Com dados da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, o Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (Maap), da Amazon Conservation, publicou um relatório anual sobre o desmatamento da Amazônia em 2025.
O estudo registrou 736.484 hectares desmatados no último ano, resultado de atividades como a agropecuária, a mineração e a construção de estradas. Dessa área degradada, estima-se que quase 132 mil hectares tenham sido removidos ilegalmente.
Alguns índices de perda florestal caíram. Pesquisadores alertam, no entanto, que 2026 pode ser pior à medida que fenômenos climáticos, como o El Niño, seguem aquecendo os oceanos — com ondas de calor que favorecem a ocorrência de incêndios florestais
A cada ano, especialistas da Universidade de Maryland, nos Estados Unidos, utilizam dados para avaliar os níveis de perda florestal em todo o mundo. As informações são coletadas a partir de imagens de satélite da Nasa e da Agência Espacial Europeia e podem orientar ambientalistas e autoridades na tomada de decisões sobre conservação na Amazônia.
Os números de 2025 foram publicados no final de abril. Em junho, o Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (Maap, na sigla em inglês) lançou seu relatório anual, no qual apresenta uma análise abrangente com base nesses dados, destacando as tendências anuais e os pontos críticos da perda de floresta amazônica.
Embora os dados indiquem que as métricas da perda florestal tenham caído em relação aos anos anteriores, o patamar permanece elevado e preocupante. Segundo a análise, atividades como agricultura, pecuária e mineração se mantêm como vetores de destruição de centenas de milhares de hectares de floresta primária. Em muitos casos, isso ocorre em unidades de conservação e em territórios indígenas.
“É difícil dizer que as notícias são boas se o desmatamento for menor do que em anos anteriores, mas ainda assim atingir um milhão [de hectares]”, disse Matt Finer, diretor do Maap. De acordo com o especialista, o desmatamento zero, necessário para a sobrevivência da Amazônia, ainda segue distante.

Análise dos dados
Para compreender o que ocorre na Amazônia, os pesquisadores costumam separar a perda florestal causada por incêndios daquela provocada por fatores não diretamente relacionados ao fogo, como a criação de gado e a mineração.
Há um motivo para os incêndios aparecerem separados nos registros: embora as queimadas sejam frequentemente provocadas por ação humana, grande parte da terra afetada nesses casos é degradada, mas não totalmente suprimida — portanto, ainda pode ser recuperada.
Em 2025, os incêndios causaram a perda de 1,5 milhão de hectares na Amazônia — uma queda em relação aos 2,8 milhões de hectares perdidos em 2024, quando o clima seco, impulsionado pelo El Niño, agravou as queimadas.
Segundo os pesquisadores, ainda que não representem uma perda florestal “completa”, os números preocupam. Eles explicam que os incêndios não fazem parte do ecossistema natural das florestas tropicais e que a recuperação pode levar muito mais tempo. O quadro se agrava em meio às mudanças climáticas e à reincidência de queimadas nessas mesmas áreas.
“Sabemos que, quando as florestas queimam uma vez, ficam suscetíveis a queimar novamente”, disse Elizabeth Goldman, codiretora da Global Forest Watch, organização que também monitora o desmatamento. “E, se os incêndios continuarem a impactar a floresta repetidamente, é possível que ela não se recupere de fato.”
A outra parte dos dados, classificada como perda florestal “não relacionada ao fogo”, por sua vez, é um indicador que esmiúça o desmatamento causado pela ação humana. De acordo com o levantamento, 2025 registrou um dos números mais baixos de perda florestal não ocasionada por incêndios em uma década — é o quinto índice mais baixo desde 2002. A perda total foi de pouco mais de 1 milhão de hectares.
Em anos anteriores, o valor era quase duas vezes maior: após atingir 1,47 milhão de hectares em 2018, os dados de desmatamento subiram para quase 2 milhões de hectares em 2022. Para os especialistas, a queda é positiva — mas ainda representa uma perda significativa e digna de atenção.
“Devemos tirar lições desse sucesso. Mas, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda não é o suficiente”, disse Goldman.

Deslizamentos de terra, tempestades de vento e rios sinuosos, entre outros eventos, são frequentemente registrados por engano como perda de floresta primária. Este ano, a análise do Maap forneceu estimativas mais precisas de desmatamento ao remover alguns desses fatores.
O estudo estima o desmatamento de 2025 em 736.484 hectares — 94,6% decorrente da agricultura e 5,3% da extração de commodities sólidas, como a mineração de ouro (que costuma ser um vetor de violência). Os outros 0,1% estão relacionados à construção de estradas, entre outras obras de infraestrutura.
Mais ainda, a investigação revela que quase 132 mil hectares desse total foram desmatados ilegalmente, com registros de degradação florestal em áreas protegidas e territórios indígenas.
Finer, do Maap, também enfatizou a relevância das estradas nessa equação, embora elas sejam ofuscadas pelos números da agricultura nos dados. As rodovias removem apenas uma parte da mata, mas abrem caminho para o agronegócio e outras atividades, como explicou a Mongabay em reportagem.

O papel da mineração também parece pequeno nos dados. No entanto, a atividade tem um impacto desproporcional em áreas protegidas, onde responde por 11% do desmatamento.
Com o maior território entre os países da Amazônia, o Brasil lidera quase todas as métricas: segundo o Maap, mais da metade do desmatamento ocorreu em território brasileiro (cerca de 560 mil hectares), seguido pelo Peru, pela Bolívia e pela Colômbia.
No entanto, em termos proporcionais, a Bolívia lidera em perda florestal causada pelo fogo e na redução de floresta primária não relacionada a incêndios, sobretudo devido à expansão da soja no departamento de Santa Cruz. “A Bolívia realmente começa a surgir como o local com as maiores taxas de desmatamento e de incêndios por área”, disse Finer.
Apesar de alguns números em queda registrados em 2025, pesquisadores alertam que os dados de perda de floresta em 2026 podem mudar, à medida que o novo ‘super El Niño’ continua a criar condições favoráveis às queimadas. Para Goldman, a solução para esses eventos climáticos extremos é criar melhores políticas de enfrentamento.
Ela também defende a importância de ter os líderes certos no poder. Isso inclui não apenas os países com floresta, como o Brasil, mas também outras nações ao redor do mundo. “A forma de promovermos mudanças no futuro é pela eleição de líderes que se preocupem com a floresta e com o meio ambiente”, disse.
Imagem do banner: Área desmatada na Amazônia em Formoso do Araguaia (TO). Foto: AP/Andre Penner.