Com a publicação da lista de fungos ameaçados de extinção pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), o Brasil se torna um dos primeiros países da América do Sul a ter uma lista do tipo. Ainda assim, o país corre atrás do prejuízo, já que muitas espécies desaparecem antes de serem avaliadas.
Mais de 90% das espécies de fungos ainda não foram descritas, no ritmo atual de financiamento e formação de taxonomistas, levaria mais de mil anos para descrever as cerca de 3 milhões de espécies estimadas.
O pesquisador Elisandro Ricardo Drechsler-Santos aponta a perda de habitat, como árvores maduras cada vez mais raras, inserção de espécies exóticas invasoras e a presença de gado como as principais ameaças à conservação dos fungos.
A funga — termo que designa o conjunto de espécies de fungos de uma região, de forma similar à fauna para animais e à flora para plantas — foi, por muito tempo, esquecida nas políticas ambientais brasileiras. Esse cenário começou a mudar com a publicação da primeira lista nacional de fungos ameaçados, pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), em junho deste ano. Com isso, 24 espécies passam a ter, pela primeira vez, o mesmo status legal de proteção hoje dado a plantas e animais.
Um dos pesquisadores à frente desse processo é o professor Elisandro Ricardo Drechsler-Santos, biólogo da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que estuda fungos há anos, com foco em áreas de altitude, conservação de espécies e taxonomia. Ele também coordena o grupo de pesquisa MIND.Funga, dedicado a mapear a biodiversidade de macro e microfungos em ecossistemas ameaçados, como as matas nebulares.
O MIND.Funga também é responsável pela Coleção de Fungos Ameaçados do Brasil (CFAB), primeira iniciativa do tipo no país, que se dedica à conservação da diversidade genética ex situ (fora do local de origem).
Para tirar a lista do papel, foi necessária uma articulação que reuniu o Grupo de Especialistas em Fungos do Brasil (BrazFunSG/IUCN) e o Centro Nacional de Conservação da Flora (CNCFlora). Esse avanço também foi impulsionado pela Rede de Taxonomistas da Funga do Brasil (Rede Funga), financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que engajou especialistas de diversas instituições do país para construir uma base de dados sólida na plataforma Flora e Funga do Brasil.

Nesta conversa com a Mongabay, Drechsler-Santos compartilha os bastidores desse marco político e alerta sobre as ameaças que afetam ecossistemas frágeis, o papel da ciência cidadã e o futuro de quem está começando agora na micologia. A entrevista a seguir foi editada para maior clareza e concisão.
Mongabay: Como você recebeu a notícia sobre a publicação da lista nacional de fungos ameaçados de extinção e qual a sensação de ver o Reino Fungi reconhecido por políticas públicas?
Elisandro Ricardo Drechsler-Santos: Eu tive dois sentimentos num primeiro momento. O primeiro é de realização, de um trabalho coletivo, difícil, de engajamento de pessoas, de tentar mudar o status de uma condição passiva de negligência a um grupo de organismos tão importante, tão gigante quanto a sua diversidade. Foi sim uma grande realização, com um sentimento de conquista. Agora, os fungos nunca mais serão negligenciados, pelo menos nessa perspectiva da ausência na legislação nacional. Com a publicação, os fungos estão sendo considerados pela agenda de conservação da biodiversidade brasileira no mesmo nível das plantas e dos animais.
O segundo sentimento foi de que ainda há muito trabalho pela frente. Enquanto comunidade de especialistas e de interessados na micologia nacional, precisamos de mobilização para documentar cada vez mais a diversidade, fazer mais avaliações do status de conservação das espécies, tentar incluir essas espécies em planos e em ações de conservação para que, de fato, [a proteção] se torne realidade.
Como a proteção dessas espécies pode afetar o cotidiano de quem usa a terra, como os produtores rurais? Uso como exemplo o caso recente do peixe tambaqui, cuja inclusão na lista de espécies ameaçados gerou preocupação em pescadores.
O impacto do tambaqui sendo considerado uma espécie ameaçada é muito maior do que o dos fungos. Por quê? Primeiro porque nós somos um país micofóbico. A gente não consome cogumelos nativos, por exemplo, a não ser os povos originários. Simplesmente se ignorou essa cultura e conhecimento tradicional de utilização de espécies nativas. Além disso, são apenas 24 espécies na lista, que não têm uso pela população. Então, diretamente, assim como o tambaqui, na mesma proporção, não há um impacto.
Mas existem outros tipos de impacto. Por exemplo, essas espécies precisam entrar agora em Estudos de Impacto Ambiental (EIA/RIMA). Onde essas espécies ocorrem, não só é necessário ter um cuidado com o ambiente, mas elas acabam, assim como os animais e as plantas ameaçadas de extinção, sendo alvo de pesquisas e podem, inclusive, impedir a execução de obras. A primeira coisa é que essas espécies precisam ser alvo de pesquisa para estudos de impacto ambiental.
Olhando para o cenário global, o Brasil está sendo pioneiro na inclusão desse reino em políticas públicas, estamos seguindo uma tendência internacional ou, na verdade, estamos apenas correndo atrás do prejuízo em relação a outras nações?
Primeiro, é inovador. Nem todos os países têm listas nacionais específicas para a funga. Na América do Sul, eu acho que nós somos o segundo país, [Chile foi o primeiro em 2013] talvez o terceiro, não mais do que isso. Na Europa, alguns países já têm esse histórico de reconhecer espécies ameaçadas de extinção.
Mas, é também correr atrás do prejuízo, porque as espécies estão desaparecendo. Existe um histórico antigo de reconhecer a fauna e a flora ameaçadas, mas não existe esse histórico para os fungos. Apenas agora foi publicada e considerada uma lista de espécies, e apenas 24. Precisamos correr atrás para incluir essas espécies em programas de conservação.
Qual a importância desses organismos para a sobrevivência de ecossistemas?
Esses organismos são vitais para os serviços ecossistêmicos, ou seja, para a qualidade e saúde dos ambientes naturais. Imagine que esses ecossistemas funcionam como uma maquinaria, onde cada espécie — seja de animal, de planta ou de fungo — atua como uma peça desse quebra-cabeça. A ausência de fungos compromete toda essa dinâmica. Eles realizam relações específicas com outros seres vivos e atuam na ciclagem de nutrientes, principalmente do carbono e de outros elementos biogeoquímicos. Essas peças são fundamentais para o funcionamento dos ecossistemas.
Pensando nesses ecossistemas, quais são as pressões e ameaças mais urgentes que os fungos estão enfrentando, e como as ferramentas de conservação que temos em mãos podem ajudar a reverter isso?
As principais ameaças são a diminuição da área e a perda de qualidade dos ambientes naturais. Sabemos que algumas espécies de fungos ocorrem somente em florestas com alto grau de preservação. Por exemplo, existem fungos encontrados apenas decompondo troncos grandes de árvores super maduras que caíram de forma natural. Hoje, é cada vez mais difícil encontrar essas árvores vivas, e muito mais os seus troncos gigantes nesses ambientes. Ou seja, a existência dessas espécies ameaçadas depende diretamente das condições de qualidade do habitat.
Existem também outras pressões, como as espécies exóticas invasoras. Quando você introduz uma peça nova nessa “maquinaria” que não tem controle natural, ela pode ser super agressiva, ocupando o nicho e as funções que deveriam ser de espécies nativas. No Brasil, várias espécies de fungos exóticos foram introduzidas com plantas como o pínus (Pinus spp.) e o eucalipto (Eucalyptus spp.), e ainda não temos estudos que determinem quais são, de fato, [as espécies que têm comportamento de] invasoras.
Além disso, temos o impacto de animais exóticos. O gado, por exemplo, impacta de forma muito forte o processo de regeneração natural das florestas nebulares no sul do país. Essas matas já são frágeis por natureza: são pequenos fragmentos localizados na altitude e que dependem diretamente de condições climáticas muito específicas de umidade e temperatura.
Para se ter uma ideia, em todos os fragmentos de mata nebular que o nosso grupo de pesquisa já visitou, encontramos evidências ou a própria presença do gado. Ele impacta, não só pelo pisoteio no processo de regeneração natural dessas florestas, que são centenárias, e levam décadas para se estabelecer, mas também acabam comendo plântulas, fazendo um processo de seleção artificial das espécies vegetais que ocorrem ali. E nós temos uma funga muito particular, com várias espécies ameaçadas de extinção, que ocorre de forma endêmica justamente dentro dessas matas nebulares. É um problema bem sério. Outro exemplo é o javali (Sus scrofa), que revira e destrói o solo, sem falar no impacto imensurável do fogo.
Os fungos funcionam como uma bandeira. Eles mostram que os ambientes naturais estão muito impactados, somando-se à mensagem de alerta que já tínhamos com a fauna e a flora. Para reverter isso, temos duas grandes ferramentas. A primeira é a conservação in situ [no local], através da criação de unidades de conservação e da definição de áreas prioritárias, incluindo agora os fungos nos critérios de avaliação governamentais. A segunda é a conservação ex situ [fora do local de origem], que é vital para salvaguardar a diversidade genética cultivando esses organismos em laboratório para, num cenário futuro melhor, devolvê-los à natureza.
Como surgiu a necessidade de criar a Coleção de Fungos Ameaçados do Brasil (CFAB)?
A CFAB é a primeira ação concreta de conservação ex situ de espécies de fungos ameaçados do Brasil. Ela é uma coleção de culturas onde a gente mantém espécies para conservação de médio a longo prazo, e estamos, inclusive, diversificando essas estratégias.
Ela surge a partir do momento em que a gente percebe que existem algumas espécies endêmicas que estão ameaçadas de extinção, em ambientes com muitas pressões. Numa análise utilizando a ferramenta da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), por exemplo, com os critérios e as categorias deles, é provável que essas espécies tenham apenas algumas décadas de sobrevivência, considerando a problemática que existe quanto à sua preservação.
Então, se em seu ambiente natural, ou seja, in situ, existem muitas ameaças, a gente precisa fazer a conservação dessa diversidade genética antes que ela seja totalmente perdida. [Isso é feito] Numa coleção de culturas, viva, ex situ, fora do seu ambiente natural.
Como a ciência cidadã tem transformado a forma de atuar pela conservação de espécies?
Eu acho que a ciência cidadã é o próximo passo para um momento urgente, necessário, de documentação da biodiversidade. Mesmo com o avanço das tecnologias, a gente não vai conseguir catalogar todas as espécies. Estima-se que mais de 90% das espécies de fungos ainda não foram reconhecidas pela ciência. Nesse ritmo de descrição de espécies que existe hoje, e com o histórico pretérito, a gente levaria mais de mil anos para descrever as quase 3 milhões de espécies de fungos que se estima que possam ocorrer, considerando o recurso financeiro que existe e a formação de taxonomistas, de especialistas nessa área.
É preciso continuar ampliando os recursos financeiros para pesquisas, que acessem a diversidade e façam a catalogação dessa diversidade. Mas a gente também precisa investir no entendimento da sociedade sobre a importância desse grupo de organismos. Ou seja, as pessoas precisam se envolver nesse processo de documentação da diversidade.
Hoje em dia existem várias formas que facilitam qualquer pessoa, que não tenha necessariamente a experiência com fungos, de fazer registros através de fotografias, de aplicativos, de sites ou de redes sociais. A gente precisa desenvolver programas que envolvam pessoas nesse processo de documentar a biodiversidade. O nosso país tem proporções continentais, com centenas de ecossistemas que somente existem aqui. O Brasil é estratégico para a documentação, para acessar a diversidade e fazer conservação dela de forma global. Se 15% da diversidade global ocorre no território brasileiro, o mundo tem que olhar para o Brasil com esses olhos de apoio, para que a documentação da biodiversidade aconteça juntamente com a sua conservação.
Como a formação de um micologista mudou desde o início da sua jornada acadêmica?
Com o reconhecimento da importância dos fungos, eu acho que cada vez mais é preciso criar oportunidades para formação de novos micólogos. Principalmente de biólogos, que geralmente são os que acabam se interessando mais pela área da micologia ambiental. Porque a micologia é uma grande área que tem várias linhas de atuação, desde a ambiental até a médica, de prospecção biotecnológica. Enfim, tem muitas áreas na nossa sociedade, vários setores, em que os fungos são úteis, são importantes. Então, tem [potencial para expandir] muito e termos muitos novos especialistas.
Mas, pensando especificamente na formação de biólogos micólogos na área ambiental, eu acho que muita coisa mudou. Existem novas tecnologias sendo incluídas hoje em dia, bioinformática, biologia molecular e etc. Os micólogos hoje em dia, precisam se atualizar [serem formados dentro deste contexto atual e futuro], porque eu acho que cada vez mais a área de estudo dos fungos vai avançar no nosso país.
Imagem do banner: Fungo da espécie Amanita viscidolutea, integra lista nacional de espécies de funga ameaçadas de extinção. Foto: Ariadne Furtado/MIND.Funga/UFSC