No litoral do estado do Rio de Janeiro, pescadores artesanais estão instalando painéis solares em seus barcos. Eles buscam substituir os clássicos geradores a diesel e gasolina, utilizados para ligar holofotes refletores durante a pesca noturna de lula.
Essa nova tendência se ampara em duas iniciativas: o SustentaMar, em Arraial do Cabo, e o Pescando Sol, em São Francisco de Itabapoana, ambos ligados ao Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio).
Somados, os dois projetos já foram responsáveis por equipar 285 embarcações pesqueiras com tecnologia solar, disseminando uma prática menos poluente, menos barulhenta e que também pesa menos no bolso do pescador.
Segundo os profissionais beneficiados, a tecnologia alternativa também aumentou a autonomia dos barcos, facilitando o trabalho diário e garantindo mais segurança a quem passa longos períodos em alto-mar.
RIO DE JANEIRO — “Eu trabalhei por dois anos com um gerador e, mesmo antes do projeto, já tinha desistido dele. Não aguentava mais respirar aquele ar poluente e ter aquele barulho no ouvido”, disse Paulo Henrique do Rosário Correia, presidente da Associação dos Verdadeiros Pescadores e Turismo de Barcos de Bocas Abertas do Município de Arraial do Cabo, no Rio de Janeiro.
Aos 57 anos de idade — sendo mais de 30 deles como pescador —, Paulo contou que não sabe viver sem seu trabalho. “A gente aprende a pescar com os mais velhos e acaba entrando nesse ramo mesmo sem querer. Foi natural. E, quando eu vi, já estava envolvido na pesca o tempo todo.”
Nos últimos tempos, uma mudança positiva passou a cercar as pescarias de Paulo: elas estão mais sustentáveis graças ao uso de painéis solares para geração de eletricidade, o que também garante maior segurança e rentabilidade a quem trabalha no mar.
Isso ocorre graças a projetos como o SustentaMar. Financiada por recursos do Termo de Ajustamento de Conduta (TAC Frade), cuja administração financeira está sob a gestão do Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a iniciativa, aprovada em 2024, surgiu do anseio de melhorar a captura de lula — hoje o principal tipo de pescado para os profissionais vinculados à organização presidida por Paulo.
A pesca artesanal dos moluscos marinhos é feita à noite, quando os cardumes são atraídos pela luz dos holofotes. Até boa parte de 2025, ano em que o projeto passou a receber recursos, as lâmpadas refletoras eram majoritariamente alimentadas por geradores a diesel ou gasolina. Um “vilão”, nas palavras de Paulo, já que o objeto é barulhento a ponto de atrapalhar a concentração na hora da pesca.

Além disso, o tempo de uso do equipamento era limitado: um gerador com capacidade de 20 litros de combustível, por exemplo, produz eletricidade por aproximadamente 6 horas. Os painéis solares, por sua vez, funcionam a noite inteira.
Isso mudou: além de silenciosa, a geração de energia via painéis solares aumentou a autonomia dos barcos em alto-mar, reduziu os custos de rotina e trouxe bem-estar aos pescadores. De quebra, a eliminação dos resíduos fósseis também tornou as jornadas de pesca mais sustentáveis.
Segundo Paulo, essa substituição também otimizou o trabalho, proporcionando mais tempo livre. “Todo dia de manhã, a gente tinha que tirar a bateria para carregar e levar novamente para a embarcação. Você chegava da pescaria noturna às 4h ou 5h da manhã — e só voltava para casa às 8h para descansar”, disse. Cada barco costumava dispor de uma bateria e de um gerador convencional para alimentar lâmpadas de diferentes voltagens.
A instalação dos painéis começou em março de 2025. Depois de alguns testes, o kit fotovoltaico — composto por placa solar, bateria solar para armazenar energia e holofote refletor — foi instalado em 55 das 70 embarcações cadastradas na associação de pescadores de Arraial do Cabo.
Além das placas solares para os barcos, o SustentaMar recebeu um posto de carregamento de baterias solares, disponível ao lado de sua sede principal. É com o dinheiro arrecadado por esse abastecimento periódico que outros barcos poderão ser equipados no futuro. O novo formato é duplamente vantajoso: o ponto de recarga fica mais próximo da marina do que os postos de combustível, ao passo que o serviço de recarga de bateria solar custa cerca de R$ 20, metade do preço que se pagava anteriormente.
A economia é significativa quando se considera o que cada pescador gasta com combustível: quando saem cinco vezes por semana durante a alta temporada, que vai de dezembro a março, os custos são reduzidos em pelo menos R$ 550, segundo os profissionais. “É um ciclo virtuoso: menos custo, menos impacto ambiental e mais segurança e estabilidade para quem depende da pesca para viver”, disse Manuela Muanis, gerente de Portfólio de Projetos do Funbio.

Melhorias para uma pesca mais segura
Para os pescadores da Colônia Z-1, na cidade de São Francisco de Itabapoana (RJ), na divisa do estado com o Espírito Santo, a principal motivação para criar um projeto de energia solar era garantir maior segurança aos profissionais que passam muitas horas em alto-mar. Dessa ideia nasceu o projeto local Pescando Sol, também amparado pelo Funbio.
A colônia é composta por mais de 1.500 pescadores e se estende por cerca de 60 quilômetros da costa. Em tempos recentes, a comunidade presenciou incidentes: alguns pescadores não puderam retornar à terra firme por falta de combustível, ficando incomunicáveis. Em muitos casos, esses profissionais navegam longas distâncias, chegando ao mar de Ilhabela (SP) e até ao litoral da Bahia.
Há quem fique um mês inteiro em mar aberto, o que aumenta a necessidade de medidas de segurança para facilitar o retorno em caso de emergência.

“Estamos ajudando a salvaguardar os pescadores. Se der pane na bateria, eles ainda têm como carregar um telefone e conseguir entrar em contato [para pedir ajuda]”, disse Diviane Chagas, coordenadora do Pescando Sol e presidente da Colônia de Pescadores Z-1. “Hoje eles têm a segurança de que não vão ficar à deriva totalmente no escuro, para não acontecer o que vem acontecendo há anos: o pescador perde não só a embarcação, mas [também] a vida.”
Em princípio, o projeto previa melhorias em 300 embarcações nos núcleos de Gargaú, Guaxindiba e Barra do Itabapoana, localizadas dentro dos limites de São Francisco, no litoral norte do estado. Nas primeiras etapas, houve certa desconfiança e resistência por parte de alguns pescadores, o que reduziu o número de cadastros.
No entanto, depois da instalação das primeiras placas solares em junho de 2025 — e à medida que os benefícios começaram a aparecer —, a iniciativa chegaria à marca de 230 barcos beneficiados; somados aos 55 do SustentaMar, já são 285 em todo o estado. Além dos kits fotovoltaicos para as embarcações, a Colônia Z-1 conseguiu, também por meio do TAC Frade, recursos para instalar sistemas de energia solar em suas sedes em Gargaú e Guaxindiba, entre outras melhorias.
A busca por soluções sustentáveis vai além: para promover a educação ambiental, o Funbio também oferece capacitações voltadas aos próprios projetos, ensinando pescadores a obter novos recursos e discutindo a importância do cuidado ambiental.
“A escala depende da combinação entre recursos financeiros, mobilização comunitária e políticas públicas. Nesse caso, a gente tem muita chance de aumentar e ganhar escala, pois [a energia solar] é uma tecnologia que respeita o território, dialoga com o saber tradicional, sem interferir na pesca, e conta com um modelo comunitário de gestão sólida”, disse Muanis à Mongabay.

Imagem do banner: Pescador mostra o holofote solar que utiliza em seu barco de pesca, em Arraial do Cabo (RJ). Foto: Acervo/Projeto SustentaMar.