Fundado em 2002 pela engenheira florestal Sílvia Ziller, o Instituto Hórus realiza ações de remoção de espécies exóticas invasoras em Santa Catarina e no Paraná.
Em Florianópolis, o instituto coordena a remoção de pínus, amendoeiras-da-praia e aspargos africanos.
O instituto também mantém uma base de dados nacional sobre espécies exóticas invasoras e ajuda a recuperar a flora nativa distribuindo mudas.
FLORIANÓPOLIS, SC — Ao chegar à Praia Mole, em Florianópolis, a engenheira florestal Sílvia Ziller aponta para o chão, indicando um matinho rasteiro com frutos pequenos, redondos e de um vermelho vibrante. Tipo de aspargo africano usado no Brasil como planta ornamental, o Asparagus aethiopicus se espalhou por áreas costeiras da maior ilha onde fica a capital catarinense, vencendo os esforços de voluntários que trabalharam por um ano e meio tratando de remover espécies exóticas invasoras da praia.
“Ele fica todo emaranhado na vegetação nativa, o que é um complicador”, explica Sílvia, fundadora do Instituto Hórus de Desenvolvimento e Conservação Ambiental, cujas atividades de manejo e controle de plantas exóticas invasoras são tidas como pioneiras no Brasil.
De forma resumida, pode-se definir as espécies exóticas como originárias de lugares diferentes daqueles nos quais se estabeleceram; o adjetivo “invasoras” surge quando elas geram danos à fauna e à flora locais. São exemplos desse grupo no Brasil o búfalo, a tilápia, o mosquito Aedes aegypti e a rã-touro, cujo controle é um desafio para os órgãos ambientais e as comunidades afetadas.
No caso do Asparagus aethiopicus, o controle é particularmente difícil, pois ele se sobrepõe a outras espécies em grandes extensões. É comum que sua remoção implique a retirada de vegetação nativa, em alguns casos demandando retroescavadeiras ou muitos litros de herbicida — o que, na prática, inviabiliza a ação, uma vez que o dano à área costeira seria ainda maior do que o de não extrair a planta.

O aspargo ornamental africano é apenas parte de um problema muito maior, dimensionado em 2024 no Relatório Temático sobre Espécies Exóticas Invasoras, Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos, que lista centenas de espécies danosas aos biomas brasileiros. O documento cita registros de invasões biológicas no Brasil já em 1824, com os estudos científicos começando com um atraso de mais de 160 anos.
O assunto permanece pouco discutido por aqui em comparação com países como a Austrália e os Estados Unidos, mas documentos federais como a Estratégia Nacional para Espécies Exóticas Invasoras, aprovada em 2018 pela Comissão Nacional da Biodiversidade (Conabio), são avanços relevantes.
Casos como o do Pterois volitans, conhecido como peixe-leão, ajudaram a apresentar o problema à sociedade. Apreciado como espécie ornamental em aquários, esse peixe dos oceanos Índico e Pacífico chegou ao Caribe e daí ao Brasil entre 2014 e 2015, ainda não se sabe com certeza como. Desde então, foi registrado na costa nordestina e, em 2022, causou problemas graves de saúde a um pescador no Ceará, que pisou em seus espinhos venenosos e foi parar no hospital com convulsões e paradas cardíacas.
Um estudo publicado em 2019 na revista Science, assinado por 28 pesquisadores, menciona a bioinvasão como uma das cinco principais causas de extinção de espécies no mundo — e ela não se restringe aos problemas causados por espécies vindas de longe, como Sílvia faz questão de enfatizar. A hibridização de saguis de diferentes regiões brasileiras, introduzidos fora do seu habitat natural pelo tráfico de animais silvestres, coloca em risco espécies como o sagui-da-serra-escuro (Callithrix aurita), encontrado em áreas de Mata Atlântica nos estados do Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais.

Pínus: inimigo número um
Hoje com trinta anos de atuação na gestão de invasões biológicas, Sílvia Ziller se envolveu com o tema após o mestrado na Universidade Federal do Paraná (UFPR,) cursado entre o final dos anos 1980 e início dos 1990. Ela trabalhou com o levantamento de vegetação e análise de áreas naturais para restauração, o que a levava a percorrer com frequência uma área de campos naturais numa região alta do Paraná onde eles se misturavam com a floresta de araucária.
Durante as idas e vindas, Sílvia notou que havia muitas árvores do gênero Pinus, pinheiros nativos do hemisfério norte introduzidos no Brasil no começo do século 20 devido ao alto valor comercial de sua madeira. Por saber do impacto negativo das diferentes espécies de pínus à flora nativa do Sul brasileiro, surgiu o interesse de estudar a extensão desses danos em terras paranaenses.
A tese que Sílvia defendeu em 2000 na UFPR é um dos trabalhos que inaugura as pesquisas sobre contaminações biológicas no país. À época da aprovação no doutorado, contudo, houve resistência. “O pessoal fazia piada, porque o pínus era ‘uma grande maravilha’ da produção florestal, uma espécie fantástica que crescia rápido e em qualquer lugar, como se fosse uma coisa boa”, contou Sílvia em entrevista à Mongabay.
O assunto era tão novo na academia brasileira que o Programa de Pós-Graduação em Engenharia Florestal da UFPR tentou por um ano convencer Sílvia a mudar de projeto de pesquisa, porque ninguém tinha referências. Para avançar no levantamento de bibliografia, por exemplo, ela contou com a ajuda via e-mail e pelos Correios de pesquisadores da Nova Zelândia e dos Estados Unidos, países onde os estudos sobre espécies exóticas invasoras estavam mais avançados.
No Brasil, o pínus é utilizado principalmente pela indústria de papel e celulose, na construção civil e na manufatura de móveis. Os dados mais recentes do setor de florestas plantadas compilados pela Associação Catarinense de Empresas Florestais colocam Santa Catarina em primeiro lugar nacional na produção de pínus, seguida pelo Paraná.
Os prejuízos do pínus à vegetação nativa incluem a acidificação do solo, o que diminui a disponibilidade de nutrientes e, consequentemente, a diversidade de espécies nativas. Nesse cenário, a remoção dos pinheiros exóticos se torna imprescindível para recuperar a flora local. Desde 2010, o Hórus remove pínus de áreas de dunas em Florianópolis. Como essas são formações muito sensíveis e a logística para retirada das árvores derrubadas afetaria bastante o ambiente, as toras são deixadas no local. Por não rebrotarem após o corte, inexiste a chance de encontrar novos espécimes crescendo meses mais tarde.
Outra árvore exótica invasora que tira o sono dos voluntários e dos profissionais ligados ao Hórus é a amendoeira-da-praia (Terminalia catappa), presente em áreas de restinga e manguezal em praticamente todo o litoral brasileiro, inclusive em Florianópolis. Sua sombra impede o crescimento da vegetação nativa, empobrecendo e desequilibrando os ecossistemas onde se desenvolve.

Voluntariado e tecnologia
Atualmente, o Brasil é referência regional em espécies exóticas invasoras graças, principalmente, ao trabalho do Instituto Hórus. Fundado em 2002, ele atua em quatro frentes: elaboração de uma base de dados nacional sobre espécies exóticas invasoras, voluntariado para remoção e controle de plantas invasoras, produção e distribuição de mudas de espécies nativas e ações de educação.
O banco de dados inclui plantas, animais e micro-organismos catalogados e revisados por cientistas colaboradores, mas também recebe a contribuição de qualquer pessoa que tenha encontrado indícios de espécies exóticas invasoras em qualquer canto do país. No momento do fechamento desta matéria, havia 552 espécies na base de dados do Hórus.
A colaboração direta da sociedade civil se dá também por meio de ações de recuperação da flora local. Eduardo Valle, voluntário do Hórus, participa de atividades de remoção de espécies exóticas na praia da Daniela, no norte da ilha de Santa Catarina, que são substituídas por mudas nativas.
Com outros integrantes da associação de moradores da Daniela, ele conseguiu aprovar uma proposta de retirada contínua de plantas invasoras no bairro, que conta com o apoio do instituto. “A gente conversou com as várias entidades que são responsáveis pela área aqui — Floram [Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis], ICMBio, UFSC — e foi quase um ano para aprovar esse projeto, junto com a comunidade”, explica.
Apesar dos avanços, que incluem o engajamento de voluntários do próprio bairro e o entendimento dos problemas causados por espécies invasoras, Eduardo pontua que ainda há dificuldades em convencer muitos moradores do perigo de manter plantas invasoras em seus jardins, já que as sementes de várias delas são espalhadas por aves e morcegos.
No litoral do Paraná, o Hórus tem parceria com uma empresa estadunidense para o mapeamento de matrizes de espécies nativas ameaçadas de extinção, das quais são coletadas sementes e frutos para produção de mudas. A lista chega a 60 espécies, e muitas das mudas são doadas a pessoas que dispõem de terrenos nos quais queiram cultivar plantas nativas.
“A gente tem um aplicativo para telefone onde você registra cada plantio, então cada muda é registrada. Eu sei a mãe da muda, onde ela está, sei todo o tempo que ela passou no viveiro e onde as filhas estão. A gente tem já mais de 8 mil mudas plantadas de espécies como canela-preta, peroba, jequitibá e pau-óleo, espécies super raras que você não acha em viveiros comerciais — e com genética local!”, detalha Sílvia.
Um dos programas ativos do instituto estimula a troca da palmeira-real-da-austrália (Archontophoenix cunninghamiana) e da palmeira-imperial (Roystonea oleracea), ambas usadas com fins ornamentais, pelo cultivo do palmito-juçara (Euterpe edulis), nativo da Mata Atlântica.
No Brasil, não há nenhum tipo de licenciamento ou regulamentação em nível federal do setor de plantas ornamentais. Santa Catarina tomou a iniciativa de atualizar sua lista de espécies invasoras em 2025 e incluiu várias plantas ornamentais, desde então proibidas de comercialização no estado ou sujeitas a normas rígidas de controle. “Mas, como não tem licenciamento, é complicado fiscalizar”, diz Sílvia. Ela defende a criação de alguma certificação para plantas ornamentais poderem circular no país, algo que reconhece ser complexo de aprovar por depender de maioria no Congresso Nacional.
Imagem do banner: invasão de Pinus elliottii nas dunas da Lagoa da Conceição, em Florianópolis (SC). Foto: André Ganzarolli Martins, via Wikimedia Commons (CC BY 4.0).
Citações:
Díaz, S., Settele, J., Brondízio, E. S., Ngo, H. T., Agard, J., Arneth, A., Balvanera, P., Brauman, K. A., Butchart, S. H. M., Chan, K. M. A., Garibaldi, L. A., Ichii, K., Liu, J., Subramanian, S. M., Midgley, G. F., Miloslavich, P., Molnár, Z., Obura, D., Pfaff, A., … Zayas, C. N. (2019). Pervasive human-driven decline of life on Earth points to the need for transformative change. Science, 366(6471), eaax3100.https://doi.org/10.1126/science.aax3100
Ziller, S. R. (2000). A estepe gramíneo-lenhosa no segundo planalto do Paraná: Diagnóstico ambiental com enfoque à contaminação biológica [Tese de doutorado, Universidade Federal do Paraná].
Dechoum, M. S., Junqueira, A. O. R., & Orsi, M. L. (Orgs.). (2024). Relatório temático sobre espécies exóticas invasoras, biodiversidade e serviços ecossistêmicos. Editora Cubo.