O governo federal planeja fazer uma dragagem contínua no rio Madeira para impulsionar as exportações de grãos, apesar das recentes colisões fatais de barcaças com pequenas embarcações e do diálogo precário com as comunidades locais.
Além dos acidentes, a expansão do tráfego e da dragagem representam riscos de erosão, poluição da água, danos às espécies aquáticas e à pesca.
Com a proximidade das eleições de outubro, as comunidades temem que os políticos priorizem o agronegócio em detrimento da segurança daqueles que dependem do rio para acessar médicos, escolas, trabalho, comércio e rotinas diárias.
CALAMA E PARAÍSO GRANDE, Rondônia e Amazonas — Uma mãe e seus três filhos morreram depois que uma barcaça carregada de soja colidiu com uma estrutura flutuante e destruiu completamente a casa onde viviam em 17 de janeiro de 2025, na comunidade ribeirinha de Urumatuba, à margem do rio Madeira, na cidade de Maricoré, no Amazonas. Quatro meses depois, outra embarcação de carga atingiu três balsas de garimpo ancoradas na comunidade vizinha de Nova Catarina. O proprietário de uma das balsas de garimpo era o marido da mulher e pai das três crianças que morreram no acidente de janeiro, de acordo com o portal de notícias Fato Amazônico.
A Mongabay estava fazendo reportagens em comunidades ribeirinhas na região da cidade de Humaitá, a 190 quilômetros a sudeste e rio abaixo de Manicoré, quando o segundo acidente ocorreu. Todos os entrevistados naquele e nos dias seguintes disseram que estavam apavorados com a ocorrência, além de afirmar que conheciam alguém que sofreu perdas ou morreu em colisões envolvendo barcaças de grãos no rio Madeira.
“A gente está muito preocupado aqui na nossa comunidade a respeito dessas embarcações”, disse a agricultora Maria Delci Barros de Morais, de 59 anos, à Mongabay, na varanda de sua casa na comunidade ribeirinha de Paraíso Grande, localizada a 30 minutos de voadeira de Humaitá. “Já aconteceu de eles atropelarem até mesmo uma pessoa conhecida da gente.” Segundo ela, a barcaça esmagou o barco usado pela família como moradia. “Graças a Deus, não morreu ninguém.”
De acordo com Morais, o risco aumenta durante a estação de cheia do rio Madeira, entre dezembro e maio, quando suas margens ficam inundadas. Poucos dias antes da visita da Mongabay, contou Morais, uma barcaça de grãos passou muito perto de sua casa, embora pudesse “desviar facilmente” porque o rio estava bastante largo. “Eu fiquei com medo naquele dia.”

Estendendo-se por 1.060 quilômetros ao longo de 11 municípios nos estados do Amazonas e Rondônia, a hidrovia do rio Madeira é uma das rotas mais importantes para o transporte de soja, milho, açúcar e outros grãos de plantações do Mato Grosso, dentro do chamado Corredor Logístico Norte. A hidrovia, cuja largura varia entre 440 metros e 9.900 metros, permite que comboios transportem até 18 mil toneladas, mesmo durante a estação seca, de acordo com o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit).
Em agosto de 2025, um decreto assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva incluiu a hidrovia do Madeira no Programa Nacional de Desestatização do país, visando reforçar a capacidade de carga por meio de gestão privada e dragagem regular. No entanto, essa decisão foi revogada em fevereiro, após protestos de grupos indígenas devido à falta de consulta prévia, conforme exigido por lei, para a inclusão da hidrovia do rio Tapajós no plano de privatização, que também continha a hidrovia do rio Tocantins.
Apesar do recuo, o governo federal anunciou em maio um plano de R$ 123,6 milhões para operações de dragagem no Rio Madeira, visando permitir a navegação durante a estação seca. O processo de licitação para escolher a empresa que administrará a hidrovia é esperado para o primeiro semestre de 2027.
As comunidades visitadas pela Mongabay no Amazonas e em Rondônia disseram que não foram consultadas sobre a expansão da hidrovia do Madeira. As eleições de outubro são uma preocupação a mais, afirmaram, dado o destino desconhecido do projeto, que elas temem que aumente o risco de acidentes.
Em outubro, os brasileiros elegerão um novo presidente, governadores e parlamentares estaduais e federais. Lula (PT) busca a reeleição e tem como principal adversário o senador Flávio Bolsonaro (PL), um dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (2019-2022), que não pode concorrer após ter sido condenado em um julgamento de tentativa de golpe. Se Flávio vencer, as políticas anti-ambientais e anti-indígenas de seu pai podem voltar, favorecendo projetos de infraestrutura em detrimento da natureza e das comunidades tradicionais.
O governo de Lula também tem promovido controversos projetos de infraestrutura na Amazônia, como o asfaltamento da BR-319 e concessão de hidrovias e ferrovias.


‘Eu morro de medo aqui, quando passa balsa’
“Uma das maiores preocupações na região é a questão dessas grandes barcaças, que estão passando muito à beira do rio, e atingindo as balsas, os motores, os barcos, dando muito prejuízos, e muitas pessoas correndo risco de vida”, disse Irmã Ivonete Aparecida Paes, articuladora das comunidades ribeirinhas na região da Diocese de Humaitá, em uma mensagem de voz.
Responsável pela Área Missionária Nossa Senhora de Nazaré do Beiradão, Paes trabalha com mais de 60 comunidades nas margens do rio Madeira, onde os acidentes continuam ocorrendo, afirmou ela, citando um que destruiu três balsas de garimpo na vila de Vila dos Bahianos, na área de Humaitá, em julho. Para ela, é necessária “uma grande conscientização e reflexão” para que esses grandes projetos beneficiem, de fato, as comunidades ribeirinhas.
“Quanto às eleições, há muita dúvida”, acrescentou ela. “O povo está meio silencioso, com dúvidas, estão preocupados. Alguns estão desanimados, outros não querem acreditar mesmo na política.”

Ex-pesquisador da Universidade Federal do Amazonas, Igor Hister Lourenço, comentou que temia por sua vida quando morava em um barco de pesquisa. “Eu morro de medo aqui, quando passa balsa”, disse ele no barco de pesquisa onde morava, nas margens do rio Madeira, em Humaitá, durante a visita da Mongabay em maio de 2025. “Quando a gente estava trazendo o barco de Manaus, a gente tinha que deixar as luzes acesas — é de praxe — mas, mesmo assim, eles passavam excessivamente perto. E você tem que desviar, eles não gostam de desviar de você.”
O rio Madeira é uma rota fundamental para as comunidades ribeirinhas da região. Em muitos casos, é a única forma de chegar à cidade mais próxima para assistência médica, ir ao trabalho e à escola, ou fazer rotinas diárias, como ir a mercados. Durante a viagem da reportagem, a Mongabay testemunhou o tráfego intenso de pequenas embarcações coexistindo com os grandes comboios no rio.
“Tenho preocupação [sobre] como é que vai ficar [essa situação]”, disse Maria Madalena Laborna, de 67 anos, auxiliar de serviços gerais em uma escola municipal na comunidade de Calama, a uma hora de voadeira de Humaitá. “Como é que vão ficar os barcos menores? Porque mesmo que ela [a barcaça] queira desviar, ela é muito longa — tem rebocador que leva 16 balsas. Então, ela não tem como desviar de uma embarcação pequena.”
Operadores de barcaças também se queixaram da falta de consulta e criticaram a forma como o governo vem conduzindo os contratos de dragagem e licitação da hidrovia do Madeira, que deve ser concedida a empresas privadas. “Um projeto dessa natureza, para dar certo, deveria ouvir primeiro quem navega, [para] saber as dificuldades. Até porque um projeto que funciona no Guaíba, não funciona para cá. As embarcações são diferentes”, afirmou Raimundo Holanda Cavalcanti Filho, presidente da Federação Nacional das Empresas de Navegação Aquaviária, por 16 anos, por telefone.
![Maria Madalena Laborna, auxiliar de serviços gerais em uma escola municipal na comunidade ribeirinha de Calama, diz estar muito preocupada com o aumento do tráfego de barcaças de grãos no Rio Madeira."Como é que vão ficar os barcos menores? Porque mesmo que ela [a barcaça] queira desviar, ela é muito longa — tem rebocador que leva 16 balsas." Foto: Karla Mendes/Mongabay.](https://imgs.mongabay.com/wp-content/uploads/sites/29/2026/08/19110831/Maria-Madalena.jpg)
As empresas que vencerem o processo de licitação do governo serão responsáveis pela manutenção do rio para o transporte em troca da cobrança de pedágio. Cavalcanti Filho afirmou ser “cético” sobre o que de fato vai ser feito, porque, ao longo de vários anos, “tudo que disseram que fizeram [para melhorar a navegabilidade do rio], na realidade, não aconteceu” e que “existe a prova testemunhal da tripulação de que nunca houve melhora na condição de navegabilidade e segurança”.
Para ele, a privatização vai acabar cobrando por uma conta sem entregar o serviço adequado. “Quem vai pagar a conta no final é o povo. Aquilo que eu vou pagar de pedágio eu vou embutir no frete, não tem dúvida.”
Um relatório técnico divulgado recentemente alertou para os riscos socioambientais associados à expansão da dragagem na hidrovia do rio Madeira, como fragilidades no licenciamento ambiental, ausência de consulta prévia e de avaliação de possíveis impactos para as comunidades e ecossistemas amazônicos. Publicado em junho pela Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM-Brasil), uma rede da Igreja Católica voltada para povos, territórios e ecossistemas amazônicos, o relatório destaca “a ausência de estudos atualizados sobre os impactos hidrossedimentológicos das novas áreas previstas para dragagem e a falta de informações detalhadas sobre possíveis efeitos na dinâmica dos rios e lagos conectados ao Madeira”.
Os riscos ambientais da dragagem incluem distúrbios no ecossistema, aumento da erosão, poluição da água e danos às espécies aquáticas.
“O rio Madeira é um território vivo, do qual dependem povos indígenas, comunidades ribeirinhas e ecossistemas fundamentais para a Amazônia”, disse Irmã Maria Irene Lopes, secretária executiva da REPAM-Brasil, em um comunicado, por e-mail, à Mongabay. “Independentemente do resultado das eleições presidenciais, é fundamental que haja compromisso do Estado brasileiro com a realização de estudos ambientais adequados, a consulta livre, prévia e informada às populações potencialmente afetadas e a avaliação dos impactos cumulativos das intervenções previstas na hidrovia”.


Historicamente, as regiões visitadas pela Mongabay votaram em partidos de esquerda e apoiaram Lula, cujas políticas as beneficiaram, como a abertura de linhas de crédito para a compra de motores e barcos de alumínio, e ao conceder-lhes auxílios para a pesca, explicou Luciomar Monteiro da Costa, membro da coordenação colegiada da Comissão Pastoral da Terra em Rondônia.
Embora estejam decepcionados com o projeto da hidrovia do Madeira de Lula, disse ele, o medo de ter um partido político de direita de volta à presidência é muito pior. “Quatro anos da família Bolsonaro [na presidência] foi muito complicado. Teve muitas crises, o dinheiro estava mais difícil, eles não conseguiam acessar crédito, foi muita burocracia para conseguir acessar os direitos. Então, eles têm medo de que volte ao tempo antigo,” afirmou ele em uma mensagem de voz.
“A comunidade está olhando com muita preocupação. A comunidade tem muito medo de que se perca, de fato, o controle, os direitos do rio e, além disso, de perder a potencialidade do rio. Já está muito ruim de pesca. E poderá ficar pior. Então, tem uma preocupação muito grande.”
Banner image: Moradores da comunidade ribeirinha Paraíso Grande, localizada a 30 minutos de voadeira da cidade de Humaitá, afirmam que o risco de acidentes com grandes comboios aumenta durante o período de cheia do rio Madeira, quando as margens ficam inundadas. Foto: Karla Mendes/Mongabay.
Karla Mendes é repórter investigativa da Mongabay no Brasil e a primeira brasileira vencedora do John B. Oakes Award for Distinguished Environmental Journalism, da Universidade de Columbia, nos EUA. Membro do Rainforest Investigations Network do Pulitzer Center, ela é também a primeira brasileira e latino-americana eleita para a diretoria da Society of Environmental Journalists (SEJ), dos Estados Unidos, onde ela também foi eleita Vice-Presidenta de Diversidade, Equidade e Inclusão. Leia outras matérias publicadas por ela na Mongabay aqui. Encontre-a no LinkedIn, Instagram, Threads, Bluesky e 𝕏.
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