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Antas, morcegos e ninhos: como o plástico se infiltra na fauna amazônica

Anta (Tapirus terrestris) em rio da Amazônia surinamesa. Foto: Panning Out via Flickr (CC BY-NC-SA 2.0).

  • Estudos encontraram microplásticos em diversas espécies da fauna amazônica, mesmo em áreas protegidas e distantes dos grandes centros urbanos. A lista inclui peixes, antas, caranguejos e morcegos.

  • A contaminação avança por diferentes rotas, viajando dos igarapés até a foz do Amazonas, onde aves já fazem “ninhos azuis” compostos por partículas plásticas.

  • Apesar dos efeitos tóxicos ainda serem pouco conhecidos nos animais, os dados mostram que os microplásticos atravessam ecossistemas aquáticos e terrestres, podendo impactar toda a cadeia alimentar.

Esta é a terceira e última reportagem de uma série especial sobre microplásticos na Amazônia. Leia a primeira e a segunda reportagens.

MANAUS, AM — Saindo da capital amazonense e subindo o rio Negro de barco, o percurso até o Parque Nacional de Anavilhanas leva de oito a nove horas, ao longo de aproximadamente 100 quilômetros. A unidade de conservação foi criada para proteger um dos maiores arquipélagos de água doce do mundo, com mais de 400 ilhas e 60 lagos. Entre eles está o lago do Prato, com cerca de 3,5 quilômetros de comprimento e 1,5 quilômetro de largura. Mesmo ali, em uma área protegida e distante da pressão urbana, microplásticos foram encontrados no trato digestivo dos peixes.

Um recente estudo registrou microplásticos nas águas do lago do Prato em concentração média de 0,25 partículas por litro, e também nos peixes analisados, independentemente de seus hábitos alimentares — uma média de 3,3 partículas por peixe. No total, cerca de oito em cada dez peixes continham microplásticos. Mesmo em uma área conservada e afastada dos centros urbanos.

“Devido a toda a dinâmica de conectividade que existe entre os ambientes aquáticos na Amazônia, encontra-se o plástico até mesmo nos lugares mais remotos”, explica o biólogo Adalberto Val, um dos autores do trabalho.

O caminho provável do plástico começa antes do lago. A maioria das partículas encontradas nos peixes analisados era formada por filamentos de poliamida, também conhecida como náilon, além de fragmentos de materiais como o PET. Fibras de roupas sintéticas, redes de pesca abandonadas, embalagens e garrafas entram no ambiente a partir do uso cotidiano nas cidades, comunidades e embarcações. Parte desse material se fragmenta sob sol, calor e atrito e, depois, é carregada pela chuva, pelos igarapés e pelos rios até alcançar outros corpos d’água.

Nas cheias, a água conecta margens, florestas, canais e lagos. Nas vazantes, parte desse material pode ficar retida no solo, presa à vegetação ou depositada no fundo. Mesmo quando o entorno imediato não sofre influência direta da urbanização, como ocorre no lago do Prato, ele continua ligado a um sistema de águas capaz de transportar e distribuir as partículas.

Em outro levantamento, o pesquisador espanhol Andreu Rico também encontrou microplásticos em Anavilhanas, em concentrações de 5 a 8 partículas por metro cúbico. “São concentrações muito menores do que as encontradas nas cidades da Amazônia e não representam um risco de intoxicação aos animais”, explica. “Mas demonstram como os plásticos viajam com a água ou pelo ar e como, em qualquer amostra que se pega, há microplástico.”

Vista aérea do Parque Nacional de Anavilhanas (AM). Foto: Lincoln Barbosa, CC BY-SA 3.0 , via Wikimedia Commons.

Nos igarapés, impactos invisíveis nas bases da vida

A viagem dos microplásticos pela Amazônia muito provavelmente passa primeiro pelos igarapés. Esses riachos funcionam como receptores diretos de esgoto sem tratamento e lixo não coletado, sobretudo em grandes cidades como Manaus e Belém, fazendo com que as concentrações encontradas nesses ambientes sejam centenas de vezes superiores às da calha principal do rio Amazonas, por exemplo.

Também lá, nesses ambientes muito menores em escala em comparação aos grandes rios e lagos, os microplásticos se apresentam como estressores severos para organismos que são a base dos ecossistemas. É o caso dos insetos aquáticos, que trituram folhas, aceleram a decomposição da matéria orgânica e servem de alimento para peixes e outros animais.

Um experimento realizado com tricópteros da Amazônia, insetos aquáticos conhecidos popularmente como moscas-d’água (Phylloicus elektoros), demonstrou alta mortalidade após 15 dias de exposição a microplásticos. Em uma das concentrações testadas, mais elevada do que as condições ambientais hoje consideradas comuns, 96% dos indivíduos morreram. “A mortalidade chega a aumentar por volta de sete vezes em relação ao ambiente sem poluição. É possível que, em um experimento mais longo, todos acabassem morrendo”, comenta Renato Tavares, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Adapta e um dos responsáveis pelo estudo.

O mecanismo de contaminação passa pelo próprio modo de vida desses insetos. Como fragmentadores, eles se alimentam de restos de matéria orgânica, como folhas que caem nos igarapés. Quando microplásticos se acumulam nas folhas, acabam sendo ingeridos junto com o alimento. Muitos também têm brânquias externas, usadas na respiração. A água contaminada passa por essas estruturas e pode fazer essas partículas se depositarem nas brânquias, diminuindo a superfície disponível para respirar.

Uma vez ingeridos, os microplásticos podem causar bloqueios físicos no trato intestinal e se acumular em estruturas ligadas à excreção dos insetos. Mas esses danos não são as únicas consequências. Por serem base fundamental da cadeia alimentar e do ciclo de nutrientes dos igarapés amazônicos, moscas-d’água e demais insetos aquáticos contaminados podem carregar microplásticos para outros ambientes, do aquático para o terrestre, e para outros animais. “Se o predador, como um peixe, come um inseto fragmentador, ele estará comendo também o microplástico que há dentro do inseto”, explica Renato.

Parte fundamental da dieta desses insetos depende também de fungos conidiais, que recebem esse nome por se reproduzirem por esporos chamados conídios. Esses organismos ainda mais minúsculos colonizam as folhas que caem nos igarapés e realizam um processo chamado condicionamento microbiano, tornando as folhas mais macias e nutritivas para os insetos. No entanto, em um experimento que combinou a presença de microplásticos com o aquecimento associado às mudanças climáticas, espécies desses fungos apresentaram queda na produção de esporos e desaceleração no processo de decomposição.

Ao olhar para esse pequeno mundo afetado pela presença dos microplásticos, Renato Tavares enxerga um impacto maior sobre todo o ecossistema. “Esses organismos consomem a matéria orgânica grossa, como folhas e troncos, e basicamente a transformam em alimento para os outros”, detalha. Quando microplásticos entram nesse caminho, eles podem interferir no trabalho miúdo que mantém o igarapé funcionando.

Amostra de microplásticos. Foto: © European Union, 2026, CC BY 4.0, via Wikimedia Commons.

Da água para a terra firme: microplásticos em antas e morcegos

A partir dos igarapés amazônicos, a viagem dos microplásticos deixa de ser apenas aquática. Parte das partículas permanece na água, mas outra parte atravessa a fronteira entre o riacho e a floresta. Insetos aquáticos, por exemplo, são uma das pontes. Eles passam a primeira fase da vida dentro d’água, mas emergem como adultos, circulam pela mata e servem de alimento para outros animais. Também as partículas que chegam pelo ar aderem facilmente a folhas e frutos, que por sua vez podem se tornar vias de contaminação para outros animais.

A pesquisa sobre esse tipo de contaminação nos ambientes terrestres ainda é escassa, sobretudo na Amazônia. Foi com surpresa, portanto, que Danielle Regina Ribeiro-Brasil, pesquisadora da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), encontrou partículas de microplásticos em animais inusitados: os morcegos amazônicos.

Danielle já vinha participando de trabalhos que identificavam a contaminação por plásticos em pequenos peixes de igarapés amazônicos e em insetos aquáticos, mas não esperava encontrá-los em morcegos. “A gente pensou: não deve ter microplástico, vai ser o único que não vai ter. E aí a gente se enganou”, recorda.

Em pesquisas das quais Danielle participou, microplásticos foram encontrados em 95% dos morcegos analisados, com partículas no trato digestivo, no fígado e até nas vias respiratórias, o que sugere a inalação dessas partículas pelo ar. Em espécies específicas, como morcegos hematófagos (Desmodus rotundus, Diaemus youngii e Diphylla ecaudata), que se alimentam de sangue, a taxa de contaminação chegou a 100%. “O microplástico fica preso no pelo do animal onde o morcego vai se alimentar. Nisso, ingere microplásticos, fibras que ficam aderidas ao pelo dos bichos”, explica Danielle.

As partículas encontradas eram, em sua maioria, fibras associadas a materiais sintéticos. O resultado reflete o entorno: os morcegos estudados vivem no Arco do Desmatamento, em municípios como Altamira e Vitória do Xingu, no Pará, uma zona marcada por intensa degradação ambiental e pressão humana.

Morcego-vampiro (Desmodus rotundus). Foto: Charles J. Sharp, CC BY-SA 4.0, via Wikimedia Commons.

Também no Pará, sobretudo em áreas sob influência da mineração de bauxita em Paragominas, outro mamífero terrestre mostra sinais de contaminação: a anta (Tapirus terrestris). Em sua dissertação de mestrado, David Silva Sousa analisou fezes de antas da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal. Cerca de 77% das amostras apresentaram microplásticos. Na Amazônia, foi registrada a maior média de contaminação, com 2,6 partículas por grama de fezes secas.

“Independentemente do ambiente, as antas tinham contaminação”, explica Ana Cristina Mendes de Oliveira, zoóloga da Universidade Federal do Pará (UFPA) e orientadora do trabalho. “Descobrimos que a anta é um animal extremamente vulnerável, pois é herbívoro, come em grandes quantidades por dia e por isso acaba ingerindo microplásticos que estão presos nas folhas.”

A dissertação não permite afirmar que os microplásticos foram absorvidos pelos órgãos das antas, já que analisou apenas as fezes. Mas o resultado mostra que as partículas estão sendo ingeridas por um animal que percorre grandes áreas, consome folhas e frutos e interage com água. Para Ana Cristina, isso torna a espécie um bom indicativo do quão contaminada é uma área. “A gente está estudando anta, mas todo animal que está ali naquele mesmo território da anta provavelmente está contaminado também.”

Na pluma dos rios: caranguejos contaminados e “ninhos azuis”

Viajando pelo ar até áreas remotas ou fluindo pelos igarapés em direção aos grandes rios, os microplásticos se movem por todo o bioma até alcançar a zona estuarina de Belém. Ali, onde a água dos rios encontra a maré, partículas vindas da cidade, dos canais urbanos, da pesca e do próprio curso dos rios se misturam. É também nesse trecho final da viagem que aparecem alguns dos casos mais visíveis da contaminação.

José Eduardo Martinelli Filho, pesquisador da Universidade Federal do Pará (UFPA), foi um dos pioneiros a pesquisar a contaminação por microplásticos na Amazônia. Segundo ele, o primeiro artigo sobre o tema no bioma foi publicado em 2018. De lá para cá, a produção científica cresceu, revelando um problema cada vez mais generalizado. “Na maioria dos pontos que pudermos amostrar, iremos encontrar”, afirma.

Na pluma dos rios, a influência das marés é determinante no acúmulo de plásticos. “Quando ela sobe, essas partículas voltam para dentro dos canais; quando a maré desce, elas saem. Então, o poluente entra e sai”, explica José Eduardo. Em uma coleta de sedimentos, ele conta que foi preciso lançar a draga dez vezes para retirar sacos e sacolas até conseguir chegar, de fato, ao leito dos canais.

Anta (Tapirus terrestris) em rio da Amazônia colombiana. Foto: Frederico Mosquera Guerra.

Talvez por isso, quase sem surpresa, o pesquisador integrou equipes que registraram os chamados “ninhos azuis”. Aves da espécie japu (Psarocolius decumanus) estão usando plásticos para construir seus ninhos, suspensos nos galhos das árvores. A pesquisa foi realizada na costa do Pará, em um trecho de manguezal, em uma clareira gramada e próxima a uma vila de pescadores, na ilha de Maiandeua. Por lá, plásticos foram detectados em 67% dos 36 ninhos analisados. No manguezal, 100% dos ninhos continham plásticos.

Os pesquisadores chamaram o fenômeno de “ninhos azuis”, pela cor dos plásticos utilizados pelas aves. A cor sugere o tipo de material que está na origem da contaminação: apetrechos de pesca descartados, como redes e cordas, que se acumulam na vegetação dos mangues e arredores.

A análise laboratorial confirmou que 97,5% das fibras eram de polietileno, um dos tipos de plástico mais utilizados em embalagens flexíveis, revestimentos de fios e cabos e materiais associados à pesca. A cor azul, por sua vez, vem de um aditivo, a ftalocianina de cobalto, que, embora seja insolúvel em água, apresenta risco de toxicidade por inalação, exposição repetida ou contato prolongado.

“O plástico, em si, não é tóxico, mas esses aditivos químicos e corantes são. Alguns estão relacionados a casos de câncer”, explica José Eduardo. Segundo ele, os próximos passos da pesquisa buscam entender se já existem efeitos dessa toxicidade nos filhotes e nos ovos. Outra frente em andamento investiga se os ninhos com plástico ficam mais quentes que os ninhos sem plástico, alterando as condições de desenvolvimento das aves.

Japu (Psarocolius decumanus) e seus “ninhos azuis”, feitos com resíduos de plástico, na foz do Amazonas. Foto: Adrielle Carolina Lopes.

“Quando eu era criança, costumava ir bastante a balneários, nadar nos rios ou na praia. Com o passar dos anos, vi que aquele ambiente foi ficando mais e mais sujo, cheio de plásticos”, recorda Nicole Aleixo, mestra em oceanografia pela UFPA, que estudou a contaminação por microplásticos em sararás (Minuca mordax), pequenos caranguejos também conhecidos como chama-marés, comuns na região estuarina de Belém. Na rota dos microplásticos pela Amazônia, eles aparecem como um dos últimos organismos em que a contaminação foi detectada, já perto da foz.

Os sararás passam a maior parte do tempo construindo suas tocas e se alimentando de microalgas, bactérias e detritos presentes na lama das margens dos rios, sob influência da maré. Ao mexer nos sedimentos, entram em contato com microplásticos, encontrados por Nicole sobretudo em seus estômagos, brânquias e hepatopâncreas. Por sua vez, esses pequenos caranguejos também servem de alimento para as aves.

Neles, o padrão se repete: a maioria dos plásticos encontrados era composta de fibras azuis e fragmentos. Os animais foram coletados em seis pontos da região metropolitana de Belém, na baía do Guajará e em áreas conectadas ao complexo estuarino do rio Pará, mais uma vez sob pressão da urbanização, da pesca, da circulação de resíduos e da falta de tratamento adequado de esgoto.

Para Nicole, encontrar microplásticos nos caranguejos não encerra a pergunta. Apenas desloca o problema. “A gente sabe que tem microplástico, mas o que ele causa?”, questiona. Na pluma dos rios, essa dúvida acompanha as partículas até o fim da viagem pela Amazônia: dos canais urbanos aos ninhos nas árvores, da lama aos corpos de pequenos caranguejos que servem de alimento para outros animais.

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Imagem do banner: Anta (Tapirus terrestris) em rio da Amazônia surinamesa. Foto: Panning Out via Flickr (CC BY-NC-SA 2.0).

Citações:

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