Notícias ambientais

Estrangeiros tentam embarcar com cactos raros do sul do Brasil para a Europa

Cacto da espécie Parodia neohorstii, criticamente ameaçado de extinção. Foto: Leonora Enking from West Sussex, England, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

  • Autoridades brasileiras detiveram cidadãos tchecos, alemães e russos transportando centenas de cactos e suas sementes, todos nativos do Rio Grande do Sul.

  • O contrabando dessas plantas atinge espécies criticamente ameaçadas e valorizadas por colecionadores ao redor do mundo

  • Entre os estrangeiros flagrados pela polícia, há botânicos amadores reconhecidos pela comunidade internacional de amantes de cactos.

  • A retirada ilegal da natureza afeta a preservação de espécies que levam até dez anos para se tornarem produtivas.

Em fevereiro deste ano, agentes da Polícia Federal (PF) abordaram quatro cidadãos tchecos no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo, e encontraram uma carga pouco usual: 214 unidades de cactos e envelopes com sementes de cactos. O material estava escondido em latas de cerveja, sacos de papel e até nos sapatos de um dos homens, segundo informações do processo judicial em andamento na Justiça Federal.

As plantas pertenciam a sete espécies, todas nativas da região da Serra do Sudeste, no Rio Grande do Sul. Segundo o laudo assinado pela especialista em cactáceas Rosana Singer, bióloga do Jardim Botânico de Porto Alegre, duas destas espécies estão criticamente ameaçadas de extinção: Parodia nothorauschii e Parodia neohorstii. Outras quatro estão em perigo de extinção, entre elas Gymnocalycium horstii e Frailea curvispina.

Os tchecos, que vinham de Montevidéu e se preparavam para embarcar para Viena, foram identificados como Jaroslav Vich, Karel Slajs, Vladimir Bradna e Vladimir Sorma. Eles levavam um mapa do Rio Grande do Sul e um roteiro impresso com frases traduzidas do tcheco para o português e o espanhol, entre elas: “Você sabe onde pequenos cactos crescem?”, “Os cactos estão crescendo aqui?” e “Me desculpa. Eu não sei se é privado!”.

O grupo ficou apenas um dia detido, mas segue proibido de deixar o Brasil. Diante da grande quantidade de material apreendido, a justiça determinou a perícia nos celulares dos viajantes, que estão sob investigação.

Cactos de espécies ameaçadas de extinção e endêmicas do Rio Grande do Sul apreendidos no Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Foto: Fiscalização/Ibama/Guarulhos.

Em pouco tempo, outros três estrangeiros foram flagrados tentando deixar o país com cactos nativos do Rio Grande do Sul. Em março, vinte dias após a apreensão em Guarulhos, um casal de alemães foi flagrado no Aeroporto Internacional Salgado Filho, em Porto Alegre, com mudas e sementes de cactos do gênero Frailea, valorizados por colecionadores de todo o mundo.

Jörg Andreas Hofacker e a esposa Ute Bosch foram multados pelo Ibama em um total de R$ 148 mil por transportar e remeter amostra de patrimônio genético ao exterior sem autorização do órgão competente. Segundo o Ibama, eles também levavam na bagagem amostras de fósseis e conchas de moluscos nativos. Os estrangeiros foram liberados após passar um dia detidos na carceragem da PF em Porto Alegre, e retornaram para a Alemanha enquanto respondem a processo no Brasil.

Em 2024, um cidadão russo chamado Alexey Filippov já havia sido detido por equipes da Patrulha Ambiental (Patram) e da Secretaria Estadual de Meio Ambiente (Sema-RS) enquanto coletava cactos no Parque Estadual do Espinilho, no município gaúcho de Barra do Quaraí. Segundo informações do Portal Camaquã, ele carregava 98 amostras de plantas armazenadas em envelopes de papel.

O homem foi liberado pela Polícia Civil de Uruguaiana, mas acabou detido em seguida pela PF ao tentar embarcar para a Rússia no Aeroporto Internacional de Guarulhos, levando consigo outros três cactos. Filippov recebeu autorização para deixar o Brasil em janeiro de 2025, com a condição de participar dos atos processuais por meio virtual.

Um dos tchecos tentou esconder sementes de cactos no sapato. Foto: Fiscalização/Ibama/Guarulhos.

Em sua defesa, Filippov afirmou que estava transportando os cactos para fins de pesquisa, e que não sabia que era preciso pedir autorização ao Ibama. A Mongabay não conseguiu entrar em contato com ele.

“Ele foi indiciado por contrabando e por invasão da área de proteção ambiental”, explicou Ana Gabriela Becker Gomes, delegada da PF de Uruguaiana que investiga o caso. Ela também participou das operações nos aeroportos Salgado Filho e de Guarulhos. “São três casos totalmente distintos, sem relação entre eles, mas com o mesmo perfil.”

Tanto os cidadãos tchecos como os alemães são ativos em grupos de amantes de cactos, inclusive em sites onde os aficionados registram coletas de plantas feitas em diferentes lugares do mundo.

Um destes sites registra uma longa incursão do alemão Hofacker ao Rio Grande do Sul no início dos anos 1990, com passagens por municípios como Bagé, Lavras do Sul, Dom Pedrito e São Gabriel. Há inclusive uma espécie gaúcha batizada em homenagem a ele, Parodia hofackeriana.

Hofacker foi presidente da Sociedade Alemã de Cactos (Deutsche Kakteen-Gesellschaft) por 16 anos e escreveu diversos livros sobre o assunto, segundo a página de um evento internacional para amantes de cactos e suculentas realizado na China em 2024. No perfil que escreveu para outro evento internacional, desta vez na Bélgica, o alemão afirmou ter viajado pela primeira vez ao Brasil para “observar” plantas em 1989. “Desde então, visitamos este país fascinante mais de uma dúzia de vezes”, escreveu Hofacker.

A Mongabay tentou entrar em contato com Hofacker por email, mas não recebeu resposta. A reportagem não conseguiu contato com sua esposa, Ute Bosch.

Cacto da espécie Gymnocalycium horstii, em perigo de extinção. Foto: Joe Bowman, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

O tcheco Jaroslav Vich tem um perfil parecido. Ele foi presidente da Sociedade de Cultivadores de Cactos e Suculentas da República Tcheca e Eslováquia, faz parte do conselho editorial de uma revista mantida pela organização e assina artigos em sites especializados.

Em email enviado à Mongabay, Vich afirmou que as plantas haviam sido coletadas no Uruguai, e contestou o laudo assinado por Singer. Ele também acusou as autoridades brasileiras de violarem princípios internacionais de direitos humanos e o direito à liberdade de trânsito entre países (leia a resposta completa aqui).

Karel Slajs, que também faz parte do grupo preso em Guarulhos, registrou coletas de cactos no México nos anos 2000, segundo sites especializados. O nome dele também aparece em um catálogo de venda de sementes publicado em 2022 pela Cactos Moravia, uma organização da República Tcheca especializada na produção de sementes.

Outro membro do grupo, Vladimir Sorma, publicou um anúncio de venda de sementes de cactos no Facebook em 2022.

O advogado Matheus Lopes, que representa o grupo, afirmou que seus clientes não iriam se manifestar sobre a reportagem. No processo judicial que tramita na Justiça Federal, Lopes afirma que os tchecos são pesquisadores e botânicos amadores e que estavam no Brasil em uma expedição científica para fotografar espécies para um livro. Ainda segundo a defesa, as plantas teriam sido um presente de um pesquisador do Uruguai.

“Não faz a menor diferença se o cara é um pesquisador de referência internacional ou se ele é um coletor amador”, disse Rodrigo Cambará, analista do Ibama e agente de fiscalização da divisão de proteção ambiental em Porto Alegre. “Ele tem que cumprir a legislação da mesma forma.”

Os alemães detidos no Aeroporto Internacional Salgado Filho levavam, além de cactos e suas sementes, conchas e fósseis. Foto: Polícia Federal/RS.

Um crime difícil de combater

Entre os especialistas, a percepção é de que este tipo de crime sempre existiu, mas costuma passar despercebido. “A biopirataria acontece de forma reiterada, mas, como temos uma fronteira muito grande, nem sempre a gente consegue pegar”, disse a diretora de pesquisa e educação para a sustentabilidade da Secretaria de Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul, Mariela Inês Secchi. “É quase uma visão de colonizadores, de que podem chegar aqui e retirar as nossas riquezas.”

O Rio Grande do Sul é conhecido pela grande variedade de espécies de cactos, incluindo alguns tipos raros da planta. Das cerca de 70 espécies registradas no estado, 52 estão ameaçadas de extinção e 14 existem somente ali, segundo o Ibama.

Em função do risco de extinção, estas espécies são protegidas pelas regras da Cites, um acordo internacional que protege animais e plantas do comércio predatório. Para serem exportadas, essas plantas precisam estar acompanhadas de uma autorização do Ibama garantindo que a transação não vai prejudicar a preservação da espécie.

plant O grupo de tchecos escondeu parte das plantas em latas de cerveja. Foto: Fiscalização/Ibama/Guarulhos.

Segundo Singer, do Jardim Botânico de Porto Alegre, os cactos estão entre as famílias botânicas com mais espécies ameaçadas de extinção. “Eles têm uma distribuição muito restrita”, explicou à Mongabay.

Cada planta retirada da natureza representa um enorme prejuízo para a conservação, já que são poucas as sementes que germinam e certas espécies levam até dez anos para se tornarem produtivas. Em algumas regiões, como Caçapava do Sul, o declínio populacional já é visível. “Antes levávamos uma tarde inteira para contar os indivíduos. Agora o pessoal volta lá para fazer o monitoramento e não encontra mais [as plantas]”, diz Singer.

Além do crime de contrabando, os estrangeiros podem responder por crime ambiental e ser enquadrados na Lei da Biodiversidade, que estabelece regras para o envio de patrimônio genético ao exterior.

Envie sua denúncia para a Mongabay

Se você sabe de algum ato criminoso, injusto ou prejudicial ao meio ambiente e às populações que dependem de recursos naturais, envie um email para mongabaybrasil@mongabay.com. Anexe documentos e provas, se possível. 

 

Imagem do banner: Cacto da espécie Parodia neohorstii, criticamente ameaçado de extinção. Foto: Leonora Enking from West Sussex, England, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Exit mobile version