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Como é a vida da viúva de ambientalista que precisou desaparecer para sobreviver

Estrada na Terra Indígena Alto Rio Guamá, na divisa entre Pará e Maranhão. Foto: AP Photo/Rodrigo Abd.

  • Em 2015, o ambientalista Raimundo dos Santos Rodrigues foi assassinado durante uma emboscada dentro da Reserva Biológica do Gurupi, no Maranhão, onde era conselheiro; o mandante era um fazendeiro da região, que retirava madeira ilegalmente da reserva.

  • Sua esposa, Maria, sobreviveu ao ataque, mas há mais de dez anos está sob um programa de proteção governamental, vivendo em outro estado.

  • Em sua nova vida, Maria vive uma contradição: precisou ser invisibilizada pelo Estado para sobreviver ao próprio Estado e à sua omissão em investigar e punir crimes socioambientais.

Por volta de 1 da manhã do dia 29 de abril de 2026, no salão do júri da Comarca de Bom Jardim, no Maranhão, o juiz Philipe Silveira da Cunha quantificou publicamente o destino do ex-policial militar Francisco da Silva Sousa:

Fica o réu definitivamente condenado a 35 anos e quatro meses de reclusão. Fixo o regime fechado para o início do cumprimento da pena”, anunciou o juiz ao microfone, em pé, diante do réu, dos jurados, dos promotores de justiça e dos advogados de defesa e acusação, sob as luzes brancas do salão que iluminaram mais de 16 horas de julgamento, iniciado na manhã do dia anterior. O ex-policial, de 66 anos, saiu direto dali para a prisão.

Da Silva, como é conhecido, foi considerado culpado pelo júri popular por arquitetar o assassinato do ambientalista e camponês Raimundo dos Santos Rodrigues, 54 anos, e a tentativa de homicídio da esposa de Raimundo, Maria*, com 37 anos à época. O crime aconteceu no dia 25 de agosto de 2015, ali mesmo em Bom Jardim, dentro da Reserva Biológica do Gurupi, unidade de conservação federal administrada pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, o ICMBio.

Raimundo, Maria, seus seis filhos e outras cerca de 38 famílias camponesas viviam acampadas, desde 2009, na comunidade Brejinho Rio da Onça II, situada dentro da reserva, à espera de uma resolução do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), para regularizar sua situação como assentados da reforma agrária — ali ou em outro pedaço de terra onde pudessem morar e plantar.

No dia do crime, Raimundo e Maria tinham ido resolver coisas do dia a dia em Buriticupu, cidade vizinha a Bom Jardim. Na volta, já depois das cinco da tarde – com Raimundo pilotando a moto por uma estrada de terra e Maria na garupa –, foram alvejados, já perto de casa, por dois homens também em uma moto.

Maria recebeu um tiro no cotovelo direito e outro que perfurou seu abdômen. Ela caiu da moto e correu para se proteger. Raimundo levou sete tiros. Ao olhar para trás enquanto corria, Maria viu um dos assassinos desferindo golpes de facão no marido; o mesmo facão que o camponês levava na cintura e que tentou usar para se defender ao ser derrubado pelos pistoleiros.

Após a fuga dos assassinos, Maria caminhou como pôde para buscar a ajuda de conhecidos a cerca de 500 metros do local do crime. De lá, foi levada para o Hospital Municipal de Açailândia, a mais de 350 km de Bom Jardim. Desde então, nunca mais voltou para casa.

Um dos supostos assassinos foi morto no dia seguinte como queima de arquivo, segundo o Ministério Público Estadual no Maranhão, que trabalhou na acusação do réu. O segundo criminoso nunca foi encontrado. O mandante confesso foi José Escórcio de Cerqueira, fazendeiro que se apropriou de terras da União dentro da reserva e, segundo a acusação, retirava madeira ilegalmente dali. Em depoimento à polícia, Escórcio afirmou ter pago R$ 10 mil para que Da Silva contratasse pistoleiros para assassinar Raimundo. O ambientalista era conselheiro da Reserva Biológica do Gurupi desde 2013, e denunciava a órgãos estaduais e federais de segurança e fiscalização a retirada ilegal de madeira praticada por Escórcio e outros fazendeiros.

Terra para cultivo agropecuário na região da Reserva Biológica do Gurupi. Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Escórcio, que já tinha mais de 80 anos em 2015, morreu de causas naturais em 2017, durante o curso do processo. Ele não chegou a ser julgado. Seu filho e braço direito na fazenda, José Escórcio de Cerqueira Filho, chegou a ser investigado, mas o procurador responsável pela acusação entendeu não haver provas suficientes para incriminá-lo.

No dia do julgamento, Maria foi a primeira a depor. Usando peruca escura, lisa e longa, óculos escuros, roupas compridas cobrindo o corpo todo e uma máscara hospitalar branca descartável, ela falou como testemunha de acusação. Estava protegida por policiais armados com fuzil. No rito de conferência dos documentos, o juiz pediu aos policiais que formassem uma barreira diante dela para que seu rosto não fosse visto pelos jurados e pela plateia na hora em que retirasse a máscara para que ele, o juiz, confirmasse sua identidade comparando seu rosto com a foto do RG.

Desde o dia do crime, Maria, hoje com 48 anos, foi obrigada a construir uma vida completamente diferente da que conheceu até seus 37 anos. Após ter alta do hospital, 12 dias após o atentado, ela empreendeu uma fuga de semanas por esconderijos inseguros nas cidades maranhenses de Açailândia, Imperatriz e São Luís. Junto dela estava o casal de filhos mais novos, então com 10 e 11 anos. Eles precisavam ficar a salvo dos criminosos que mataram Raimundo e ainda estavam soltos. Para isso, contaram com a ajuda da organização maranhense Justiça nos Trilhos, da Comissão Pastoral da Terra e da igreja católica na região.

Em outubro de 2015, Maria e os dois filhos foram inseridos no Programa de Proteção a Vítimas e Testemunhas Ameaçadas (Provita), administrado pela Sociedade Maranhense de Direitos Humanos, a SMDH. Da capital São Luís, seu último abrigo em solo maranhense, foram transferidos a outro estado, que é mantido em sigilo pelo Provita. Apenas parte da equipe de acompanhamento sabe onde Maria vive hoje.

Quando saiu do Maranhão, Maria precisou desatar laços familiares e de amizade para cumprir as regras do programa. Não pôde mais se comunicar pessoalmente com os outros quatro filhos maiores, com parentes ou com amigos. Teve que deixar para trás os plantios que já estavam dando frutos na comunidade no dia do atentado: arroz, feijão, fava, pés de manga, banana, cupuaçu, caju, coco e tangerina foram apartados dela, assim como toda a rotina que vivia na Reserva Biológica do Gurupi com a família e os vizinhos, dentro da casa de barro coberta com palha que construíram, cercada por árvores e um riacho correndo perto do quintal.

Maria não pôde velar nem enterrar o marido. Entre tantas perdas e traumas, ela decidiu recusar a sugestão do Provita para que mudasse também de nome ao recomeçar a vida fora do estado onde nasceu. Durante o exílio, que perdura até hoje – é a pessoa inserida há mais tempo no Provita no Maranhão –, Maria decidiu manter-se Maria.

O assassinato de Raimundo teve repercussão imediata nos principais noticiários do país, e chegou a ser reportado pela ONG Justiça Global à Organização dos Estados Americanos, organismo internacional que tem entre os seus pilares a promoção dos direitos humanos.

A contradição – ou tragédia – da repercussão da morte de Raimundo é que a comoção pública nasceu do silêncio. O ambientalista fez inúmeras denúncias sobre as ameaças de morte que vinha sofrendo a órgãos de segurança pública, como as polícias federal, civil e militar.

Raimundo recorreu até à Ouvidoria Agrária Nacional, com o apoio da Federação dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares do Estado do Maranhão (Fetaema), que acompanhava o conflito na época. Quatro meses antes de ser assassinado, o ambientalista ainda registrou boletim de ocorrência na delegacia de Bom Jardim, informando que Escórcio contrataria jagunços para matá-lo. Nenhuma das denúncias foi investigada, e a omissão estatal abriu caminho para o crime.

No exílio e sob proteção de um programa governamental, Maria encarna, hoje, a contradição maior do Estado brasileiro, que precisou apagar sua existência para que ela sobrevivesse à contínua omissão do próprio Estado em investigar e punir crimes socioambientais.

Operação do Ibama queima instalações de madeireira ilegal na Reserva Biológica do Gurupi. Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Tom e Jerry contra a barbárie

“À noite todo mundo dormia, e eu não conseguia dormir. Enquanto eu conversava com as pessoas ao meu redor, tudo bem. Mas aí, quando chegava a noite, que era o meu silêncio, os meninos dormiam, e eu andava por dentro de casa. Eu era tipo o vigia do calado da noite. Todo mundo quieto, e eu acordada.”

Maria me contou da sua insônia pós-trauma quando fui entrevistá-la na sede da Defensoria Pública do Maranhão, em São Luís, dois dias após o julgamento do ex-PM. “Eu pensava muito no local do crime que aconteceu comigo. Era tipo estar numa rotatória em que você só sai num lugar. Era muito angustiante, porque minhas emoções fluíam muito. Eu chorava muito”.

No primeiro ano em outro estado, Maria precisou adaptar-se à nova rotina e recuperar-se dos ferimentos à bala. Ela recebia — e recebe até hoje — suporte psicológico do Provita, mas ainda não tinha encontrado trabalho fora de casa. Assim, não sobrava muito com o que se distrair na vida nova dentro do apartamento alugado pelo programa, uma realidade pálida se comparada à exuberância amazônica que ela e o marido ajudavam a proteger na Rebio Gurupi.

Foi nos desenhos animados e em filmes de comédia que ela encontrou algum alívio no primeiro ano de exílio. “Eu não gostava de assistir nada que fosse violento. Quando eu tava com muita coisa na cabeça, que eu não tava aguentando, eu botava desenho. Aquele desenho do Tom e Jerry eu assisti muito, porque era muito engraçado. Eu começava a sorrir daquelas coisas e ia espairecendo. Eu passei muito tempo nessa lida, pra eu não definhar numa depressão”.

Depois de um ano, ela mudou de habitação e vieram os empregos. Primeiro, Maria trabalhou na limpeza de residências; depois, no cuidado de idosos. Até que passou a trabalhar em restaurantes, onde cozinhava, atendia no caixa, preparava quentinhas, lavava louças e vasilhas. Por onde passou e passa, ninguém sabe da sua história.

Pouco a pouco, na retomada da rotina, o choro exaustivo deu lugar ao que Maria chama de “neutralidade”. “Pra mim foi como se eu tivesse sido quebrada. Fui moída em farelos. Fiquei sem emoções, neutra. Parece que dentro de si para tudo”.

Hoje, ela diz que já sente e se emociona. Durante a entrevista, quando se lembrou das pessoas que a ajudaram ao longo dos anos após o crime, seus sentimentos fluíram. “Agradeço a todas as pessoas que eu conheço e as que eu não conheço, que também me ajudaram. Agradeço aos advogados, às advogadas, às pessoas do começo que não estão mais presentes. Agradeço à promotoria em geral. E faço questão que o agradecimento seja publicado”.

Maria faz uma pausa na entrevista e enxuga os olhos atrás dos óculos escuros. Depois de um breve silêncio, explica: “Às vezes me emociono na hora, às vezes me emociono depois. Sou assim, meio custante”. Ela contou que hoje já não sonha quando dorme, mas que dorme melhor que antes. “E hoje vou dormir melhor ainda, sabendo que o Da Silva tá na cadeia”.

Caiarara (Cebus kaapori), macaco endêmico de uma pequena área de floresta amazônica entre Pará e Maranhão, incluindo a Reserva Biológica do Gurupi. Foto: Christoph Moning, CC BY 4.0 <https://creativecommons.org/licenses/by/4.0>, via Wikimedia Commons

Falha estrondosa do Estado

O advogado Danilo Chammas atua no caso de Raimundo e Maria desde 2014, quando o conselheiro da Reserva Biológica do Gurupi falava das ameaças de morte que recebia. “Eu vi ele denunciando as ameaças. Não se pode esperar que a ameaça se concretize para investigá-la. Ele poderia ter sido acolhido no programa de proteção. Tinha várias coisas que o Estado já poderia ter feito, que já existia à disposição, mas que não foi feito, foi uma falha estrondosa”, afirma Danilo, que no julgamento de Da Silva atuou como assistente de acusação do Ministério Público do Maranhão juntamente com as advogadas Fernanda Souto, da Justiça nos Trilhos, e Valdênia Paulino Lanfranchi, especialista em proteção a pessoas defensoras ameaçadas.

O Provita existe desde 2003 no Maranhão, e o crime de ameaça está previsto no artigo 147 do Código Penal desde 1940. “O programa voltou a ter recursos por causa da repercussão do caso”, relembra o advogado.

Pedro*, 56 anos, era chefe da Rebio Gurupi na época do assassinato de Raimundo e foi um dos que redigiu algumas das denúncias de ameaças de morte relatadas pelo conselheiro. “Ele ia no escritório [do ICMbio em Açailândia], eu redigia e ele assinava. Eu mesmo redigi várias denúncias para a polícia federal, civil, Ministério Público. Ele buscou proteção para ele e para a família dele, e não encontrou”, afirma Pedro, que chefiou a Rebio Gurupi de 2006 a 2022. No dia do julgamento em Bom Jardim, ele depôs como testemunha de acusação.

Imediatamente após o assassinato de Raimundo, Danilo Chammas foi um dos responsáveis por buscar abrigos seguros para Maria, seus dois filhos pequenos e André*, conselheiro tutelar de Buriticupu à época e também conselheiro da reserva. Assim como Raimundo, André constava em uma lista de “marcados para morrer” pelas denúncias que fazia sobre extração ilegal de madeira nos municípios no entorno da reserva. Buriticupu é conhecida pelo comércio ilegal de madeira extraída de terras indígenas da região e da reserva do Gurupi.

Um companheiro no silêncio

No exílio, Maria perguntava a André: “Por que tu veio? Tu é jovem, tinha teu emprego, tua família, podia ir pra outro lugar”. O que fez o conselheiro tutelar se juntar a ela e seus dois filhos na saída do Maranhão em 2015 foram, segundo ele, a amizade e o respeito pela trabalhadora rural, e o estado de saúde dela. “Quando eu a encontrei no hospital, com o braço machucado, ela chorou e disse ‘eu perdi meu marido’. Eu pensei ‘meu Deus, como eu vou ajudar diante dessa situação?’ A previsão era de eu ir sozinho pra um lado [com o Provita], e ela ir pra outro. Mas eu disse: já que eu tenho que ir, eu vou com ela, até o dia que eu aguentar.”

O primeiro lugar em que viveram juntos sob proteção do programa era um apartamento pequeno, com dois quartos, sala, cozinha, banheiro e lavanderia. André fazia as tarefas da casa sozinho porque Maria ainda estava com o braço direito em recuperação. “Ela tinha vergonha porque eu lavava a roupa dela. Eu me sentia útil ali”.

Como parte da rotina de reconstrução da vida, André, Maria e as duas crianças saíam de vez em quando para passear e conhecer o bairro onde moravam. Ele também ensinava as crianças a ler e escrever. Mas era na preparação das refeições que conseguiam esquecer um pouco mais a saudade de casa e a violência que os mantinha ali. “A gente cozinhava todo dia. Eu botava os temperos que ela queria. Aprendi muito com dona Maria, tanto a questão do lar, como também da simplicidade, da ética, da sabedoria e da resiliência dela”, relembra André. Ele permaneceu um ano e dois meses no programa, quando pediu para sair.

Rebanho de gado em fazenda na região da Reserva Biológica do Gurupi. Foto: Ana Ionova/Mongabay.

Lucrar com terras do Estado

Criada por decreto em 1988, a Reserva Biológica do Gurupi é uma das últimas porções preservadas de floresta amazônica em um Maranhão cada vez mais devastado pelos monocultivos e pastos do agronegócio exportador. Com cerca de 341 mil hectares, abrange os municípios de Bom Jardim, São João do Caru e Centro Novo do Maranhão. É uma unidade de conservação federal com proteção integral, destinada à pesquisa e à preservação, onde não se permite moradia nem extrativismo.

Quando, em 2009, Raimundo dos Santos Rodrigues chegou ali com as demais famílias em busca de terra para morar e plantar, foi José Escórcio quem os convidou para acampar nos limites da Fazenda Santa Bárbara, cujas terras ele dizia serem suas. Segundo a promotoria, o plano de Escórcio era fazer o Incra pagar uma indenização por parte das terras que ele cederia para assentar as famílias.

Nos autos do processo aberto pelo Ministério Público, há um documento assinado por Escórcio, a esposa e o filho, além de Raimundo e Maria — respectivamente, tesoureiro e presidenta da Associação dos Pequenos Trabalhadores Rurais do Povoado Brejinho Rio da Onça II —, e mais uma terceira pessoa ligada a uma segunda associação, em que Escórcio diz estar disposto a vender às associações duas fazendas “no total de 980 alqueires, ao preço de R$ 3.500 por alqueire”.

Quando o Incra foi vistoriar a área, verificou que a fazenda estava dentro da Reserva Biológica do Gurupi. Era, portanto, terra da União, e de uso restrito. Escórcio tentava vender terras do Estado ao próprio Estado. Ao ver seu plano frustrado, o fazendeiro iniciou o conflito com Raimundo, tentando expulsar as famílias do local.

O conflito se estendeu e escalou ao longo dos anos. Em 2011, Escórcio moveu uma ação de reintegração de posse contra as famílias. Em junho de 2013, após uma audiência na superintendência do Incra na cidade de Imperatriz, o órgão se comprometeu a vistoriar a área até o mês seguinte para avaliar a possibilidade de um assentamento na região, o que nunca aconteceu, deixando as famílias sem amparo em meio aos conflitos.

Em junho de 2014, Escórcio Filho incendiou as casas da comunidade, expulsando as famílias para uma área mais distante de onde estavam instaladas. Em depoimento no dia do julgamento do ex-PM Da Silva, Escórcio Filho confirmou o incêndio, e disse que foi a própria polícia militar quem o autorizou a fazer isso durante o cumprimento de uma reintegração de posse.

Questionado sobre as providências tomadas à época para assentar as famílias acampadas, o Incra não respondeu até o fechamento desta reportagem. A Ouvidoria Agrária Nacional disse não ter informações sobre as providências tomadas após a denúncia de Raimundo. “Infelizmente o acervo da época não foi recebido por este departamento, que conta apenas com processos datados de 2023 até a presente data”, informou Nayara Ayres, coordenadora-geral de mapeamento de conflitos, vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Agrário.

Ficha corrida

O envolvimento dos Escórcios com o crime é anterior ao assassinato de Raimundo. Em 2007, José Escórcio foi incluído na lista suja do trabalho escravo pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Em fiscalização nas fazendas Santa Bárbara e Bom Jesus, de sua propriedade, localizadas em Monção, no Maranhão, foram resgatados 31 trabalhadores em condições análogas à escravidão.

Dados do ICMBio mostram que Escórcio, após o assassinato do ambientalista, foi autuado duas vezes. A primeira em setembro de 2016, por desmatamento de mais de 2.300 hectares da Rebio Gurupi. A área foi embargada, dois tratores foram destruídos e uma multa de quase R$ 28 milhões foi aplicada. Nos dados divulgados não há informações se o embargo segue ativo e se a multa foi paga.

A segunda autuação aconteceu em agosto de 2017 contra a Jotae Peças Ltda, empresa de autopeças em nome de José Escórcio e da esposa, Clenir Rodrigues de Cerqueira. Com sede em Imperatriz, a empresa foi acusada de transportar 22,85 m³ de madeira nativa retirada ilegalmente da Rebio Gurupi. O material foi apreendido, e uma multa de R$ 13.800 foi aplicada. Nos dados divulgados pelo ICMBio, também não é informado se a multa foi paga.

Procurado pela Mongabay, o órgão não detalhou o atual status das multas e do embargo, não forneceu dados sobre desmatamento, incêndios, extração ilegal de madeira e fazendas irregulares dentro da Reserva Biológica do Gurupi, e também não se pronunciou sobre o julgamento do ex-policial militar.

Madeira ilegal apreendida pelo Ibama na Reserva Biológica do Gurupi. Foto: Felipe Werneck/Ibama.

Um crime no escuro

Por mais de uma década, o réu Francisco da Silva Sousa se aproveitou do escuro e do medo para se livrar da culpa pelo assassinato de Raimundo e pela tentativa de homicídio contra Maria. “Tratou-se de um crime praticado em local distante, de difícil acesso, sem câmeras de vigilância, sem os mecanismos ordinários de registro que existem nos centros urbanos e em um contexto de extrema violência, capaz de intimidar testemunhas e silenciar pessoas da própria comunidade”, detalhou o promotor de justiça Francisco de Assis Carvalho Júnior.

Para ele, o fato de Da Silva ser ex-policial militar representou um desafio extra na investigação realizada pela Polícia Federal. “Era uma pessoa que conhecia a polícia por dentro. Quem conhece os caminhos da investigação também conhece, muitas vezes, os meios de dificultá-la, construir álibis e criar obstáculos à reconstrução dos fatos”, afirmou o promotor.

Em um dos relatórios de investigação da PF, os agentes afirmam que Da Silva teria orientado funcionários da funerária que receberam o corpo do suposto assassino morto como queima de arquivo para que jogassem fora o celular que estava no bolso dele. O aparelho, que aparece nas fotos da cena do crime, não foi encontrado para ser periciado.

Os agentes também relataram que, três dias após o assassinato, o ex-PM foi à noite à casa do homem que socorreu Maria no dia do ataque, e conversou com ele por cerca de meia hora em um lugar escuro, longe da vista de outra pessoa que estava no local. O homem era vaqueiro na fazenda de José Escórcio e também compadre de Maria — teve um dos filhos batizados por ela. No dia do julgamento, ele depôs a favor de Da Silva.

“O desafio foi transformar uma prova complexa, construída ao longo de anos, em uma narrativa objetiva, compreensível e fiel aos autos para os jurados”, destacou o promotor de justiça.

Ainda cabe recurso à decisão, e a defesa de Da Silva já chegou a pedir a anulação do júri, alegando parcialidade dos jurados. O recurso foi negado. “O desembargador fundamentou a decisão nas informações que o juiz repassou: a segurança garantida durante a sessão, a objetividade na condução da sessão e, sobretudo, que o ato em si ocorreu sem qualquer intercorrência que justificasse a anulação”, explicou a advogada Fernanda Souto, da Justiça nos Trilhos.

O Ministério Público ressaltou o valor jurídico, simbólico e institucional da sentença. “Ela honra a memória de Raimundo dos Santos Rodrigues, reconhece a resistência de Maria e reafirma que defensores da vida, da terra e do meio ambiente não estão sozinhos”, disse o promotor de justiça.

Futuro

Nos telejornais do dia 29 de abril, a morte de Raimundo voltou a ser notícia nacional, mas agora por causa do resultado da condenação do ex-PM a 35 anos de prisão. Na mesma semana, também foram notícia os dados do relatório Conflitos no Campo Brasil, da Comissão Pastoral da Terra, que apontavam o aumento do número de assassinatos em conflitos fundiários no Brasil em 2025 — de 13 para 26 em relação ao ano anterior —, e o Maranhão como o estado com o maior número de conflitos por terra, 190. No mundo, o Brasil é o quarto país que mais mata defensores ambientais como Raimundo e Maria.

Neste cenário, e com suas lembranças, é compreensível que Maria diga não ter mais vontade de se somar às lutas por terra e território. Moída em farelos, foi difícil chegar inteira até o julgamento do dia 28 de abril. “Foi um lavamento pra minha alma, pra minha grande espera e angústia, da minha família, das outras famílias que estavam aguardando.”

Maria deve continuar por mais algum tempo no Provita. O desligamento do programa é gradual e dialogado, segundo a assistente social Graziela Martins Nunes, da SMDH. “O meu sonho, quando sair [do programa de proteção], é construir a minha casa. E o que eu quero mesmo é mexer com comida. Esse é um sonho que eu não abro mão. Vou começar com salgadinho, cafezinho, e ir aumentando as coisas. Quero abrir um restaurante caseiro”, anuncia Maria. Em 2026, ela vai concluir o sétimo ano do ensino fundamental. Em 2027, cursará o oitavo e o nono, e pretende fazer cursos de empreendedorismo para começar seu restaurante.

“Quando eu estiver livre para andar em outros lugares, eu quero ir lá na terra dele [de Raimundo] dar uma explicação pras filhas dele, que sempre me acolheram e receberam muito bem. Elas ligaram pra mim, mas eu estava no hospital. Até me convidaram pra ir pra lá, porque elas iam cuidar de mim, mas quando eu saí do hospital eu não saí pra casa de ninguém, eu saí mesmo foi escoltada.”

Perguntei a Maria que tipo de explicação ela daria às filhas de Raimundo.

“Queria dizer ‘olha, eu não vim na época porque eu não podia, porque eu tava esperando o julgamento. Foi assim que ocorreu, mas teve justiça. Eu não desisti, o crime não ficou impune’”.

*Por motivos de segurança, o nome completo de Maria não será informado, e os nomes das testemunhas de acusação foram modificados.

Leia também: Incêndios e invasões de terra ameaçam uma reserva protegida na Amazônia maranhense

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Imagem do banner: estrada na Terra Indígena Alto Rio Guamá, na divisa entre Pará e Maranhão. Foto: AP Photo/Rodrigo Abd.

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