Pesquisadores descobriram uma relação direta entre o garimpo ilegal, as rotas dos garimpeiros e os casos de malária na Terra Indígena Yanomami.
Agora, eles trabalham em um sistema de alerta que vai utilizar dados de mineração para avisar agentes de saúde locais sobre o risco de um surto de malária.
Os casos de malária caíram drasticamente depois que as forças federais expulsaram os garimpeiros das terras Yanomami, mas os indígenas temem uma nova crise humanitária caso um governo com políticas antiambientais retome o poder nas eleições de outubro.
Um estudo que detalha as ligações entre o garimpo ilegal e os casos de malária na Terra Indígena Yanomami conquistou o segundo lugar no Prêmio MapBiomas, anunciado em julho. O coletivo de pesquisa produz dados sobre o uso da terra no Brasil e reconhece iniciativas que utilizam essas informações para promover a conservação.
O estudo analisou a explosão nos casos de malária durante o governo de Jair Bolsonaro (2019 – 2022), cujas políticas antiambientais incentivaram garimpeiros a invadir a maior terra indígena do Brasil, onde vivem 31.567 pessoas dos povos Yanomami e Ye’kwana.
Os garimpeiros espalharam doenças, contaminaram os rios com mercúrio e afugentaram os animais que serviam de alimento para os indígenas, provocando uma crise humanitária no território, que cobre parte dos estados de Roraima e Amazonas.
Utilizando imagens de satélite e dados do Ministério da Saúde, pesquisadores liderados por Marcia Castro, da Escola de Saúde Pública T.H. Chan, da Universidade de Harvard, nos EUA, descobriram que um aumento de 1% na área de garimpo na Terra Indígena Yanomami estava associado a um aumento de 24% nos casos mensais de malária.
O estudo, publicado em novembro de 2025 na revista PLOS Neglected Tropical Diseases, mostra que a malária também aumentou em áreas sem atividade de mineração, mas utilizadas como rotas pelos garimpeiros.
“O garimpeiro se move muito, porque é preciso trazer insumos e maquinário”, disse Castro à Mongabay. “Ao passar por essas áreas, você é um veículo do parasita enquanto caminha, e você pode ser picado pelo mosquito ao longo do caminho. Pronto, aí [a doença] se espalha.”
As rotas percorridas pelos garimpeiros, segundo os pesquisadores, explicam por que os casos de malária “também aumentaram em polos-base de saúde sem garimpo”, observou o MapBiomas no comunicado de premiação.

Agora, Castro e seus colegas estão trabalhando em uma estratégia para ajudar a eliminar a malária no Brasil. O plano é usar dados sobre mineração, desmatamento e clima para criar um sistema de alerta que avise as autoridades de saúde locais ao primeiro sinal de um surto de malária.
“Vamos poder chegar para a pessoa que coordena o programa de controle [de malária] naquela área e dizer: ‘Olha, esses são os locais onde pode haver um aumento’”, disse Castro. “Se o agente de saúde atuar onde estamos dizendo que pode haver um problema, ele poderá atuar antes do problema estourar.”
O sistema de alerta a ser criado contará com uma nova ferramenta em desenvolvimento pelo MapBiomas, que vai mostrar novas minas sendo abertas a cada semana. Atualmente, esses dados são publicados anualmente. O alerta semanal sobre mineração deve estar pronto no início de 2027.
A malária é uma doença infecciosa transmitida por mosquitos do gênero Anopheles. Ela causa sintomas como febre e dor de cabeça e pode até levar à morte em casos graves e sem tratamento adequado. A mesma pessoa pode ser reinfectada repetidamente, o que dificulta o controle da doença.
“A malária é cruel”, disse Waihiri Yanomami, presidente da associação URIHI Yanomami, que contraiu a doença 13 vezes. “Dá calor, calafrio, febre, fraqueza. Você não consegue andar nem fazer nenhum tipo de exercício, nem consegue trabalhar.”

Casos de malária despencam após força-tarefa
Além de espalhar o parasita, os garimpeiros criam o habitat perfeito para os mosquitos ao destruírem a floresta e abrirem poças que acumulam água parada — criadouros ideais para o inseto.
A fragmentação da floresta, seja para a abertura das minas, transporte de equipamentos ou construção de acampamentos, tem um forte impacto no aumento dos casos de malária, mostrou um estudo publicado em janeiro de 2026 na revista Biology Letters.
“O mosquito que transmite malária se concentra na área de borda de floresta”, disse à Mongabay a pesquisadora-chefe Daniela de Angeli Dutra, professora da Universidade de Bangor, no Reino Unido. “Então, quando você tem uma fragmentação da floresta, você vai ter um aumento nos habitats propícios para a propagação do mosquito.”
Durante o governo Bolsonaro, o número de casos de malária disparou na Terra Indígena Yanomami, com mais de 25 mil casos por ano.
Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a presidência em janeiro de 2023, imagens de crianças Yanomami doentes e desnutridas chocaram o mundo e levaram as autoridades a agir. O governo Lula declarou emergência de saúde pública e enviou uma força-tarefa ao território, composta por agentes de saúde e forças de segurança encarregadas de expulsar os garimpeiros.

O resultado foi uma drástica redução nas áreas de garimpo, que caíram de cerca de 1.800 hectares em 2022 para 29 hectares em 2024. O último relatório do Ministério da Saúde registrou 7.600 casos de malária na Terra Indígena Yanomami entre janeiro e julho de 2026; uma redução de 55% em comparação com os 17 mil casos registrados no mesmo período do ano anterior.
Cerca de 1.150 Yanomami também receberam um novo medicamento de dose única chamado tafenoquina, que não apenas trata a doença, mas também reduz o risco de reinfecção. De acordo com o Ministério da Saúde, o número de reinfecções caiu 61,9% de março a junho de 2026.
“A inovação simplifica o tratamento, amplia as possibilidades de adesão e contribui para reduzir as recaídas, especialmente em comunidades de difícil acesso, como as indígenas”, afirmou o ministério em seu site.
Em um e-mail à Mongabay, o Ministério da Saúde acrescentou que nenhuma morte por malária foi registrada no primeiro semestre de 2026. O ministério afirma que triplicou o número de agentes de saúde e reabriu sete unidades de saúde no território Yanomami desde 2023.
Alguns garimpeiros, no entanto, conseguiram permanecer no terra indígena, se embrenhando mais profundamente na floresta ou migrando para a região de fronteira com a Venezuela. “Os garimpeiros continuam lá, essa que é a grande verdade, e os casos de malária continuam acontecendo”, disse Castro.
Algumas comunidades indígenas ainda enfrentam dificuldades para acessar diagnóstico e tratamento da malária, e precisam caminhar até sete horas para chegar a um serviço de saúde, segundo o líder Yanomami Waihiri. Seu maior medo, no entanto, é que um novo governo anti-indígena vença a próxima eleição presidencial, em outubro.
“Eu tenho muito medo de a situação retornar ao que era durante o governo Bolsonaro”, disse ele. “Ainda tenho um muito recente na minha memória, porque eu presenciei muitos casos do povo Yanomami sofrendo de malária e de desnutrição.”
Imagem do banner: Uma criança Yanomami brinca entre os destroços de uma aeronave da Força Aérea Brasileira no aeroporto de Surucucu. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil.
Citações
Castro, M. C., Arisco, N. J., Diniz, C. G., Ponmattam, J., Peterka, C., Basta, P. C., & Ferreira, M. U. (2025). Mining and malaria in the Brazilian Amazon and in the Yanomami indigenous land. PLOS Neglected Tropical Diseases, 19(11), e0013677. doi:10.1371/journal.pntd.0013677
De Angeli Dutra, D., Fontes, J., Braga, É. M., & Mordecai, E. (2026). Investigating the Yanomami malaria outbreak: Gold mining and malaria. Biology Letters, 22(1), 20250659. doi:10.1098/rsbl.2025.0659