O Projeto Reconecta instalou oito pontes de dossel em Alta Floresta, na Amazônia mato-grossense. Ao longo de 15 meses, armadilhas fotográficas documentaram milhares de travessias de animais arborícolas, que passaram a usar essas novas passagens aéreas.
Travessias seguras sobre as estradas favorecem a dispersão de sementes e a diversidade genética, ajudando a conter o “efeito dominó” da perda de biodiversidade, que começa quando rodovias fragmentam habitats.
O Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) definiu oficialmente o modelo do Reconecta como o padrão nacional de ponte para reduzir atropelamentos de animais nas estradas brasileiras.
Criadora do Reconecta, a bióloga Fernanda Abra, vencedora do Whitley Award, agora expande essas estruturas de conservação de baixo custo para outros biomas brasileiros e para o vizinho Suriname.
Era por volta das 7h da manhã, havia uma forte neblina, e o biólogo Gabriel Falquetto já tinha visto alguns animais atropelados na rodovia ES-164, no Espírito Santo. Ele estava a caminho da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Kaetés, na Mata Atlântica, onde trabalha com monitoramento da fauna e de atropelamentos na região.
De repente, avistou no asfalto o corpo de um primata sem vida. Era um sagui-da-serra-claro (Callithrix flaviceps), espécie classificada como criticamente em perigo pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Estima-se que restem cerca de 2.500 indivíduos em vida livre. É um dos primatas mais ameaçados do planeta.
“Foi extremamente doloroso e desanimador. Nós percorremos essa região diariamente monitorando a fauna e comemoramos cada encontro com grupos de saguis-da-serra-claro na floresta”, contou Gabriel à Mongabay. “Encontrar um indivíduo nessas condições causa um sentimento de tristeza e impotência. Além da perda daquele animal, o episódio nos lembra dos impactos que nossas atividades causam sobre a biodiversidade.”
A cerca de 2.900 km dali, no município de Alta Floresta, no extremo norte de Mato Grosso, casos como o do atropelamento do sagui-da-serra-claro, ocorrido em junho deste ano, não são registrados desde 2024. Desde então, foram instaladas oito pontes de dossel para conectar trechos de floresta fragmentada na estrada de acesso à cidade. Imagens de armadilhas fotográficas revelaram que, em 15 meses, as passagens aéreas de fauna proporcionaram 15 mil travessias seguras de animais arborícolas. E nenhum atropelamento.

As pontes fazem parte do programa Alta Floresta Não Atropela, uma parceria entre o projeto Reconecta e a prefeitura, com o apoio de organizações e empresários locais, empenhados em conservar a biodiversidade e promover o ecoturismo em um município com numerosas colisões entre veículos e animais silvestres.
A bióloga Fernanda Abra, pesquisadora associada do Smithsonian’s National Zoo and Conservation Biology Institute, nos Estados Unidos, e idealizadora do Reconecta, lembra que, poucas horas antes do início da instalação das primeiras pontes em Alta Floresta, encontrou dois micos-de-schneider (Mico schneideri) mortos. A espécie é endêmica da Amazônia brasileira e está ameaçada de extinção.
“A ponte de dossel tem duas funções. A primeira delas é melhorar a conectividade para os animais, permitindo que eles se locomovam de um lado para o outro nessas áreas de florestas fragmentadas”, diz Fernanda. “E como consequência disso, temos a redução dos atropelamentos.”
Todas as pontes possuem duas armadilhas fotográficas: uma voltada para a travessia, para registrar quais animais utilizam a passagem, e outra voltada para a floresta, para observar quais animais chegam ao local, mas decidem não utilizá-la.
Entre os primatas registrados usando as pontes nos primeiros meses do Alta Floresta Não Atropela estão o macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles chamek), o bugio-vermelho-do-purus (Alouatta puruensis), o macaco-da-noite (Aotus infulatus), o macaco-prego (Sapajus apella), o já citado mico-de-schneider e, ainda, o zogue-zogue-de-alta-floresta (Plecturocebus grovesi).
Descrito apenas em 2019 e logo classificado como criticamente em perigo, o zogue-zogue-de-alta-floresta é o símbolo da iniciativa, que graças a seus resultados positivos, segue para uma próxima fase.
“Em agosto, instalamos mais oito pontes na área urbana da cidade”, revela Fernanda. “A única diferença é que agora a companhia de eletricidade precisará abaixar a altura da fiação e fazer um trabalho de isolamento para que, caso os animais pulem da ponte para os fios, não sejam eletrocutados.”

Uso da ponte aumenta com o tempo
O projeto em curso em Alta Floresta não é o primeiro do Reconecta. Em 2021, em parceria com os Waimiri-Atroari, foram colocadas 32 pontes sobre a BR-174, rodovia que cruza o território indígena, na divisa entre Amazonas e Roraima.
Os Waimiri-Atroari ajudaram Fernanda a identificar os melhores pontos para a instalação das pontes artificiais. Ao longo dos últimos cinco anos, câmeras acopladas nos postes documentaram a travessia de cerca de 1.250 primatas, como o sagui-da-mão-dourada (Saguinus midas), espécie que não é estritamente arborícola e muitas vezes desce ao solo em busca de alimento, o que a particularmente vulnerável a atropelamentos.
“Os resultados do projeto na BR-174 foram incríveis. Conseguimos fazer um experimento com diferentes modelos de design das pontes para descobrir o que os animais preferem”, afirma Fernanda.
Com anos de experiência em rodovias brasileiras, a bióloga sempre buscou uma solução fácil, de baixo custo e durável. A ponte atual tem um desenho em múltiplas camadas, permitindo tanto a travessia de macacos que usam sua cauda preênsil para se locomover como a daqueles que fazem a braquiação — utilizando os braços, como o macaco-aranha —, além dos que apenas caminham sobre a trama de cordas cruzadas. Vale ressaltar que outros mamíferos terrestres de pequeno porte, como gambás, preguiças e cuícas, já foram flagrados nas pontes.
Para Fernanda, é preciso ter em mente que esse é um projeto de longo prazo e nem sempre os resultados são imediatos. A BR-174 foi construída nos anos 1970, e os animais podem levar tempo para se habituar a essa nova alternativa de travessia. O monitoramento do Reconecta tem apontado que o uso das estruturas aumenta com o tempo.
“Muitas vezes, a nossa pressa na conservação não leva em conta o timing do impacto”, diz ela.
Em Alta Floresta, o macaco-prego demorou sete meses para experimentar uma das pontes. Isso pode indicar que cada espécie tenha seu próprio tempo de adaptação.

Espécies desaparecem, floresta empobrece
País com a maior diversidade de primatas do planeta, o Brasil também tem a quarta maior malha rodoviária do mundo — uma combinação fatal para animais que vivem na beira de florestas, divididas ao meio para dar lugar ao asfalto.
“Pela nossa perspectiva humana, estradas significam conexão e desenvolvimento, mas, para a vida selvagem, elas representam desconexão, barreiras e uma ameaça à sobrevivência”, destaca Fernanda.
Aproximadamente 9 milhões de animais são atropelados nas estradas brasileiras anualmente, estima um estudo de 2022. Já uma compilação de dados publicada na revista Nature, em 2025, mostra que o Brasil está entre os países com a maior taxa de mortalidade de vertebrados terrestres vitimados por colisões com veículos.
“A perda de habitat é uma das principais causas do declínio de populações, sobretudo de espécies ameaçadas, mas o impacto dos atropelamentos ainda é muito subestimado”, ressalta Fabiano Rodrigues de Melo, especialista em primatas e professor da Universidade Federal de Viçosa (Minas Gerais).
Além dos atropelamentos, as rodovias impõem confinamento à fauna. “Quando você isola populações, elas vão se tornando menores e mais suscetíveis a ameaças”, explica Amely Branquinho Martins, analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e coordenadora do projeto Genômica da Biodiversidade Brasileira (GBB).
Entre essas ameaças está a endogamia, ou seja, quando há o acasalamento entre indivíduos aparentados. “A perda e a degradação do habitat podem impedir que um indivíduo de uma população migre para outra, o que chamamos de fluxo gênico. Sem ele, há uma redução na variabilidade genética da espécie”, explica Amely.
E os impactos só crescem, como um efeito dominó, ressalta Fabiano. A perda de primatas, principalmente frugívoros, pode afetar a composição da floresta, já que eles atuam como dispersores de sementes e até ajudam na polinização. “Há todo um conjunto de interações ecológicas que acabam sendo perdidas com o desaparecimento dessas espécies.”

A expansão do Reconecta
Uma das expectativas para reduzir o problema de atropelamentos de animais silvestres é a aprovação de um projeto de lei que está em tramitação no Congresso. O PL 2550/2026 institui o Plano Nacional de Segurança Viária para Fauna Silvestre, que prevê, entre outras medidas, a instalação de sinalização e redutores de velocidade nas rodovias brasileiras, bem como a construção de passarelas e passagens aéreas ou subterrâneas.
O projeto de lei já recebeu o sinal verde da Câmara dos Deputados e agora aguarda votação no Senado.
Se aprovado, o modelo de ponte de dossel desenvolvido pelo Reconecta deve ser empregado em todo o país. É que, em 2026, o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) definiu o design adotado pela equipe de Fernanda Abra como o padrão recomendado para as estradas do país.
Além dos excelentes resultados obtidos em solo nacional, os esforços de Fernanda para salvar os primatas têm sido reconhecidos internacionalmente. Em 2019, ela conquistou o prêmio Future for Nature e, em 2024, o Whitley Award, considerado o “Oscar da conservação da natureza”. Em junho, a bióloga brasileira figurou entre os ganhadores do Prêmio Wayfinder 2026, integrando o seleto grupo dos National Geographic Explorers, que recebem financiamento da instituição para seus projetos.
O apoio é mais do que bem-vindo, pois o Reconecta tem planos de expansão em diversas frentes. Com a parceria de uma organização local, o projeto será levado a rodovias do vizinho Suriname.
Graças à grande repercussão do Alta Floresta Não Atropela, nos próximos meses, dez pontes de dossel serão instaladas no município de Lucas do Rio Verde, no sul de Mato Grosso.

Uma das estradas em que há grande expectativa para a implantação das pontes é a BR-262, que atravessa o Pantanal. Ela é chamada de “estrada da morte”, pelas altas taxas de atropelamento. Morrem nela, todos os anos, cerca de 2 mil animais.
Fernanda sonha ainda em levar suas pontes para outros biomas, como a Mata Atlântica, e evitar a morte de macacos como o sagui-da-serra-claro, mencionado no início desta reportagem.
“Eu vejo no futuro um Reconecta Biomas. Já temos o Reconecta Amazônia. E vamos começar o Reconecta Pantanal em breve. Eu vislumbro pontes de dossel na Mata Atlântica, para os macacos de lá também, como os muriquis e os bugios, que são super ameaçados”, revela.
Fernanda reforça que, para esse sonho continuar a ser bem-sucedido, é fundamental contar com o engajamento de órgãos públicos, empresas e comunidades locais, como aconteceu em Alta Floresta e na Terra Indígena Waimiri-Atroari. “Quando todo mundo está envolvido, todo mundo valoriza e trabalha mais em prol da iniciativa”, conclui.
Leia também: Em parceria com indígenas, projeto constrói pontes na Amazônia para salvar primatas
Imagem do banner: Um macaco-aranha-de-cara-preta (Ateles chamek) atravessa uma das pontes do Reconecta. Foto cedida por Sergio Leal.
Citações:
Pinto, F. A. S., Cirino, D. W., Cerqueira, R. C., Rosa, C., & Freitas, S. R. (2022). How many mammals are killed on Brazilian roads? Assessing impacts and conservation implications. Diversity, 14(10), 835. https://doi.org/10.3390/d14100835
Grilo, C., Neves, T., Bates, J., le Roux, A., Medrano-Vizcaíno, P., Quaranta, M., Silva, I., Soanes, K., Wang, Y., & Data Collection Consortium. (2025). Global Roadkill Data: A dataset on terrestrial vertebrate mortality caused by collision with vehicles. Scientific Data, 12, Article 505. https://doi.org/10.1038/s41597-024-04207-x