O Brasil inaugurou em Ilhéus seu primeiro centro de reabilitação para micos-leões-de-cara-dourada impactados pela expansão urbana e pela perda de habitat.
A espécie, endêmica da Bahia, já perdeu 42% de sua área de ocorrência e quase 60% de sua população em três décadas, pressionada por atropelamentos, choques elétricos, ataques de cães e pela conversão de agroflorstas de cacau em monoculturas de café e pastagens.
O centro integra uma estratégia local que inclui a adoção do mico-leão-da-cara-dourada como mascote oficial de Ilhéus e a criação de um dia municipal dedicado à espécie.
O Brasil inaugurou seu primeiro centro de reabilitação para o mico-leão-de-cara-dourada, espécie de primata ameaçada de extinção pela expansão urbana e pela substituição de sistemas agroflorestais de cacau por monoculturas.
Os micos-leões-de-cara-dourada (Leontopithecus chrysomelas) já foram registrados em Ilhéus e arredores, cidade litorânea no sul da Bahia, comendo frutas dentro de um supermercado ou se deslocando por fios de alta tensão — muitos acabam morrendo eletrocutados dessa forma. Atropelamentos em rodovias também têm ferido ou matado vários macacos, assim como ataques de cães domésticos.
Até recentemente, não havia nenhum local especializado para receber esses animais e prepará-los para a volta à natureza, explica o biólogo Leonardo Oliveira, que estuda a espécie há mais de 20 anos.
“Muitas vezes, para o público em geral, ver esses macacos no quintal de casa ou na feira passa a falsa impressão de que está tudo bem: ‘Nossa, tem tantos que já estão até entrando na cidade’. Não. É a cidade que está avançando sobre o espaço deles”, afirma Oliveira, que vai atuar no novo centro de reabilitação.

O mico-leão-de-cara-dourada é uma espécie endêmica do Brasil, restrita a uma pequena região de Mata Atlântica no sul da Bahia. Entre 1992 e 2024, sua área de ocorrência encolheu em 42%, passando de cerca de 22,5 mil quilômetros quadrados para 13 mil km². Isso resultou em uma redução populacional de quase 60%: de uma estimativa de 50 mil indivíduos há 30 anos para cerca de 24 mil atualmente, segundo uma reavaliação populacional publicada em 2024.
Grande parte da área atual de ocorrência da espécie está em fazendas de cacau, onde o cultivo é feito sob a sombra de árvores nativas — sistema conhecido como “cabruca”. O cacau também é um dos frutos preferidos dos micos. Nos últimos anos, porém, algumas dessas áreas de cacau em sistema agroflorestal vêm sendo substituídas por monoculturas de café e por pastagens para gado, segundo a Tamarin Trust, organização do Reino Unido que financia o novo centro de reabilitação.
Em 2024, a cidade de Ilhéus adotou o mico-leão-de-cara-dourada como mascote oficial e instituiu um dia em homenagem à espécie, 26 de março, que coincide com o Dia Nacional do Cacau, para destacar a relação de interdependência entre ambos.
O centro de reabilitação foi inaugurado na Universidade Estadual de Santa Cruz em 26 de março, no segundo aniversário do dia municipal da espécie. O local tem capacidade para receber até três grupos de micos, com planos de ampliação para abrigar até oito grupos simultaneamente.
De acordo com Oliveira, o centro receberá micos feridos ou deslocados para atendimento veterinário e reabilitação, com o objetivo de transferi-los para áreas afastadas dos centros urbanos, onde estejam sujeitos a menos ameaças.
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Imagem do banner: um mico-leão-de-cara-dourada. Foto cedida por Leonardo Oliveira.