Agentes ambientais detectaram o circovírus em aves apreendidas em uma feira de Fortaleza, sinalizando um novo e perigoso foco de contaminação da doença que ameaça a fauna brasileira.
O surto foi descoberto no centro de triagem do Ibama para onde as aves foram levadas, colocando sob risco de contaminação animais que eram preparados para voltar à natureza.
Em outubro de 2025, o vírus já havia sido detectado em ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) introduzidas na Bahia.
Especialistas alertam para a necessidade de checagem e quarentena rigorosas nos centros de triagem do Ibama, mas alguns destes locais sequer contam com veterinários.
Em outubro de 2025, agentes do Ibama chegaram de surpresa à Feira de Parangaba, que acontece todo domingo em Fortaleza. Também conhecida como Feira dos Pássaros, este é um tradicional ponto de venda ilegal de passarinhos, papagaios e araras. Na ação daquele domingo, 271 aves foram apreendidas e levadas até o Centro de Triagem de Animais Silvestres (Cetas) do Ibama da capital cearense, onde os animais são recuperados para uma possível reintrodução à natureza.
Com o passar dos dias, no entanto, alguns dos indivíduos do gênero Agapornis começaram a morrer, acionando um alerta vermelho na equipe do Cetas. Visados pelo comércio de animais de estimação, os pequenos papagaios multicoloridos de origem africana carregavam o temível circovírus, nativo da Austrália. “As aves [apreendidas] foram chegando e os testes sendo feitos, e aí começaram a dar positivo”, conta Fernanda Gaia, analista ambiental no Cetas de Fortaleza.
Causador da doença do bico e das penas nos chamados psitacídeos — grupo que inclui araras, papagaios e periquitos —, o vírus pode causar má-formação e descoloração de penas, além de deformações no bico. Como não tem tratamento e é de rápida disseminação, a doença é uma sentença de morte para as aves, que precisam ser eutanasiadas para evitar novas vítimas. No Cetas de Fortaleza, a confirmação do diagnóstico colocou sob risco todas as outras centenas de aves abrigadas no local.

Segundo o Ibama, as medidas de isolamento das aves doentes foram tomadas, mas em janeiro deste ano um novo alarme soou. Dois papagaios-verdadeiros (Amazona aestiva) foram diagnosticados com poliomavírus, outro vírus de fora do Brasil que atua de forma muito semelhante ao circovírus. Para evitar novas contaminações, o Ibama decidiu fechar o centro para o recebimento de novas aves pelo período de 90 dias.
“Com a detecção de mais espécies, tanto com circovírus tanto com poliomavírus, e sabendo que nesta época do ano é muito comum a chegada de filhotes, a gente fez essa interrupção como uma medida de proteção”, explicou Gaia. No total, cerca de oitenta aves tiveram de ser eutanasiadas devido à contaminação por circovírus ou poliomavírus.
Especialistas brasileiros estão em alerta para o risco de disseminação do circovírus desde de outubro de 2025, quando veio à tona o caso das ararinhas-azuis (Cyanopsitta spixii) que tiveram a contaminação confirmada após serem introduzidas na natureza em Curaçá, na Bahia. As aves eram oriundas de um projeto de reintrodução da espécie gerido pela ONG alemã ACTP em parceria com a empresa brasileira BlueSky.
Até então, o Brasil só tinha registrado casos de circovírus em aves que passaram por centros de recuperação, criadouros ou zoológicos. Com a confirmação do primeiro caso de contaminação em aves de vida livre, o receio é que o vírus se espalhe para outras regiões do país. “Eu nem gosto de pensar nesse cenário”, disse à Mongabay a médica-veterinária Alice Soares de Oliveira, do Centro de Manejo e Conservação de Animais Silvestres (CeMaCAS) da Divisão da Fauna Silvestre da Prefeitura de São Paulo. “Seria uma tragédia.”

A detecção do vírus na feira de Fortaleza aponta para um novo foco de contaminação com alto potencial de dano, já que feiras livres deste tipo acontecem em todo o país e não há agentes ambientais o suficiente para dar conta da fiscalização. A própria Feira de Parangaba já havia sido alvo de uma operação em 2022, o que não impediu a continuidade do comércio ilegal de aves.
Em nota enviada à Mongabay, o Ibama afirma que as feiras são “alvo de monitoramento permanente pelos órgãos ambientais”, e que a comercialização de animais nestes espaços “aumenta significativamente o risco de disseminação de patógenos” (leia a íntegra da resposta aqui).
“O grande problema destas feiras é a mistura dos animais silvestres com os animais domésticos [exóticos], tipo o ring neck [Psittacula krameri] e bichos que vieram de fora do Brasil”, disse à Mongabay o biólogo Yuri Marinho Valença, que atua no projeto Papagaio da Caatinga, de reabilitação e soltura de papagaios-verdadeiros em Pernambuco. “E eles carregam os vírus de sua região.”
As péssimas condições de transporte e acondicionamento das aves, com dezenas de animais apinhados em caixas diminutas, também favorecem a disseminação do vírus, que é transmitido pelo pó das penas e pelas fezes dos animais. “Eles [os traficantes] querem otimizar espaço, para vender mais. Então eles pegam embalagens pequenas, lotam o máximo que conseguem, colocam [as aves] dentro de mochila, de caixa”, conta Gaia.
O estresse a que estes animais são submetidos é outro fator decisivo para a disseminação da doença, já que reduz a imunidade das aves. Segundo Oliveira, aves saudáveis que são traficadas ficam mais suscetíveis a ficarem doentes, e aquelas que já portam o vírus têm mais chances de transmiti-lo quando submetidas às crueldades do tráfico. “Aquele vírus, que está às vezes latente, retoma [a atividade] e o animal pode começar a desenvolver os sinais ou eliminar o vírus no ambiente.”
O Ibama afirmou “que mantém monitoramento contínuo de registros e suspeitas de circovírus e poliomavírus em outras regiões do país”, sem detalhar se há ou não outros casos confirmados. Segundo o instituto, medidas como quarentena obrigatória no ingresso de animais, realização de exames e restrição de solturas em situações de risco estão sendo adotadas nos centros de triagem.
Cetas no olho do furacão
Os Cetas são o principal destino das aves resgatadas do tráfico de animais, daí a importância de um protocolo rígido de testagem e quarentena para todas os indivíduos que chegam nestes centros. “Os Cetas são um termômetro do que está rolando [no país] na parte de zoonoses”, explica Valença. “Casos de raiva, gripe aviária, tudo vai chegar primeiro nos Cetas, então estes centros têm que ter um cuidado e uma estrutura muito boas.”
Fazer o isolamento e a testagem, no entanto, não são tarefas simples. No caso do Cetas de Fortaleza, por exemplo, a equipe de Fernanda Gaia teve que lidar com a chegada de 271 aves em péssimas condições de saúde e sob forte estresse. “[Uma situação como essa] demanda logística, recurso, tempo, por isso as providências não são no estalar dos dedos”, ela explica. “Enquanto os testes eram feitos, os animais precisavam ser isolados.”
Alice Soares de Oliveira lembra que alguns dos Cetas espalhados pelo país sequer possuem um médico-veterinário. Além disso, os testes dependem de laboratórios parceiros e demoram em média 20 dias para ficarem prontos. Muitas vezes, é preciso repetir os exames, já que os falsos negativos são comuns. “O Cetas tem que ser muito criterioso, tem que ter uma estrutura de quarentena eficaz, com um veterinário que observe os animais no momento em que são recebidos, checando a condição daquele animal e acompanhando sua evolução”, afirma Oliveira.

Sem as devidas medidas de controle, casos como o do Cetas de Fortaleza podem colocar a perder anos de trabalho na reabilitação de aves que tinham tudo para voltar à natureza. “Um animal que está bem, que você já reabilitou, ele está pronto, mas se você não tem uma separação destes indivíduos você está comprometendo todo o plantel”, afirma Oliveira. “[A reabilitação] já é um processo lento, com um surto desses fica tudo mais lento”, lamenta Gaia.
Segundo os especialistas, agentes infecciosos como o circovírus e o poliomavírus entram no Brasil tanto pelo tráfico ilegal como pela importação legal de aves exóticas, que é permitida em alguns casos com autorização dos órgãos ambientais.
As medidas de controle sanitário, no entanto, estão longe do ideal. Enquanto o Ministério da Agricultura e Pecuária tem uma rede de laboratórios oficiais para garantir que o agronegócio brasileiro fique livre de doenças como gripe aviária e febre aftosa, o mesmo cuidado não se aplica à proteção das aves silvestres.
“Em termos de federação, teríamos que pensar em uma lista de doenças que seriam obrigatórias de serem testadas tanto nos animais importados como nos que chegam nos centros de triagem”, afirma Oliveira.
Surto de circovírus expõe controvérsias em projeto de reintrodução de ararinhas-azuis
Imagem do banner: Aves aglomeradas e sob forte estresse tornam feiras livres como a Feira de Parangaba, em Fortaleza, locais ideais para a proliferação de doenças. Foto: Daiana Cortes/Ibama.