados em 2023, mostraram que 29% das mulheres avaliadas nesses povoados apresentavam níveis de mercúrio no sangue acima dos estabelecidos pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC). O estudo registrou concentrações médias de 6,0 microgramas por litro (μg/L) no sangue do cordão umbilical e de 3,6 μg/L no sangue materno.
Outra descoberta chamou a atenção para a presença de chumbo. Mesmo em níveis baixos, a exposição pré-natal a esse metal foi associada a gestações mais curtas e a bebês com menor peso ao nascer. A cada aumento de 5 μg/dL (microgramas por decilitro) nos níveis de chumbo no sangue, a gestação foi reduzida em quase quatro dias e o peso do recém-nascido caiu em mais de 76 gramas, evidenciando o risco silencioso que persiste nos territórios de mineração.
Em áreas como o enclave mineiro de La Pampa, onde a queima do minério de ouro satura o ar de fumaça, gestantes estão constantemente expostas a mercúrio e chumbo. Obstetras e profissionais de saúde nos locais analisados pela Mongabay alertam que essa exposição pode se traduzir em restrição do crescimento intrauterino, alterações no desenvolvimento e maior risco de aborto espontâneo ou de parto prematuro. Segundo Apesteguia, toxicologista, o metilmercúrio pode atravessar a placenta e afetar diretamente o feto, com possíveis danos ao desenvolvimento neurológico.

Beth Feingold, professora associada da Universidade de Albany, em Nova York (EUA), e pesquisadora do projeto, relatou que manteve uma relação próxima com a Diresa de Madre de Dios desde o início do estudo. Sua equipe até entregou à diretoria um resumo escrito dos achados e um plano de acompanhamento de cinco anos. “Preparamos um folheto e devolvemos os resultados aos participantes. Este é o único estudo desse tipo em Madre de Dios”, disse.
Nos centros de saúde do corredor de mineração, obstetras locais atendem com frequência casos de anemia e de complicações decorrentes da falta de controle pré-natal. Segundo elas, essas consultas permitiriam detectar a tempo sinais de exposição ao chumbo ou ao mercúrio. Ainda assim, acompanhar todos os casos é quase impossível, uma vez que as famílias migram junto com os acampamentos de mineração. “O normal é que sejam feitas entre seis e dez consultas, mas geralmente conseguimos apenas uma ou duas antes de as mães se mudarem ou desaparecerem”, disse uma das médicas.

No Peru, a Resolução Ministerial 1026-2020-MINSA, de 2020, estabelece protocolos para o atendimento de pessoas expostas a metais pesados, embora não mencione a existência de centros médicos exclusivos. Os afetados devem ser encaminhados a hospitais de maior complexidade, conhecidos como de nível II e III, que representam apenas 3% dos estabelecimentos de saúde no país, segundo análises.
O problema também é orçamentário. O Plano Especial Multissetorial para intervenção integral em favor da população exposta a metais pesados, decretado pelo Peru em 2021, não conta com orçamento próprio, como confirmaram à Mongabay as pastas da Saúde e do Meio Ambiente; por essa razão, é financiado “com recursos do orçamento institucional disponível”. De acordo com o portal de Transparência Econômica do Ministério da Economia do Peru, para o ano de 2026, o Estado destinou 477.455 soles (cerca de R$ 727 mil) ao Ministério da Saúde e 1.121.445 soles (aproximadamente R$ 1,7 milhão) ao Instituto Nacional de Saúde para o rastreamento e tratamento de pacientes afetados por metais pesados — embora o próprio Estado estime que mais de 10 milhões de pessoas sejam vítimas desse tipo de contaminação.
Além disso, o protocolo do Ministério da Saúde para o tratamento do mercúrio contempla apenas quem foi exposto por inalação durante a jornada de trabalho, não pelo consumo de peixe. Em Lima, capital do Peru, o Centro Nacional de Saúde Ocupacional e Proteção Ambiental para a Saúde (Censopas) é o único laboratório do país especializado no tema. Segundo informações fornecidas à reportagem em resposta a um pedido feito durante a apuração, o centro processa apenas amostras de mercúrio na urina, associadas à exposição ocupacional, e não analisa o impacto da ingestão de alimentos contaminados, como peixes.
“O Estado peruano está atrasado em seus métodos de diagnóstico. Prioriza-se a medição do mercúrio total na urina, que reflete apenas a exposição ocupacional ou a inalação de vapores, e não o metilmercúrio associado ao consumo de peixe. Esta é a principal via de contaminação por metilmercúrio”, alertou Apesteguia.
Claudia Vega, do Cincia, acrescentou que não há laboratórios acreditados no país para análise de metilmercúrio: “Nem sequer se dá a mesma ênfase aos testes de mercúrio total no cabelo, que servem como indicador indireto de metilmercúrio.” Na prática, segundo a especialista, o poder público peruano deixou em segundo plano as populações expostas à contaminação por meio do consumo de peixes.

A situação contrasta com os compromissos assumidos pelo Peru ao ratificar a Convenção de Minamata sobre Mercúrio, em 2015. O tratado estabelece que os países devem promover estratégias de proteção à saúde e de vigilância das populações afetadas por esse tipo de contaminação, além de reconhecer a alta vulnerabilidade dos povos indígenas decorrente do consumo de peixes contaminados.
No entanto, o Plano de Ação Nacional para a Mineração Artesanal e de Pequena Escala (Mape) — instrumento que o Peru deveria ter para cumprir os requisitos da Convenção de Minamata — ainda não foi aprovado como decreto supremo. Até a metade de 2026, havia apenas uma pré-publicação de 2024.
Apesar de duas décadas de pesquisas científicas que documentaram de forma consistente os impactos dos metais pesados na região, os peruanos que vivem às margens do rio Madre de Dios continuam dependendo da água contaminada por um metal invisível que se aloja em seus corpos a cada prato de peixe que levam à mesa de casa.
Leia também: Peixe com mercúrio faz famílias ribeirinhas da Amazônia mudarem refeições
Imagem do banner: Na Amazônia peruana, a poluição por metais pesados chega às gestantes e aos seus filhos por meio da água e de alimentos contaminados por mercúrio e outros elementos tóxicos. Foto: Max Cabello.
Esta reportagem faz parte de uma série especial da Mongabay e foi publicada originalmente em espanhol; leia também a versão em inglês.
Citações:
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