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Perto de ‘morrer’, Rio Camarajipe leva esgoto e lixo ao mar que banha Salvador

Rio Camarajipe em seu último trecho, pouco antes de chegar à foz, entre os bairros de Pituba e Costa Azul. Foto: Samory Pereira Santos from Salvador, Brazil, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

  • Décadas após abastecer a capital baiana e servir de local de banho aos moradores da cidade, o Rio Camarajipe vive uma realidade oposta e preocupante: hoje, o curso de água carrega resíduos, animais mortos e desemboca sujo no mar de Salvador.

  • Pescadores são testemunhas oculares da degradação do rio: segundo eles, além de trazer poluição, a água contaminada ameaça a vida marinha, alterando a condição física de peixes e mariscos que servem de fonte de renda às comunidades pesqueiras.

  • Especialistas destacam diferentes fatores para explicar o que leva um rio ao ‘leito de morte’: descarte irregular de esgoto, falta de soluções em infraestrutura e urbanismo, descaso do poder público e o avanço rápido da urbanização, entre outros aspectos socioambientais.

SALVADOR, Bahia — “Tudo o que você puder imaginar”, respondeu o pescador Luiz Soares, conhecido como “Sinho”, às vésperas da Festa de Iemanjá, orixá protetora das águas. À beira-mar, ele relembra as coisas incomuns que já viu na foz do Rio Camarajipe, cujo curso d’água desemboca no oceano que banha a cidade de Salvador, capital da Bahia.

A lista inclui geladeira quebrada, pneu, armário, carrinho de supermercado, mesa, pedaços de plástico, colchão, roupas íntimas, fraldas, sapatos e até cadáveres humanos. Oficialmente, o Camarajipe ainda não foi classificado como “rio morto” — quando um corpo hídrico perde a capacidade de sustentar formas de vida —, mas apresenta estágio avançado de degradação ambiental e já opera, na prática, como mero condutor de esgoto a céu aberto, afetando a saúde da comunidade pesqueira e a vida marinha.

Um dos principais destinos turísticos do Brasil no verão, em meio a suas festas populares e às altas temperaturas, a capital baiana sente os efeitos da poluição que chega ao mar pelo maior rio urbano da cidade, com cerca de 14 quilômetros de extensão. Ao todo, Salvador possui 12 bacias hidrográficas, e a do Rio Camarajipe (a terceira maior da cidade) abrange 42 bairros, com área de drenagem (onde as águas escoam naturalmente para o rio) total de 35,9 km².

Enquanto as nascentes do rio estão em regiões periféricas, predominantemente residenciais, nas imediações do bairro de Pirajá, a foz fica em uma parte abastada da capital, como a região do bairro Costa Azul.

“Hoje, é repugnante ver a situação do rio. Virou um canal de esgoto abandonado. A fedentina é muito forte, e é possível ver muitos animais em decomposição, de ratos e cachorros a cobras. De vez em quando, surgem corpos humanos boiando nas águas contaminadas, aí ligamos para a polícia”, disse o pescador, que há 40 anos acompanha as mudanças drásticas no encontro entre o rio e o mar.

Funcionários da Empresa de Limpeza Urbana de Salvador (Limpurb) retiram lixo da região da foz do Rio Camarajipe. Foto cedida à Mongabay pelos pescadores da Colônia de Pesca Z1 – Capatazia Jardim dos Namorados.

Em outros tempos, até a década de 1970, o Camarajipe serviu para o abastecimento da cidade e também era um local de banho. Sabe-se que, em alguns trechos, era possível até beber de suas águas límpidas. Sinho conta que o problema começou a se intensificar há mais de duas décadas, uma mudança na realidade que ele percebe diariamente durante suas pescarias.

Além disso, antigamente, Sinho e seus colegas da Colônia de Pesca Z1 – Capatazia Jardim dos Namorados encerravam um bom dia de trabalho na orla com seus barcos apinhados de peixes e mariscos. Isso mudou: agora, eles se assustam com a escassez de algumas espécies e com a aparência alterada dos animais. Segundo o pescador, muitos apresentam coloração incomum, estão mais magros e têm a pele endurecida, o que compromete o comércio e reduz a renda de quem depende do que o mar fornece.

“A pesca de linha, na beira da praia, tem diminuído porque os peixes são migratórios e costumavam se aproximar em busca do alimento que vinha do rio. Diversas espécies desapareceram em razão da poluição e do aquecimento do mar, como a pititinga, o chicharro, o saramunete, o siri, a pinaúna, o carapau, a sardinha-de-faca e o peixe-gato”, disse.

Ele também lamenta o sumiço das tartarugas durante a época de desova, que vai de setembro a dezembro. “Ano passado, só vi uma. Era normal ver pelo menos sete.”

Durante um mergulho, Sinho ajudou a resgatar uma tartaruga que sufocava ao ingerir um preservativo mal descartado. “Elas confundem [o lixo] com alimento. Tem um tipo de água-viva que a gente chama de ‘pepininho’, parecida com uma camisinha. E não são só as tartarugas: às vezes, quando abrimos o peixe para limpar, encontramos plástico, material que ingerem por engano.”

Em entrevista à Mongabay, o pescador também chamou a atenção para o assoreamento dos rios da orla. Ele relata que o acúmulo de areia tem bloqueado a foz do Camarajipe e impedido o escoamento natural da água — que acaba represada e, assim, se deteriora. Em períodos de seca, o mar aparenta estar menos poluído porque o fluxo diminui. Com a chegada das chuvas, no entanto, o volume acumulado rompe a barreira de areia e, de uma só vez, despeja a água contaminada e os detritos no litoral.

O problema também atinge outros rios como o Lucaia, o Rio das Pedras e o Jaguaribe, todos parte da hidrografia urbana de Salvador.

O caminho do Rio Camarajipe até o mar. Mapa: Laboratório de Biotecnologia e Ecologia de Microrganismos (Labem), da UFBA.

“Quando chove, normalmente, os trabalhadores da Limpurb [Empresa de Limpeza Urbana de Salvador] recolhem cerca de 50 sacos [de lixo] por dia na beira de cada rio, embora isso represente menos de 20% do que acaba indo para o mar. O movimento das marés empurra parte do material para a areia, e a maior parte segue para o oceano. Quem mergulha consegue enxergar a grande quantidade de lixo submersa”, lamenta o pescador.

A poluição do rio também muda a rotina de quem vive da pesca: a água escura e gordurosa suja as embarcações, exigindo limpeza constante; em alguns casos, isso inclui o lixamento da madeira do barco. O processo leva dias inteiros, gerando prejuízos diretos aos trabalhadores.

Recursos estagnados em meio à tragédia ambiental

“A população, em sua maioria, não entende que o rio é parte importante do contexto ambiental da cidade, e essa compreensão, infelizmente, só ocorrerá de forma tardia, com investimento em educação. Muitos sequer percebem que o Camarajipe é um rio; acham que ali é um canal de esgoto a céu aberto e que todo corpo hídrico urbano precisa ser canalizado”, disse Estela Sales, economista e integrante de um coletivo que defende a revitalização do Camarajipe. “Tudo aquilo que é preservado pode se transformar em riqueza.” Segundo ela, o rio tem enorme potencial turístico, caso, no futuro, seja inteiramente ‘revivido’.

Sales é coautora do projeto de Revitalização da Bacia Hidrográfica do Rio Camarajipe, aprovado pelo Ministério do Desenvolvimento Regional (MDR), em parceria com o Instituto de Ciências da Saúde e o Departamento de Ciências da Biointeração da Universidade Federal da Bahia (UFBA). A iniciativa busca mapear os fatores que contribuem para a degradação ambiental em toda a bacia a fim de definir diretrizes de recuperação. Entre as frentes previstas, estão: saneamento, produção de mudas e sementes em viveiros, replantio da mata ciliar, adoção de medidas educacionais e tecnológicas e geração de renda para as comunidades.

A execução do plano, no entanto, depende da liberação de R$ 27 milhões, montante que ainda não foi repassado à universidade. Até a publicação desta reportagem, o valor permanecia no setor de fomento do MDR e aguardava a adesão de empresas com débitos junto à União interessadas em direcionar seus recursos às medidas contempladas pelo projeto.

Especialistas, enquanto isso, traçam um panorama preocupante. Para Lafayette Dantas da Luz, engenheiro e professor do curso de Engenharia Ambiental da UFBA, a situação estrutural do Rio Camarajipe pode ser descrita como “uma tragédia ambiental urbana”. Ele defende que, além da ocupação da cidade, o principal fator responsável pela crise é o fato do rio não ser visto como uma entidade física capaz de trazer benefícios variados à comunidade ao seu redor.

Áreas verdes da bacia, ele explica, foram extirpadas, enquanto a vegetação ciliar foi desprezada. “A opção pela canalização, entendida pelos burocratas e por muitos técnicos como a única solução, acaba com a configuração geomorfológica inerente aos rios saudáveis”, disse à Mongabay.

Água escura e poluída no canal do Rio Camarajipe, no bairro Costa Azul, em Salvador. Foto cedida à Mongabay pelos pescadores da Colônia de Pesca Z1 – Capatazia Jardim dos Namorados.

Contrariando o senso comum, o professor defende que as canalizações agravam as condições ambientais devido a questões hidráulicas e estruturais. Ele cita o revestimento de menor rugosidade, além de trechos retificados e de maiores declividades, aspectos que “fogem ao funcionamento de um rio natural”. Em sua análise, essas características não exercem qualquer função de retenção ou de decomposição dos resíduos — e, pior ainda, aceleram seu transporte para o oceano.

Mesmo sem um levantamento amplo, Dantas da Luz considera que as nascentes do Camarajipe também foram degradadas. Em todo o Brasil, exemplos contrários, em que áreas verdes sensíveis se mantêm protegidas a despeito da presença do ser humano, ainda são pontuais — é o caso de alguns terreiros de religiões de matriz africana, como no Recôncavo Baiano, onde os elementos da natureza são cultuados e protegidos na mesma medida.

A realidade é outra em Salvador. Em termos de planejamento urbano, o engenheiro ressalta uma diferença entre o que é previsto e o que é posto em prática na capital. “Os grupos econômicos influentes que comandam a administração têm seus próprios planos de expansão urbana, muitas vezes ignorando as diretrizes do Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU).”

“Isso inclui a disputa de décadas pela verticalização da orla — como a investida do grupo Odebrecht na praia do Buracão —, a desafetação de áreas verdes entregues ao setor imobiliário e a expansão de empreendimentos em ilhas, que desrespeitam limites legais”, acrescenta. Segundo dados do Censo Demográfico 2022, outro impasse se soma: até então, Salvador era a segunda capital menos arborizada do país.

O professor sinaliza que o PDDU de 2016, atualmente em revisão após uma década, traz orientações para a recuperação e a proteção dos rios urbanos, como na seção sobre “Águas Urbanas” e “Drenagem e Manejo das Águas Pluviais Urbanas”. “Essas indicações deveriam ser transformadas pelos órgãos municipais em programas e projetos para sua operacionalização e implementação. Só haverá mudança se a sociedade exigir compromisso real da gestão pública”, disse.

Outros estudos recentes confirmam a gravidade da situação. Em fevereiro de 2026, o relatório “Benefícios Econômicos da Expansão do Saneamento na Bahia”, realizado pelo Instituto Trata Brasil em parceria com a Ex Ante Consultoria, analisou o setor sanitário entre 2000 e 2024. No último ano da série, estima-se que 780 milhões de litros de esgoto sem tratamento eram lançados diariamente em rios e praias da Bahia, o estado com a maior faixa litorânea do Brasil.

“Isso equivale a 52,5 litros diários por habitante, uma cifra ruim do ponto de vista ambiental”, disse o estudo.

Em nota à imprensa, Luana Pretto, presidente-executiva do Instituto Trata Brasil, disse que a ampliação do acesso ao saneamento é uma das políticas públicas com maior retorno social e econômico para a população baiana: “O turismo, importante para a economia do estado, também pode ser fortemente impulsionado, com mais de R$ 6 bilhões em ganhos projetados entre 2025 e 2040 [prazo de universalização dos serviços básicos do Marco Legal do Saneamento Básico, atualmente até 2033, com proposta de prorrogação para 2040], fortalecendo a atratividade das praias, rios e destinos naturais.”

Pilha de lixo às margens do canal do Rio Camarajipe, no Bairro Costa Azul, em Salvador. Foto: Grupo Notícias do Camarajipe.

Rio e mar contaminados

A poluição das águas do Camarajipe que chega ao oceano é elevada, segundo análise de Paulo Fernando de Almeida, professor de Microbiologia e Biotecnologia da UFBA.

Ao longo de seu curso, o rio recebe esgoto doméstico sem tratamento, especialmente em comunidades vulneráveis e sem estrutura. “Medidas paliativas, como a limpeza de praias, não atacam a causa do problema; o eixo central é o saneamento ambiental, uma vez que os rios funcionam como os principais vetores de lixo e esgoto para o litoral”, disse Almeida.

O despejo de poluentes aumenta a contaminação bacteriológica e de nutrientes na água do mar, favorecendo a proliferação de algas e de microrganismos oportunistas. “Como consequência, ocorre redução do oxigênio dissolvido, alterações na cadeia alimentar marinha e danos à biodiversidade, afetando peixes, crustáceos e organismos filtradores, como mariscos.”

O professor explica que essas condições favorecem o surgimento de doenças gastrointestinais e de infecções de pele, olhos e ouvidos. O risco aumenta entre pescadores e marisqueiras, cujo contato com a água é frequente; o mesmo vale para pessoas com sistema imunológico debilitado.

Entre as doenças de veiculação hídrica, especialistas destacam a ocorrência de cólera, diarreia, hepatite A, amebíase, esquistossomose e leptospirose.

Nesse sentido, em 2024, um relatório técnico do Inema sobre a qualidade ambiental das águas das bacias hidrográficas de Salvador e Lauro de Freitas atestou que “a maioria dos trechos monitorados apresenta condições insatisfatórias para seus múltiplos usos”.

Região da Cidade Baixa, famosa por atrair turistas em Salvador. Foto via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).

No caso específico do Rio Camarajipe, o documento cita elevada carga de poluição orgânica e contaminação fecal, destacando que “altas concentrações de coliformes termotolerantes indicam contaminação fecal no corpo hídrico, provavelmente gerada por despejos de esgotos domésticos, o que pode provocar risco à saúde pública e aos usos múltiplos dessas águas”.

A avaliação, feita com base no Índice de Qualidade da Água (IQA), reforça esse alerta ao registrar trechos da bacia sob a classificação “ruim” ou “péssima”. Apesar disso, Almeida tenta ser otimista: “As nascentes estão vivas e a capacidade de revitalização existe; é preciso parar de jogar lixo e esgoto no rio. O que torna a recuperação possível ao longo dos anos são investimentos consistentes em saneamento, monitoramento contínuo e interrupção das fontes de contaminação.”

Para dar exemplos de cursos d’água recuperados, Paulo cita o caso do Rio Sena, em Paris: após enfrentar poluição severa por décadas, o rio passou por uma transformação, que contou com um investimento de 1,4 bilhão de euros em saneamento e infraestrutura hídrica. O plano, intensificado pelas autoridades francesas na antessala dos Jogos Olímpicos de 2024, pôde melhorar a qualidade da água.

O professor Dantas da Luz aponta o mesmo caminho, destacando a necessidade de identificar e eliminar as fontes de poluição — incluindo as que estão distantes do leito principal. Ele defende a ampliação de áreas permeáveis, a preservação de zonas de infiltração e a adoção de estruturas capazes de reter e desacelerar as águas da chuva.

Essas medidas, em sua análise, reduzem as enchentes e melhoram a qualidade hídrica. O mesmo vale para a manutenção de margens livres e arborizadas, com a recomposição da mata ciliar e a renaturalização de rios canalizados, como se vê em várias partes do mundo.

A poluição fluvial e seus efeitos nos oceanos

Para Francisco Barros, doutor em Ecologia Marinha pela Universidade de Sydney (Austrália) e professor do curso de Oceanografia da UFBA, o ritmo da urbanização e do desenvolvimento antropogênico transformou a paisagem de Salvador. Com o tempo, muitos rios urbanos foram completamente encobertos; a população se afastou da memória, esquecendo-se de que, nos fundos do vale, vivem cursos d’água de diferentes tamanhos.

“A falta de planejamento na expansão, na qual o turismo é muito importante, acabou afetando uma das maiores atrações da cidade: as praias. Hoje, uma parte substancial delas é imprópria para banho, como a localidade onde desemboca o Rio Camarajipe, popularmente conhecida como ‘Praia do Cocô’”, disse.

Do ponto de vista ecológico, a ausência de recuperação desses ambientes de transição entre o rio e o mar pode gerar efeitos em cadeia. “Alguns contaminantes orgânicos podem alterar os sistemas reprodutivos e causar outros efeitos fisiológicos em organismos marinhos.”

Barros explica que a carga orgânica de esgotos domésticos “pode mudar a composição das espécies que habitam praias e recifes costeiros”, reduzindo a diversidade local. Um efeito já comprovado, ele reforça, é o aumento de algas de crescimento rápido: “algumas algas verdes” que aproveitam a carga extra de nutrientes e acabam dominando os substratos “em detrimento de corais”. A perda dos corais compromete a vida dos peixes associados aos recifes e, ato contínuo, impacta a pesca artesanal e as comunidades atreladas a esses ecossistemas.

O que acontece no Camarajipe, todavia, não é um fenômeno isolado.

Em todo o mundo, cursos de água urbanos servem como vias de transporte de plástico da terra para o oceano. Segundo o Programa da ONU para o Meio Ambiente, mais de mil rios são responsáveis por cerca de 80% das emissões anuais globais de plástico — e pequenos cursos urbanos, como o Camarajipe, estão entre os maiores contribuintes. Em 2021, o rio que deságua no mar da capital baiana foi mapeado pela organização internacional The Ocean Cleanup como um dos mil rios que mais contribuem para a poluição plástica marinha.

Em contato com a Mongabay, a Empresa Baiana de Águas e Saneamento (Embasa) disse ser a responsável por dois serviços de saneamento básico: o abastecimento de água tratada e o esgotamento sanitário. A empresa disse que as sub-bacias do Rio Camarajipe têm cobertura de esgotamento de 90,47%, atendendo cerca de 970 mil habitantes.

“Os imóveis que não estão ligados à rede estão identificados, mas dependem de obras de urbanização para possibilitar a implantação da infraestrutura de redes de esgotamento. A ocupação desordenada da cidade, com imóveis construídos às margens de córregos e drenagens, bem como sobre essas drenagens, impede a construção de redes, coletores, troncos e interceptores”, disse a companhia.

Trecho do Rio Camarajipe no bairro do Bom Juá, em Salvador. Foto: Laboratório de Biotecnologia e Ecologia de Microrganismos (Labem), da UFBA.

Segundo a Embasa, no caso da bacia do Camarajipe, todo o curso do rio, além de outras captações a montante, é direcionado ao sistema de esgotamento em períodos de estiagem, garantindo a balneabilidade das praias quando não chove.

“A Embasa, no âmbito de suas atribuições no serviço de esgotamento sanitário, mantém no Rio Camarajipe uma estação de Captação de Tempo Seco (CTS), instalada devido à poluição existente no rio, causada principalmente pelo lançamento de lixo e esgoto clandestino nas áreas a montante [rio acima]. Essa estrutura retém o fluxo do rio em períodos sem chuva, removendo o lixo acumulado, e direciona a água poluída para a rede coletora de esgoto operada pela Embasa. Isso garante que o efluente receba tratamento adequado antes da disposição final pelo emissário submarino do bairro do Rio Vermelho”, disseram.

A empresa assegurou, ainda, que em períodos de chuva intensa, o aumento do volume de água impede a contenção total do fluxo, fazendo com que o rio retorne ao seu leito e siga até a foz, em Costa Azul.

O professor Dantas da Luz disse, no entanto, que as CTS são “soluções paliativas”.

Elas interceptam o fluxo dos rios apenas em períodos sem chuva, quando o volume é menor e a concentração de esgoto é mais elevada. “Essas CTS não barram o fluxo de esgoto, que, infelizmente, permanece nos rios em momentos de chuva, quando o escoamento aumenta. Nessas ocasiões, o volume é tal que a capacidade de bombeamento das CTS não é suficiente para interceptar e desviar essas vazões, resultando no despejo de águas contaminadas no oceano e no atingimento de praias vizinhas.”

Por fim, ele explica que, concebidas originalmente como solução provisória, as CTS teriam se tornado permanentes diante da “ineficiência das redes de coleta em determinadas áreas”.

Consultadas, a Prefeitura Municipal de Salvador, a Secretaria do Meio Ambiente (Sema), a Secretaria de Desenvolvimento Urbano (Sedur), a Secretaria Municipal de Sustentabilidade e Resiliência (Secis) e o Inema não haviam se pronunciado até a publicação desta reportagem.

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Imagem do banner: Rio Camarajipe em seu último trecho, pouco antes de chegar à foz, entre os bairros de Pituba e Costa Azul. Foto: Samory Pereira Santos from Salvador, Brazil, CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Edição: Lucas Berti

Nota: Na versão anteriormente publicada deste texto, havíamos informado que apenas uma das praias de Salvador estava própria para banho. A informação se referia ao dia 6/2/2026, ou seja, uma condição temporária. A frase foi retirada da matéria. Também trocamos a imagem do banner, que mostrava o Rio das Pedras, não o Rio Camarajipe.

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