Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia de Moçambique, a ocorrência do El Niño em 2026 trará chuvas irregulares e temperaturas acima do normal às regiões Sul e Central do país a partir de outubro.
Com o aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial, o instituto estima que a perturbação à circulação atmosférica global, incluindo aos sistemas hídricos moçambicanos, cause secas severas e estresse térmico prolongado.
Agências humanitárias buscam arrecadar 54 milhões de dólares para apoiar ações preventivas na África Austral, região meridional que inclui Moçambique.
Moçambique poderá enfrentar seca severa em alguns distritos do sul do país a partir de outubro, por causa do fenômeno El Niño, de acordo com o Conselho Técnico de Gestão e Redução do Risco de Desastres (CTGRD).
Em maio, o Instituto Nacional de Meteorologia (Inam) já havia emitido um comunicado à imprensa prevendo os fortes efeitos do El Niño na época chuvosa, que vai de outubro a março. A estação chuvosa corre risco elevado de ser caracterizada por chuvas irregulares, com tendência a ficarem abaixo do normal, combinadas com temperaturas acima do normal nas regiões Sul e Central do país. Como resultado, a previsão é de um cenário de seca.
O diretor-geral do Inam, Adérito Aramuge, explicou que o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, perturbando a circulação normal da atmosfera e afetando a dinâmica climática em todo o planeta.
Na sequência do boletim emitido pelo Instituto, o CTGRD decidiu ativar, em julho, os chamados Planos Distritais de Ações Antecipadas (PAAs), ações de resposta à crise da seca em 10 distritos das províncias de Gaza e de Inhambane, no sul de Moçambique.
Como parte das ações previstas, já estão sendo enviadas mensagens preventivas à população desses distritos, de modo a reduzir os impactos da seca. O plano também inclui a reabilitação de fontes de água para consumo humano e para a agricultura e pecuária familiar de subsistência. Ainda serão implementadas medidas de proteção social — como transferências financeiras e assistência alimentar para famílias vulnerabilizadas.
Além dos distritos com PAAs ativados, existem 16 na fase de prontidão, onde o governo conduz ações de preparação e coordenação, para permitir resposta rápida caso os indicadores de seca atinjam os índices definidos para ativação do PAA.
No entanto, sem orçamento suficiente para executar todas essas ações preventivas, Moçambique está em busca de financiamento para enfrentar os possíveis efeitos do El Niño. O setor da agricultura, por exemplo, tenta mobilizar entre US$ 75 e US$ 100 milhões para apoiar os produtores das províncias potencialmente mais afetadas, segundo o diretor Nacional de Agricultura do país, Jabula Zibia.
Rui Silva, ativista ambiental, disse em entrevista à Mongabay, que a vulnerabilidade de Moçambique às mudanças climáticas torna necessária a busca de ajuda internacional, como a das Nações Unidas, para garantir apoio alimentar às populações e aquisição de sementes resilientes à seca, por exemplo.

Corrida por parcerias e cooperações humanitárias
O diretor da divisão de desenvolvimento das zonas áridas e semiáridas do Instituto Nacional de Gestão e Redução do Risco de Desastres de Moçambique (INGD), Paulo Tomás, explicou que o órgão está em contato com organizações globais para coordenar as ações.
Ele citou o Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários (Ocha, na sigla em inglês), o Programa Mundial de Alimentos (PMA), a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) e o Fundo da ONU para a Infância (Unicef). A lista também inclui organizações não governamentais, como a Save the Children, a Visão Mundial e a Cruz Vermelha de Moçambique.
Tomás acrescentou que o governo, por meio do Fundo de Gestão de Calamidades (FGC), criado em 2017 e gerido pelo INGD, também tenta mobilizar recursos para assegurar a assistência, sobretudo aos distritos que não estão contemplados pelos PAAs, mas que apresentam risco de serem afetados pela seca.
“Os parceiros manifestaram disponibilidade para apoiar a resposta [à crise]. Contudo, ainda aguardam a consolidação do número de pessoas potencialmente afetadas [pela seca] e das necessidades por distrito. Essas informações permitirão dimensionar o apoio, definir metas de cobertura e mobilizar os recursos necessários”, afirmou o diretor.
Tomás destacou que o financiamento é fundamental para o sucesso de ações porque a experiência internacional demonstra que investir antes da ocorrência do desastre é significativamente mais eficaz e menos oneroso do que responder, depois, aos impactos.
“Tivemos um cenário quase idêntico em 2015. Uma seca que afetou não só Moçambique como também outros países da região. Naquele momento, não tínhamos um sistema de aviso prévio para a seca. Esse instrumento permite previsões com antecedência de dois a três meses, possibilitando a transmissão de mensagens às comunidades e ações que possam minimizar o impacto.”
Paulo Tomás não informou o orçamento necessário e nem o disponível até ao momento para as ações preventivas. No entanto, planos de contingência do INGD referentes às últimas três épocas chuvosas, entre 2023 e 2026, apontam para a necessidade de recursos financeiros que variam de US$ 64,5 milhões e US$ 254,7 milhões, variando de acordo com a magnitude dos efeitos do aquecimento do Pacífico.
Organizações globais sinalizam ajuda, mas pedem apoio
Representantes da FAO e do PMA reuniram seus parceiros recentemente para discutir ações antecipadas de proteção a comunidades vulneráveis antes que os impactos do El Niño atinjam o seu pico. Enquanto a FAO apoia os agricultores e os sistemas de produção alimentar, o PMA ajuda famílias mais vulneráveis à insegurança alimentar. As duas entidades reforçaram a necessidade de agir de forma coordenada antes que os eventos climáticos se tornem crises humanitárias.
Embaixadas de diversos países, como EUA, Japão e Noruega, além de representantes do Banco Africano de Desenvolvimento, participaram da reunião. Órgãos governamentais moçambicanos, como o Ministério da Agricultura e Pescas e o próprio INGD também estiveram presentes.
De acordo com o comunicado do PMA, esta é a primeira vez que as entidades lançam um apelo conjunto para ações antecipadas em escala. Para África Austral, os organismos internacionais estimam que serão necessários US$ 54 milhões destinados à assistência de 2,3 milhões de pessoas em Madagascar, Malaui, Moçambique e Zimbábue. Até 30 de julho, dia em que o PMA enviou o comunicado, cerca de 42 milhões ainda precisavam ser arrecadados pelas agências globais para essa finalidade.
Por e-mail, PMA informou à Mongabay que, especificamente para o caso de Moçambique, são necessários US$ 10 milhões para enfrentar a crise climática de 2026. Já a FAO afirmou que precisa de US$ 5 milhões. Os valores serão destinados a financiar apenas as ações antecipadas de enfrentamento às secas previstas nos Planos Distritais de Ações Antecipadas.
A organização Visão Mundial em Moçambique tenta mobilizar, junto de seus doadores das Américas, da Ásia e da Europa, US$ 1,5 milhão para assistência a pelo menos 40 mil pessoas.
Em entrevista à Mongabay, o especialista em mudanças climáticas da ONG, Ângelo Pontes, explicou que a atuação estará centrada nas províncias de Gaza e Tete, duas das que mais podem sofrer danos climáticos nos próximos meses. A organização também vai monitorar outras regiões.
Segundo Pontes,a Visão Mundial dispõe de até US$ 75 mil para ações iniciais de emergência, o que inclui a compra de mantas, redes mosquiteiras, baldes e purificadores de água.
“No setor de água e saneamento, contamos com reabilitar fontes e sistemas de água nas escolas, unidades sanitárias e outros locais, realizar treinamentos dos comités de água para suporte no manuseio das infraestruturas, assim como promover boas práticas de conservação da água”, enumerou.
Já para a agricultura familiar e para pequenos produtores rurais, continuou, espera-se distribuir kits agrícolas com sementes tolerantes à seca, treinar camponeses sobre práticas e técnicas resilientes aos impactos da escassez de água.
Imagem do banner: Safra danificada pela seca no distrito de Mabalane, na província de Gaza (Moçambique). Foto: Aurélie Marrier d’Unienville/IFRC via Flickr (CC BY-SA 4.0).