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Como o etnobotânico indígena Pataxó HãHãHãi e anciãos registraram o conhecimento medicinal de seu povo na Bahia

Como o primeiro etnobotânico indígena e anciãos registraram o conhecimento medicinal de seu povo na Bahia
  • O etnobotânico indígena Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi documentou as práticas medicinais tradicionais de seu povo usando uma abordagem inédita: por meio da etnobotânica participativa, catalogou junto com anciãos 175 plantas medicinais, muitas das quais têm propriedades cientificamente comprovadas.

  • A Mongabay foi à Terra Indígena Caramuru/Paraguassu, no sul da Bahia, onde entrevistou Hemerson e vários anciãos que sobreviveram a violentos conflitos de terra sobre seus conhecimentos ancestrais e seus esforços para protegê-los em um território ocupado ilegalmente por fazendeiros de gado por décadas.

  • Amostras de plantas coletadas por Hemerson são mantidas em um herbário registrado internacionalmente e ele está finalizando um livro para manter vivo o conhecimento medicinal de seu povo para as futuras gerações.

  • O trabalho realizado com seu povo foi essencial para tornar “imortal” o conhecimento dos anciãos, disse Hemerson, descrevendo-os como “bibliotecas vivas” e “Guardiões da Memória”.

TERRA INDÍGENA CARAMURU/PARAGUASSU, Bahia — Olhando para as montanhas secas e desmatadas ao redor de sua casa, Marta Xavier de Oliveira recordou-se de quando a área era uma floresta nativa. Era dali que a gente tirava os remédios, fazia remédio quando a gente ficava doente, disse Oliveira, conhecida como Dona Marta, de 87 anos, à Mongabay, em sua horta com várias plantas medicinais em sua terra ancestral no sul da Bahia.

Ao lado da anciã indígena do povo Kariri-Sapuyá está uma grandiosa árvore embaúba (Cecropia pachystachya), usada para tratar diabetes e problemas de próstata. Era ali a nossa mata… Derrubaram tudo. Tudo foi descampado aqui. E acabaram com a mata.”

Dona Marta contou que algumas espécies nativas como a embaúba foram plantadas no quintal de sua casa na aldeia Caramuru há 44 anos, no processo de retomada do território. Outras, no entanto, desapareceram nas últimas décadas, quando invasores entraram na área e derrubaram florestas para dar lugar a pastagens de gado, acrescentou.

Ela lamentou o sumiço de uma planta específica: puaia, usada para tratar dor de barriga, cansaço, picadas de cobra, peste — uma doença que, segundo os anciãos, provocava febre, dores de cabeça, e deixava o corpo todo retorcido  — e outras enfermidades. Ficava ali na mata”, lembrou Dona Marta, apontando para as montanhas desmatadas. Acabou tudo.

Em 27 de dezembro de 2025, Dona Marta faleceu.

Seu conhecimento, no entanto, está vivo em um artigo publicado no Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine que a citou, de autoria do etnobotânico indígena Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi e Eliana Rodrigues, professora coordenadora do Centro de Estudos Etnobotânicos e Etnofarmacológicos da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Marta Xavier de Oliveira, an Indigenous elder from the Kariri-Sapuyá people, kept several medicinal plants at her vegetable garden in her ancestral land in Brazil's northeastern Bahia state. Image by Karla Mendes/Mongabay.
Anciã indígena do povo Kariri-Sapuyá, Marta Xavier de Oliveira cultivava diversas plantas medicinais em sua horta, na Terra Indígena Caramuru/Paraguassu, na Bahia. Foto: Karla Mendes/Mongabay.
Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HaHaHãi is the world's first published Indigenous ethnobotanist. Alongside his people, he documented their traditional medicinal practices and cataloged 175 medicinal plants in Brazil’s Caramuru/Paraguassu Indigenous Territory. Image by Karla Mendes/Mongabay.
O etnobotanista indígena Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi documentou, junto com seu povo, práticas medicinais tradicionais e catalogou 175 plantas medicinais na Terra Indígena Caramuru/Paraguassu, na Bahia. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

“Hemerson é o primeiro etnobotânico indígena no mundo! Não tem outro. Procura: não tem!”, afirmou Rodrigues à Mongabay, em uma chamada de vídeo. A gente não achou em lugar nenhum uma pessoa que morasse em aldeia, fosse um indígena e que ele mesmo registrasse seu próprio conhecimento.O fato também foi reconhecido pela revista científica que publicou o artigo.

Rodrigues disse que “fizemos um longo e profundo levantamento bibliográfico em revistas pelos bancos de dados Scopus e Pubmed e não encontramos nenhum outro estudo onde o indígena é o pesquisador que registra o conhecimento etnobotânico do seu povo”. A publicação Journal of Ethnobiology and Ethnomedicine, acrescentou, “é muito respeitada e assumiu este dado ao publicar o artigo”.

A Mongabay não conseguiu fazer uma checagem independente da afirmação de que Hemerson é “o primeiro etnobotânico indígena do mundo”.

Usando a abordagem etnobotânica participativa, Hemerson fez um trabalho coletivo com seu povo para o artigo e sua tese de doutorado, desde a definição dos objetivos até o trabalho de campo. Dona Marta foi uma dos 19 indígenas, entre anciãos e especialistas em cura, que trabalharam com Hemerson para catalogar 175 plantas medicinais e suas práticas ancestrais de cura na Terra Indígena (TI) Caramuru/Paraguassu. Desse total, 87 plantas puderam ser identificadas até o nível de espécie.

Para Hemerson, Dona Marta e todos os anciãos são uma “biblioteca viva”.

Temos o dever de fortalecer a nossa cultura e valorizar a memória dos nossos anciões, tirando um pouco do nosso valioso tempo para ouvi-los e aprender com os nossos mais velhos sobre todas as coisas que eles podem nos ensinar, disse Hemerson à Mongabay, enquanto mostrava plantas medicinais em sua casa na aldeia Caramuru.

Dona Marta foi parteira na TI Caramuru/Paraguassu por décadas. Não tinha médico para cuidar de mulher, comentou à Mongabay, em outubro de 2025. Ela relatou que não havia nenhum atendimento médico na TI e que ela tratou muitos indígenas com plantas do território, usando práticas medicinais tradicionais que aprendeu com seus ancestrais.

“Naquele tempo, os índios do mato adoravam a natureza, o sol, a lua, as estrelas, que eles achavam que era a força do espírito [da floresta]”, explicou Maura Rosa Titiah Vieira, conhecida como Dona Maura, de 74 anos, à Mongabay, em sua casa na aldeia Água Vermelha. “Eles tinham as orações deles, os defumadores, as rezas deles, as folhas que eles sabiam que podiam usar naquele dia.”

Indigenous elder Maura Rosa Titiah Vieira, from the Baenã people, said she learned how to use medicinal plants from her own elders, as well as through guidance received through prayers, dreams, and the spirits of light, the so-called encantados (enchanted). Image by Karla Mendes/Mongabay.
A anciã indígena Maura Rosa Titiah Vieira, do povo Baenã, disse que aprendeu a usar plantas medicinais com seus ancestrais e por meio de orientações recebidas em orações, sonhos e dos espíritos de luz, os chamados “Encantados”. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Para Hemerson, o trabalho coletivo foi também “um encontro com a minha própria história”, referindo-se especialmente ao seu avô Edísio Pataxó, líder indígena que morreu quando ainda era muito jovem.

Eu não pude conhecer meu avô. Sabia que ele era cacique e que todos o admiravam. Durante as entrevistas, cada um compartilhava comigo um pouco da memória deles com o meu avô”, comentou Hemerson.

Quando decidiu fazer o doutorado, Hemerson disse que queria fazer um projeto que pudesse beneficiar sua comunidade e deixar um legado para seu povo. Foi somente após consultar seu povo, acrescentou, que decidiram coletivamente focar nas plantas medicinais usadas no território. Inicialmente, decidiram focar nas plantas usadas para o tratamento das queixas mais comuns na TI: diabetes, vermes e hipertensão. Do total de plantas catalogadas, 43 espécies foram indicadas para essas queixas e 79% delas tiveram seu uso corroborado na literatura científica, segundo o artigo publicado.

O estudo também aponta que 67% das plantas usadas pelo povo Pataxó HãHãHãi em seu dia a dia eram espécies exóticas ou naturalizadas, consequência do deslocamento forçado dos indígenas de suas terras décadas atrás e da destruição da floresta nativa. De acordo com o artigo, esse fato “não apenas forçou muitas pessoas a aprenderem a usar plantas de fora de suas aldeias, mas também fragmentou seu conhecimento cultural, levou à perda de plantas nativas e resultou até na perda de vidas indígenas”.

Isso ficou evidente na composição da horta de Dona Marta que a Mongabay visitou. Ela mostrou uma grande variedade de plantas, como o capim-santo (Cymbopogon citratus), usado para tratar vários tipos de dor, como dor de barriga e dor de cabeça; hortelã-grosso (Coleus amboinicus) e erva-cidreira (Melissa officinalis), usados para tratar pressão alta; e artimijo (Artemisia vulgaris), usado para tratar problemas neurológicos com ocorrência de convulsões, nomeados pelos indígenas como doença do vento” — e também uma das ervas aromáticas usadas em rituais de limpeza do corpo com banhos e pedidos de proteção por orações antes das retomadas de terra.

Part of the Camaruru/Paraguassu Indigenous Territory, which was illegally occupied by cattle ranching for decades. This drastically changed the territory's Atlantic Forest vegetation and its soil. Image by Karla Mendes/Mongabay.
Parte da Terra Indígena Camaruru/Paraguassu, que foi ilegalmente ocupada pela pecuária durante décadas. Isso alterou drasticamente a vegetação de Mata Atlântica e o solo do território. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

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Guardiões das ervas e da memória

Abrangendo cerca de 54 mil hectares — área superior à do município de Porto Alegre (RS) —, a TI Caramuru/Paraguassu foi demarcada em 1926 pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), criado em 1910 e atuante até 1967, quando foi substituído pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai). No entanto, ao longo da década de 1940, o governo da Bahia emitiu títulos de arrendamento para fazendeiros, que ocuparam o território e expulsaram a maioria dos residentes indígenas, desencadeando inúmeros conflitos fundiários violentos e assassinatos na área, observou Hemerson em sua tese.

Em 1982, o povo Pataxó HãHãHãi realizou seu primeiro processo de retomada na TI na aldeia Caramuru, acrescentou. E, em 2012, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou os títulos dos fazendeiros e reconheceu o direito territorial do povo Pataxó HãHãHãi, que compreende diversos povos com culturas sutilmente distintas, incluindo os Baenã, Pataxó, HãHãHãi, Kamakã, Tupinambá, Kariri-Sapuyá e Gueren. Atualmente, existem aproximadamente 3.600 indivíduos espalhados por 10 aldeias no território.

Quando voltaram para a TI, disseram os anciãos, a maior parte dela estava destruída. Eles relataram que tiveram que começar do zero, desde o plantio de hortas para subsistência até o replantio de plantas medicinais. Décadas de ocupação pela pecuária mudaram drasticamente a vegetação de Mata Atlântica e o solo do território, relataram os anciãos à Mongabay.

No entanto, essa destruição física não apagou a história dos Pataxó HãHãHãi no território, disse Hemerson, nem seu conhecimento medicinal ancestral, que está vivo na memória dos anciãos, que são “Guardiões da Medicina Ancestral”, “Guardiões das Ervas” e “Guardiões da Memória”.

Para Hemerson, o conhecimento dos anciãos foi fundamental não apenas para catalogar todas as plantas medicinais usadas pelo seu povo — inclusive aquelas que nem são mais encontradas no território — mas também para resgatar informações sobre como era o território antes de grande parte dele ser tomado por fazendeiros e convertido em pasto.

Muitos dos anciãos entrevistados pela Mongabay disseram que, muitas vezes, tomar remédio dos não indígenas não era eficaz e as práticas tradicionais eram o único método de cura que funcionava.

Como eles sabiam quais plantas usar? Além de aprenderem com seus ancestrais, os guardiões disseram que recebiam orientação por meio de orações, sonhos e espíritos de luz, os chamados “Encantados”.

“Às vezes, eu me lembro: ‘Ah, a planta que mamãe fazia o nosso chá; vó me dava aquele remédio’. E, outras vezes, o entendimento da planta vem no sonho… Sempre acontece isso [comigo]”, disse Dona Maura, do povo Baenã, à Mongabay em sua casa enquanto pássaros como o guaxo (Cacicus haemorrhous) cantavam ao fundo. “Eu fico pensando: ‘Eu estou com isso, meu filho está sentindo isso, o que é que eu faço? Só você [Deus] que vai me dar força.’ Fico com aquele pensamento, naquela oração e, quando é de noite, eu sonho e vejo a planta. No outro dia, eu faço o remédio, dá tudo certinho. Isso tem acontecido comigo e com outras mais velhas”.

Orações e fé na cura estão presentes em todo o processo das práticas medicinais ancestrais com plantas, desde a colheita até o preparo de um chá, um xarope, uma loção ou um banho, disse Maria Creuza Fernandes Rodrigues Kariri-Sapuyá, 70 anos, conhecida como Dona Creuza.

“Na hora de a gente colher, a gente colhe e vai falando: ‘Meu Deus, eu vou colher esses remédios para Deus abençoar que sarará daquela doença'”, explicou Dona Creuza à Mongabay, na horta de sua casa na aldeia Caramuru, onde cultiva várias dezenas de espécies de plantas medicinais.

Prayers and faith in healing are traditionally present in the entire process of ancestral medicinal practices with plants, from harvesting the plants to making a tea, a syrup, a lotion or a bath with them, said Maria Creuza Fernandes Rodrigues Kariri-Sapuyá, an elder.
Orações e fé na cura estão presentes em todo o processo das práticas medicinais ancestrais com plantas, desde a colheita até o preparo de chás, xaropes, loções ou banhos, afirmou a anciã Maria Creuza Fernandes Rodrigues Kariri-Sapuyá. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Quando ela não sabia quais plantas usar, acrescentou, a revelação vinha em sonho. “Eu sentia a minha avó, eu sonhava com ela. Ela faleceu há muito tempo e eu sonhava com ela falando: ‘Faz tal remédio assim, assim que é bom’. Aí eu acordava de manhã cedo e [era] a primeira coisa que fazia. E dava certo, melhorava, sarava.”

“Eu acredito que a fé proporciona condições que, certamente, contribuem com o processo de cura, combinado com a composição química da própria planta em muitas receitas. E a religião ajuda a entender um pouco mais a respeito da fé nesse processo”, afirmou Hemerson.

As anciãs do território possuem “aquela força espiritual da natureza” que lhes permite realizar práticas de cura medicinal, disse Dona Maura. “A gente sabe que a gente tem [essa força] e a gente consegue. A gente aprende com as mais velhas como é que [se] faz o remédio, qual é a folha boa que não prejudica a gente, o tanto [que é para] tomar.”

Porém, nem tudo pode ser contado, acrescentou, porque muitos daqueles que fizeram revelações sobre seus ancestrais foram perseguidos, morreram ou foram massacrados. “Muitas coisas eu não aprendi porque minha mãe não ensinava, porque ela tinha medo de a gente aprender a fazer as coisas do mato e ser interrompida [reprimida], que nem fizeram com ela.”

Hemerson observou que as orações sempre estiveram presentes nos rituais de cura, embora de uma forma diferente após a influência católica. Contudo, hoje, poucos indígenas usam orações como parte do procedimento para um tratamento, e essas práticas são mais comuns entre os anciãos, de acordo com sua tese.

A red-rumped cacique, known in Brazil as guaxe (Cacicus haemorrhous). Image © Luciano Bernardes via iNaturalist (CC BY-NC 4.0).
Guaxo (Cacicus haemorrhous). Foto: © Luciano Bernardes via iNaturalist (CC BY-NC 4.0).

Hortas para tratamento gratuito, pesquisa e compartilhamento

Mesmo as doenças mais graves, como febre alta, problemas respiratórios, picadas de cobra e câncer, são tratadas na TI Caramuru/Paraguassu com plantas medicinais e práticas ancestrais de cura. O irmão de Dona Marta, Aniraldo Xavier Kariri-Sapuyá, 73 anos, conhecido como Seu Aniraldo, disse que usou suco de folhas de graviola (Annona muricata) para curar uma picada de cobra em seu genro. Ele disse que também adicionou uma dose de carvão ativado medicinal em pó para neutralizar o veneno da cobra.

“Quando ele chegou, já estava com uma fissura grande na perna, com dor, cabeça doendo. Aí tomou o suco e ficou curado”, relatou Seu Aniraldo à Mongabay, rodeado por dezenas de plantas em um viveiro de horta medicinal no quintal de sua casa na aldeia Caramuru. “A cabeça dele estava doendo, estava com tontura e escurecimento de vista. Assim que tomou, foi acabando tudo. Nem careceu ir ao médico. Graças a Deus, a natureza cura, abaixo de Deus.”

Denominada Horta Medicinal, o viveiro está localizado no sul do território, em meio a arbustos e algumas árvores na aldeia de Caramuru. É um viveiro de referência inaugurado na aldeia em junho de 2023 pela Secretaria de Saúde Indígena (Sesai), vinculada ao Ministério da Saúde, em resposta aos pedidos da comunidade.

Seu Aniraldo, que sobreviveu a dois tiros que atingiram seu pulmão esquerdo em conflitos fundiários, é quem está à frente do viveiro, onde mais de 150 plantas foram cultivadas por ele. Segundo Hemerson, o trabalho pioneiro de Seu Aniraldo desempenhou um papel fundamental para o uso de plantas medicinais em seu projeto de pesquisa e para a comunidade em geral, já que as mudas estão disponíveis para os indígenas e Seu Aniraldo já fez várias apresentações sobre o viveiro para estudantes de universidades próximas.

A horta medicinal na casa de Dona Creuza também está disponível para quem precisa das plantas, disse ela. “Não é para vender não. A comunidade pode usar o que precisar.” Embora sua horta medicinal tenha várias dezenas de espécies de plantas, ela disse que quer plantar ainda mais mudas e sonha em ter plantas que não consegue mais encontrar no território.

Hemerson disse que um de seus sonhos é expandir a horta medicinal e ter as práticas de cura indígenas incorporadas aos protocolos médicos tradicionais do Sistema Único de Saúde (SUS). “Mais de 70% dos remédios da farmácia ou vieram da planta ou foram baseados em alguma planta. Legalmente, o SUS pode usar algumas plantas como tratamento, só que a Anvisa [Agência Nacional de Vigilância Sanitária] só autorizou 68 — só aqui na horta tem 150 plantas.”

Para disseminar o conhecimento de sua tese de doutorado de 80 páginas para o seu povo, Hemerson está finalizando um livro. “As pessoas não vão pegar a tese para ler, dificilmente. O livro vai ter muitas imagens das plantas, fotografias, receitas. Boa parte das pessoas já conhece essas receitas, então vai ser uma forma tanto de divulgar o conhecimento, quanto trazer, de alguma forma, essas plantas para mais próximo das pessoas.”

Hemerson acrescentou que distribuirá o livro não apenas para os entrevistados e sua comunidade em geral, mas também para “setores estratégicos”, especialmente escolas, visando ajudar a disseminar entre os jovens a história de seu povo, mantendo-a viva por meio das gerações futuras. Ele disse que também está considerando a possibilidade de publicar um livro para um público mais amplo, mas isso deve ser uma decisão coletiva de seu povo.

Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HaHaHãi and Aniraldo Xavier Kariri-Sapuyá pose for a photo amid 150 plants inside "Horta Medicinal," a reference medicinal garden set up in 2023 in the village of Caramuru by the federal government. Image by Karla Mendes/Mongabay.
Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi e Aniraldo Xavier Kariri-Sapuyá posam para foto em meio a 150 plantas dentro da Horta Medicinal de referência instalada em 2023 na aldeia Caramuru pelo governo federal. Foto: Karla Mendes/Mongabay.
The school where Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HaHaHãi shared the findings of the collective research done with his people. Image by Karla Mendes/Mongabay.
A escola onde Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi compartilhou as descobertas da pesquisa coletiva realizada com seu povo. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Documentação ética do conhecimento indígena

Em 28 de janeiro de 2026, Hemerson obteve seu título de doutor pela Unifesp.

“Hoje o Brasil ganha muito mais do que um novo indígena doutor. Ganha o primeiro etnobotânico indígena brasileiro, detentor de uma capacidade ímpar de transitar entre dois universos: o acadêmico e o da floresta”, disse Rodrigues, sua orientadora de doutorado. “A defesa que Hemerson fez hoje do ‘seu’ trabalho, que é também um trabalho do povo Pataxó HãHãHãi, certamente irá inspirar muitos outros e outras indígenas a registrarem seus próprios conhecimentos tradicionais.”

A banca de doutorado, acrescentou ela, destacou a quantidade de conhecimento registrado, o livro produzido, o viveiro que viabiliza mudas no território, e o “brilhantismo dele em surfar nas áreas de química, farmacologia e, agora, antropologia e botânica”.

A abordagem inédita de etnobotânica participativa usada por Hemerson foi criada por Rodrigues. Pesquisadores acadêmicos “capacitam” pesquisadores de comunidades tradicionais para permitir que eles mesmos sejam “o ator do registro do seu conhecimento”, dando-lhes autonomia e exclusividade sobre o que fazer com seu conhecimento tradicional, explicou ela.

“A abordagem surge de um nó na garganta meu, por ter sido injustamente acusada de biopirataria no meu país, com indígenas brasileiros, numa universidade brasileira, eu sendo brasileira”, afirmou Rodrigues, referindo-se a um caso polêmico envolvendo o povo indígena Krahô do estado do Tocantins, onde ela realizava pesquisas com a Unifesp em 1999 para coletar e identificar 400 plantas e frutos usados por eles. “Eu pensei: ‘Agora nós vamos criar um método, uma abordagem onde o indígena não vai depender de ninguém.”

Rodrigues narrou o caso polêmico no livro Psicoativos Invisíveis: uma viagem etnográfica pelos saberes ancestrais de indígenas e quilombolas sobre plantas e substâncias que curam e expandem a consciência. Publicado em 2025, o prefácio do livro é assinado por Hemerson, que também é citado no último capítulo. “Certamente amanhã será ele a escrever um livro, nos contando se essa abordagem pode ou não ser transformadora para os povos tradicionais”, escreveu Rodrigues. “Enquanto isso, me pego pensando se estamos nesta dimensão para aprender, e, quem sabe, deixar sementes boas. Quando me for, espero ter deixado, pelo menos, uma!”.

A abordagem etnobotânica participativa usada na pesquisa garantiu que as lideranças Pataxó HãHãHãi estivessem envolvidas no registro de seu conhecimento medicinal, disse Hemerson à Mongabay, chamando a defesa de sua tese de doutorado de “memorável”.

Para ele, a morte de Dona Marta antes da conclusão de seu trabalho e da apresentação da tese de doutorado foi “muito dolorosa”. Mas ela estava lá, comentou ele, em um vídeo que ele exibiu durante a apresentação, em que ela falava sobre suas lembranças e da saudade que ela sentia da floresta. “Foi bastante emocionante. Eu não consegui fazer o comentário que eu pretendia fazer. Só deixei o vídeo tocando porque não deu mesmo.”

Quando a Mongabay entrevistou Dona Marta em outubro de 2025, ela disse que “ficava triste” por não ter mais puaia, uma das muitas plantas perdidas para a comunidade, e que sentia falta e sonhava em tê-la de volta em sua terra ancestral algum dia.

As amostras de plantas coletadas por Hemerson são mantidas no herbário da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), que é registrado internacionalmente e considerado pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima como fiel depositário, disse Luiz Alberto Mattos Silva, professor e ex-curador do herbário da UESC.

“Foi a primeira vez que incorporamos o trabalho de um pesquisador indígena aqui”, afirmou Silva à Mongabay, no herbário localizado em Ilhéus, na Bahia.

Luiz Alberto Mattos Silva, former curator of the herbarium of the State University of Santa Cruz (UESC), where samples of all plants collected by Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HaHaHãi are kept. Since the data of the samples were entered into the herbarium system, he said, anyone anywhere in the world can consult it. Image by Karla Mendes/Mongabay.
Luiz Alberto Mattos Silva, ex-curador do herbário da Universidade Estadual de Santa Cruz (UESC), onde estão guardadas amostras de todas as plantas coletadas por Hemerson Dantas dos Santos Pataxó HãHãHãi. Segundo ele, como os dados das amostras foram inseridos no sistema do herbário, qualquer pessoa, em qualquer lugar do mundo, pode consultá-los. Foto: Karla Mendes/Mongabay.

Hemerson coletou três amostras de cada planta: uma ficou armazenada no herbário e as outras duas estão disponíveis para serem enviadas a qualquer lugar no mundo que ele quiser enviar, disse Silva. Como os dados das amostras da pesquisa de Hemerson foram inseridos no sistema do herbário, acrescentou Silva, qualquer pessoa em qualquer lugar do mundo pode consultá-los.

Hemerson disse que sonha que seu trabalho ajude a trazer essas espécies de volta, honrando a memória de Dona Marta e de todos os anciãos Pataxó HãHãHãi. Embora desconheça um nome científico para a puaia e outras plantas perdidas no território, ele disse estar esperançoso de que o herbário possa ajudar muito no processo de resgate. “Eu acredito que os herbários são um elo importante para esses encontros de plantas, pois se o herbário tiver alguma exsicata [amostra prensada e desidratada], terá também a localização da coleta e, de repente, pode-se encontrar mais indivíduos da espécie perdida.”

Para Hemerson, o trabalho realizado com seu povo foi essencial para tornar “imortal” não apenas o conhecimento de Dona Marta, mas o de todos os anciãos e entrevistados que fizeram o trabalho coletivo com ele, além de deixar o conhecimento disponível para as gerações futuras.

“A horta para mim representa vida e economia. Mamãe sempre cuidou da nossa saúde com plantas medicinais”, disse Seu Aniraldo. “O meu sonho é ver um dia a minha comunidade livre de tomar tanto remédio químico, que vem piorar a saúde de todos nós e mata as células protetoras do nosso corpo.”

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Esta reportagem também está disponível em inglês. Leia aqui.

Atualização: Este texto foi atualizado em 18 de agosto para incluir a informação de que a Mongabay não conseguiu fazer uma checagem independente da afirmação de que Hemerson é “o primeiro etnobotânico indígena do mundo”.


Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e a primeira brasileira vencedora do John B. Oakes Award for Distinguished Environmental Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA. Membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center, ela é também a primeira brasileira e latino-americana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no LinkedIn, Instagram, Threads, Bluesky e 𝕏.

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