O caminho de fé que levou Edson Abreu dos Santos ao estudo religioso é o mesmo que um dia o fez voltar ao município de Acará, no Pará, para uma missão complexa: atuar na linha de frente contra os incêndios que ameaçam a região.
Atual coordenador da Defesa Civil na cidade, o ex-seminarista também luta contra a falta de estrutura, criando estratégias improvisadas (como grupos de WhatsApp e bases de apoio provisórias) para mobilizar voluntários e combater as queimadas recorrentes.
Em várias regiões da Amazônia, incêndios florestais têm se tornado mais frequentes em função de condições climáticas propícias para o início e a proliferação das chamas, deixando para trás um bioma cada vez mais inflamável e comunidades afetadas.
ACARÁ, Pará — Em agosto de 2024, uma queimada se alastrou pelo município paraense de Acará, localizado na porção oeste da Amazônia. Edson Abreu dos Santos, de 48 anos, atual coordenador municipal da Defesa Civil, já sabia: seria preciso agir rápido, já que sua cidade não contava com corpo de bombeiros, caminhões-pipa nem helicópteros para combater os incêndios. Ao mesmo tempo, como as chamas margeavam o Rio Itapecuru, em locais só acessados por barcos, tampouco adiantaria acionar o apoio de veículos terrestres.
De forma improvisada, Edson montou um centro de operações em uma casa ribeirinha. Da sacada, por mensagem, pediu ajuda a dezenas de moradores da comunidade; mais de cem de seus vizinhos responderam ao chamado e, pouco a pouco, aportaram no local em suas rabetas — como a linguagem popular chama os barcos motorizados de madeira utilizados para se locomover pelos sinuosos rios amazônicos.
O coordenador, então, pediu que os voluntários enchessem galões de 20 litros (ou carotes, como são chamados por lá), com água do rio. Em fila única, os voluntários carregaram os recipientes nos ombros por quase 1 quilômetro, adentrando a mata. E assim, jogavam o que conseguiam para combater as chamas, um pouco por vez. Muitos percorriam o caminho de chinelos, enquanto os homens tiravam a camisa diante do calor insuportável.
O trabalho árduo conteve o fogo até a chegada de 30 bombeiros acionados em Macarena, uma cidade vizinha a cerca de 100 quilômetros. A equipe chegou com bombas costais, uma motobomba e uma única mangueira. Com um pequeno remendo, eles conectaram o equipamento a uma linha de irrigação para bombear água de um reservatório que estava mais próximo das chamas.

O esquema improvisado reduziu o tempo de trajeto dos voluntários, mas não eliminou o trabalho braçal: por um longo tempo, todos seguiram transportando água e enfrentando a queimada com as próprias mãos. E assim, em meio ao calor, foram em frente por três dias e três noites, intensamente, em busca de controlar as chamas. O fogo pouco quis saber: ardeu por quase duas semanas até se extinguir por completo.
Pelo caminho, deixou um rastro de mais de 60 hectares queimados.
Edson ainda lembra daqueles dias — os mais desafiadores que já enfrentou até hoje. “A gente tentava combater um grande incêndio com pouquíssima infraestrutura, em uma área extremamente difícil de se acessar”, disse.
Havia, também, algo estranho naquele episódio. “Era uma área inundada, de várzea, mas a floresta estava tão seca que era como se jogassem gasolina numa faísca. As raízes queimavam no subsolo e, quando achávamos que o fogo finalmente tinha apagado, mais chamas surgiam adiante.”
Ele ainda não sabia, mas aquele momento seria apenas o primeiro de uma série de desafios semelhantes que apareceriam em seu caminho ao longo do ano.

Um chamado ante a crise
O município de Acará fica a 116 quilômetros de Belém, sede da última Cúpula do Clima, a COP30, realizada no final de 2025. Predominantemente rural, é quase quatro vezes maior que a capital paraense em tamanho de território — embora concentre uma população vinte vezes menor.
Com exceção de um pequeno centro urbano na beira do Rio Acará, a maior parte de seus moradores vive em vilas acessadas apenas por estradas de terra ou igarapés.
A região está localizada em um trecho cada vez mais fragmentado da Amazônia brasileira, onde florestas, áreas agrícolas e comunidades tradicionais se entrelaçam. Ao norte, a periferia de Belém avança sobre o município, trazendo consigo os traços da cidade grande. Ao sul, o Arco do Desmatamento também pressiona o território, com a expansão da soja, da pecuária e da grilagem — todos responsáveis por aumentar a perda florestal.
Há várias gerações, as famílias de Acará vivem da terra, cultivando mandioca, pimenta-do-reino e cacau, além da colheita de castanhas. Desde que se tornou uma febre global, o açaí foi convertido em um pilar econômico para a região, respondendo por cerca de 40% da produção agrícola; atualmente, o Pará é o maior exportador de açaí do mundo, com grandes quantidades enviadas para os Estados Unidos e para a Europa.

Nascido e criado no município, Edson cresceu em uma casa com 11 crianças. Ali, a educação e a fé exerciam um papel central — não por acaso, quase todos os seus irmãos se formaram professores. Ele, por sua vez, passou dez anos em Belém, onde se graduou em Ciências Contábeis e Administração. Nessa época, também passou dois anos estudando para ser padre.
Sua vocação religiosa o levou de volta a Acará e ao serviço público, onde se tornou diretor municipal de políticas públicas. “Sou muito grato a Deus pela oportunidade de ajudar as pessoas. Essa é a missão da minha vida. É isso que eu quero fazer todos os dias”, disse à Mongabay.
Em 2022, o ex-seminarista foi convidado a chefiar a Coordenadoria Municipal de Proteção e Defesa Civil (Compdec), órgão responsável por organizar as respostas públicas emergenciais aos desastres naturais, como enchentes e incêndios.
No entanto, quando assumiu o cargo, a pasta sob sua gestão se resumia a uma mesa na prefeitura e a um documento em PDF que descrevia sua missão.
Edson era, além disso, o único funcionário. “A minha primeira tarefa foi entender qual era, de fato, o trabalho a ser feito. Pouco a pouco, fui estruturando o fluxo de trabalho. Pedi um computador, uma impressora e, mais tarde, um carro pequeno e um espaço para trabalhar.”
Já em 2023, à medida que eventos climáticos severos começaram a atingir a região, a infraestrutura limitada que tinha à mão foi rapidamente colocada à prova.

Em janeiro daquele ano, chuvas torrenciais provocaram uma enchente devastadora. O município decretou estado de emergência e dezenas de famílias perderam suas casas e seus pertences. O episódio levou o governo federal a classificar a cidade como área de alto risco de enxurradas e inundações, devido à proximidade do local aos cursos d’água.
Poucos meses depois, o cenário se inverteu. No lugar da temporada de chuvas, o município viu a chegada de uma seca extrema que abalou todo o estado — na época, o período de estiagem foi considerado o pior da história da região.
Já em janeiro de 2024, somando um evento brusco à lista, um temporal com rajadas de vento de até 100 km/h surpreendeu os moradores. “Foi como se uma parede sólida de vento empurrasse tudo o que havia pela frente”, recorda Edson. “Felizmente, não houve vítimas, mas o vento derrubou cerca de 1,2 hectares de enormes castanheiras. Você precisava ver como ficou depois. Foi inacreditável.”
Mas foi com a chegada do verão amazônico que a cidade enfrentou o maior desafio até então.
A combinação foi explosiva, juntando baixos níveis de precipitação (que atingiram um patamar recorde) e temperaturas elevadas. Segundo o MapBiomas, diante de condições climáticas sem precedentes, mais de 98% dos municípios brasileiros da Amazônia sofreram com algum grau de seca em 2024. Ao mesmo tempo, quase dois terços das bacias hidrográficas sofreram perdas de água superficial.
“Deu para perceber que algo estava diferente quando o calor ficou insuportável, até mesmo para a Amazônia”, disse Edson. “A vegetação ficou marrom, as árvores começaram a morrer, os pequenos igarapés secaram e até os poços das pessoas ficaram sem água. Simplesmente não tinha água para beber.”
A seca e o calor desencadearam incêndios florestais em larga escala. Até o final daquele ano, o bioma viu quase 18 milhões de hectares queimarem. A maior parte do fogo ocorreu em áreas florestais, provocando perdas de biodiversidade e ameaçando comunidades locais.
O Pará foi o estado mais impactado da região, perdendo, sozinho, 7,3 milhões de hectares. Acará esteve entre os municípios paraenses mais afetados, sendo frequentemente listada entre os com maior número de focos de incêndio em rankings mensais da Secretaria de Estado de Meio Ambiente, Clima e Sustentabilidade do Pará (Semas).

Risco crescentes
Mesmo em um verão normal, pequenos focos de incêndio são velhos conhecidos em Acará, onde é comum ver colunas de fumaça na estrada e à margem dos rios. Os acaraenses mantêm um antigo hábito: usam o fogo para remover a vegetação dos lotes destinados à agricultura familiar. Na área ‘limpa’, plantam alimentos, como a mandioca, geralmente para consumo próprio.
Após a colheita, costumam espalhar sementes de açaí, que pode levar até cinco anos para florescer por completo. Esse ciclo se repete a cada temporada, com a abertura de novas áreas de cultivo, seja reutilizando roças antigas ou convertendo novas áreas de floresta.
O resultado desse processo também traz riscos: em anos excepcionalmente quentes e secos, essa série de queimadas controladas pode se espalhar para florestas vizinhas, gerando uma crise em cadeia.
Em 2024, por exemplo, cientistas descobriram que a maior parte das queimadas daquele ano começou por ação humana — e não apenas para a criação de áreas agrícolas. Segundo análises, o fogo também virou um recurso para a grilagem de terras e outras práticas criminosas.
“É fácil criticar o uso tradicional do fogo, mas ele não é apenas cultural — é uma necessidade para as comunidades locais. Essas lavouras garantem a sobrevivência deles. Se não queimarem, não terão o que comer e não ganharão dinheiro suficiente para comprar alimentos”, disse Sônia Elídia Reis Mota, secretária municipal de Meio Ambiente de Acará.

É verdade que a legislação brasileira permite que populações tradicionais utilizem o fogo para a agricultura de subsistência. A prática, porém, está sujeita a determinadas regras.
Convertida em lei em 2024, a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo define essa orientação de forma clara, restringindo as queimadas a áreas agrícolas e proibindo a supressão da vegetação nativa. Elas também devem ser evitadas em períodos de altas temperaturas, ventos fortes e baixa umidade. Além disso, as comunidades são obrigadas a implementar barreiras de contenção e outras medidas mitigatórias para impedir a propagação das chamas.
Enquanto isso, pequenos produtores rurais precisam obter autorização de secretarias estaduais de meio ambiente para realizar queimadas controladas. Mas há um problema: o sistema raramente é utilizado. Entre 2020 e 2024, o Pará concedeu apenas 13 autorizações desse tipo, segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).
Em períodos de seca e calor extremos, governos estaduais costumam impor ainda mais restrições, o que inclui decretos que proíbem o uso do fogo sob qualquer circunstância.
Apesar das limitações legais, um estudo realizado em 2022 revelou que o município de Acará registrou, em média, quase 700 focos de incêndio anuais entre 2009 e 2018. Os cientistas analisaram imagens de satélite e descobriram que a maior parte das queimadas ocorreu entre julho e novembro — os meses mais secos do ano, quando a vegetação está mais inflamável.
Mota admite que, apesar das leis existirem no papel, a fiscalização é limitada na prática. Em 2024, quando grandes incêndios se espalharam pelo município, sua equipe aplicou apenas quatro multas — de cerca de R$ 1 mil por hectare —, a maioria relacionada a queimadas de grande porte, intencionais e criminosas. Em 2025, apenas duas multas foram aplicadas.

“Quando cheguei aqui, toda vez que via um foco de incêndio, eu queria aplicar uma multa”, disse a secretária, que iniciou sua gestão em 2021. “Se eu visse um pouco de fumaça, já queria ir até lá e mandar parar. Mas logo percebi que isso não é realista, considerando que são pequenos produtores lutando para sobreviver.”
Até mesmo os grandes produtores multados não costumam pagar as penalidades em dinheiro, optando por negociar compensações alternativas — enviando equipamentos, mudas de planta ou prestando outros serviços ao município. O problema vai muito além de Acará. Uma investigação de 2019 do The Intercept Brasil revelou que apenas 3% das multas ambientais federais foram efetivamente pagas.
Há um outro desafio, ainda mais profundo: o fato das queimadas ocorrerem em terras sujeitas a sistemas de posse caóticos. Em grande parte da Amazônia, existe uma confusão generalizada sobre quem de fato é o proprietário dos terrenos — por tabela, muitas vezes também não se sabe quem iniciou os focos de incêndio. E como as autoridades muitas vezes não têm acesso a informações básicas, geram-se impasses para atribuir a responsabilidade.
“Há uma grande falta de documentação dessas propriedades. Temos um problema fundiário. Não há títulos de terras, não há recibos, não há comprovação de propriedade”, diz Jonathan Troy, diretor de Meio Ambiente de Acará. Dentro do Cadastro Ambiental Rural (CAR), que deveria incluir todas as propriedades rurais do país, Acará conta com apenas 50 registros aprovados. Como a Mongabay contou nesta reportagem, milhares de propriedades com CAR também estão sobrepostas a terras indígenas no Brasil.
Problemas de estrutura também dificultam a fiscalização. A secretaria ambiental de Acará conta oficialmente com apenas dois fiscais de incêndio e um único veículo para o trabalho de campo. Essas limitações, segundo eles, dificultam a investigação de queimadas, de focos suspeitos e a identificação dos responsáveis sujeitos à aplicação de multa.
Improvisos na linha de frente contra o fogo
Após o incêndio que varreu as margens do Rio Itapecuru, uma série de queimadas parecidas se espalhou por Acará. Edson passou a atravessar o município de ponta a ponta, atendendo aos incidentes à medida que surgiam. “Eu lidava com seis ou sete ocorrências por dia. Muitas vezes eu acampava na floresta e, durante meses, só passava em casa para pegar roupas.”
Diante da falta de alternativas, ele redefiniu sua própria estratégia de combate a incêndios menores, reunindo centenas de pessoas da comunidade em mais de 30 grupos de mensagem.
Assim, pelo celular, os participantes poderiam apontar ocorrências que estavam saindo do controle e que mereciam a atenção das autoridades.
Chegando ao local, Edson procurava a casa mais próxima — de preferência, uma com acesso à internet — para montar um centro temporário de operações. Em seguida, usava os mesmos grupos de conversa para recrutar voluntários. No banco de trás de seu carro, também não podia faltar um estoque de comida e água, que deveria ser suficiente para manter as equipes no combate ao fogo por dias — ou, às vezes, por semanas.
“Havia tantos incêndios que, às vezes, eu precisava estar em dois lugares ao mesmo tempo. Nesses dias, eu fazia chamadas de vídeo com os voluntários de outras comunidades para dar orientações sobre como enfrentar as chamas”, disse.
O coordenador ainda criou um outro grupo de mensagens, incluindo apenas lideranças da prefeitura, batizando-o de “comitê de crise”. Ali, pedia apoio quando o fogo chegava a proporções mais perigosas. Em seguida, caso necessário, solicitava o serviço de bombeiros de municípios vizinhos — ainda que eles também estivessem sobrecarregados, já que a temporada de incêndios era uma realidade em toda a Amazônia.
Foi só em outubro que Acará passou a contar com uma brigada temporária com 30 bombeiros, convocados em resposta a um número alto de ocorrências. Dados atualizados mostram que muitos municípios rurais na região enfrentaram desafios parecidos.

“A resposta na linha de frente a esses incêndios de grandes proporções acabou ficando, em última instância, sob a responsabilidade dos municípios. Ao mesmo tempo, é justamente o nível municipal que enfrenta uma escassez de recursos humanos e materiais”, disse Jarlene Gomes, pesquisadora do Ipam e coautora do relatório Gestão do Fogo na Amazônia.
O estudo, lançado durante a COP30, revelou que, até aquela data, apenas 130 dos 808 municípios da Amazônia Legal contavam com unidades militares do Corpo de Bombeiros em atividade. Essas brigadas, gerenciadas pelos governos estaduais, são as responsáveis pela proteção das cidades. Outros batalhões federais, como o Prevfogo e ICMBio, estão à frente das ocorrências em territórios indígenas e áreas de preservação.
O número total de bombeiros também é insuficiente para uma crise de larga escala, como a de 2024. O Pará, segundo maior estado do Brasil em território e o mais atingido pelas queimadas, tem um efetivo estadual de bombeiros de aproximadamente 2,2 mil profissionais. Enquanto isso, o estado de São Paulo — mais populoso, mas muito menor em extensão territorial — tem um contingente quatro vezes maior.
Para suprir essa demanda, muitos municípios passaram a recrutar voluntários — em territórios ancestrais, há também a presença de brigadas lideradas por indígenas, inclusive mulheres. O relatório estima que, em 2025, 52 municípios da região contavam com brigadas voluntárias em diferentes estágios de desenvolvimento. “Muitas não têm equipamentos, EPIs adequados e nem qualquer tipo de treinamento. Algumas conseguiram obter equipamentos, e outras estão equipadas, treinadas e contam com algum grau de institucionalização”, disse Gomes.
Os governos federal e estadual, enquanto isso, adotam medidas para tentar melhorar a resposta aos incêndios florestais na região.
Em nota, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) disse que, desde 2023, o governo federal disponibilizou R$ 405 milhões para apoiar o Corpo de Bombeiros dos nove estados da Amazônia. O Pará já recebeu metade dos R$ 44,9 milhões previstos para apoiar a compra e a modernização de veículos, programas de treinamento e equipamentos de proteção.
A pasta destinou, ainda, R$ 19 milhões adicionais para reforçar medidas de prevenção e agilizar a resposta das autoridades às queimadas nos municípios mais afetados, como parte do programa União com os Municípios.
De forma paralela, o governo do Pará lançou o programa Pará Sem Fogo, uma iniciativa para organizar o enfrentamento em nível estadual. O projeto prevê a criação de uma sala permanente para monitorar focos de incêndio, o zoneamento das áreas mais vulneráveis e a formação de novas brigadas florestais.
Gomes acredita que essas medidas representam um avanço, mas diz que é preciso ir além — já que o clima está cada vez mais imprevisível. “Precisamos oferecer orientação, planejamento e estrutura em nível municipal. Se houver outro El Niño com força extrema, o risco de desastre será ainda maior, agora que as florestas estão mais frágeis devido aos incêndios anteriores.” Ele se refere ao evento ocorrido em 2023-2024, que intensificou as secas naqueles anos.

De olho no futuro
Quando as queimadas finalmente deram uma trégua no final de 2024, Edson disse que se sentia exausto. Ainda assim, estava determinado a se preparar melhor para o próximo ciclo de seca e incêndios extremos — uma crise que julgava ser inevitável.
Em dezembro de 2024, ele recebeu autorização do município para contratar oito funcionários para sua equipe; a maioria trabalhava meio período. Em agosto do ano seguinte, passou a contar com uma caminhonete, o que facilitou o deslocamento pelo extenso território de Acará. Há poucos meses, também recebeu quatro novas bombas costais, elevando a seis o total de equipamentos individuais disponíveis.
O avanço que mais o deixou contente, no entanto, foi a certificação da primeira brigada voluntária de Acará, em dezembro de 2025. “Os 30 integrantes não são remunerados”, disse. “Mas se enfrentarmos uma temporada severa de incêndios, podemos contratá-los de forma temporária. O mais importante é que já estão treinados.”
Ele também revelou que a prefeitura planeja estabelecer uma brigada profissional para o município no futuro. Com o clima mais ameno em 2025, o ex-seminarista também teve tempo para se dedicar a atividades de prevenção, organizando palestras nas comunidades para instruir os moradores sobre a redução de riscos durante o uso do fogo.

Durante as apresentações comunitárias, a equipe de Edson reforçou a importância de criar faixas de contenção ao redor das lavouras e de manter a vigilância constante durante as queimadas. Em um cenário ideal, ele gostaria que roçadeiras substituíssem o fogo para limpar a vegetação ao redor dos lotes e que bombas costais fossem usadas para conter as chamas.
No entanto, reconhece que muitos não têm acesso a esse tipo de equipamento.
Outra ideia que vem ganhando força na região é o uso de tratores, o que eliminaria a necessidade de queimadas controladas. No entanto, segundo autoridades ambientais de Acará, atualmente existem apenas dez tratores em todo o município.
Durante a COP30, quando o presidente Lula visitou o quilombo Boa Vista, no município de Oriximiná, também no Pará, membros da comunidade fizeram um pedido formal por mais equipamentos agrícolas. A comunidade, formada por 211 famílias, sentiu como poucos o impacto dos incêndios de 2024, chegando a perder uma reserva ecológica.
O líder quilombola José Maria Alves Monteiro, que dedicou 38 de seus 71 anos ao trabalho rural, entregou pessoalmente ao mandatário uma carta que incluía essa solicitação.
“Pedimos ao presidente que disponibilizasse maquinário para as famílias que estão preparando a roça. Em vez de abrir dez áreas com fogo, elas poderiam usar máquinas para preparar uma única área de forma mais eficiente, reduzindo o desmatamento e aumentando a produção”, disse à Mongabay.
Ao mesmo tempo, José Maria gostaria de ver um esforço maior do poder público para o reflorestamento com foco na agrofloresta. “As famílias poderiam plantar açaí, cacau e andiroba no mesmo lote. Um sistema assim poderia gerar renda e, eventualmente, até eliminar a necessidade das roças, o que beneficiaria a natureza.”

Um caminho que deixou marcas
Enquanto a COP30 acontecia em Belém, em novembro, Edson decidiu voltar às áreas atingidas pelas queimadas em Acará. Ele ficou chocado com a proporção dos impactos, que persistem até hoje.
Um ano e meio depois, a floresta ao redor do igarapé Itapecuru ainda se recuperava. Onde antes havia grandes árvores, restaram clareiras, onde arbustos e a vegetação baixa crescem lentamente. Cientistas dizem que pode levar pelo menos 20 anos para que árvores nativas da Amazônia voltem a crescer e, mesmo assim, a floresta raramente retornará à forma original.
A comunidade também carrega cicatrizes profundas.
Daniel Vinagre, dono da casa usada como centro de comando dos voluntários, vive da venda do açaí, principal atividade econômica de sua família há três gerações. Após o incêndio, ele se deparou com um saldo assustador: 2 hectares de agrofloresta já não existiam mais. Ao todo, 12 famílias da comunidade acabaram financeiramente prejudicadas.
Para eles, não há outra forma de garantir o sustento. “O trabalho que fazemos aqui é a colheita do açaí nativo. Não há outra opção. Nossa terra é de várzea, não é terra firme, então praticamente não dá para plantar mais nada”, disse o agricultor.

Como o fogo retirou os nutrientes do solo, a produção pode levar até sete anos para voltar ao normal. “O chão ficou completamente preto. Só agora estamos pensando em espalhar mudas na floresta novamente, mas isso significa que o açaí vai levar mais cinco anos para crescer”, disse. Ele espera que a prefeitura forneça as mudas de açaí, que também são caras.
A saúde de Daniel também foi comprometida pelo incêndio florestal. Ele foi um dos voluntários que precisou lançar baldes de água sobre as chamas, mas sem máscaras ou equipamentos de proteção necessários. “Fiquei doente por várias semanas depois daquele incêndio.”
Apesar dos problemas em razão da exposição ao fogo e à fumaça, ele conta que não procurou atendimento médico especializado e não sabe dizer quais impactos de longo prazo o esperam.
Essas histórias se repetem em todo o município.
Ao visitar a comunidade de Bom Futuro, na região do Baixo Acará, Edson se reuniu com moradores em uma varanda. Enquanto comiam pupunha, lembraram de um incêndio florestal que combateram juntos em outubro de 2024. O grupo trabalhou intensamente por duas semanas, mas as chamas só se extinguiram após 45 dias, quando a estiagem começou a ceder e a chuva finalmente chegou.
“De vez em quando sentamos aqui e lembramos como tudo aquilo foi ruim”, disse o produtor de açaí Abimael Ponte. “Em certo momento, eu entrei na floresta e inalei uma fumaça colorida. Não sei se vinha das raízes das árvores, mas achei que fosse desmaiar. Senti uma tontura terrível.”
Abimael precisou ir ao hospital três vezes com problemas respiratórios e pulmonares. Sua esposa também foi afetada pela fumaça, que rapidamente chegou às comunidades próximas. “Até hoje, ela é muito sensível a qualquer tipo de fumaça. Ela começa a tossir imediatamente.”

Além dos problemas de saúde física, eles também enfrentam o estresse emocional.
“Para piorar a situação, no dia do incêndio, estávamos a caminho do funeral do meu avô. Quando percebemos a proporção do fogo, deixamos tudo para trás e simplesmente corremos para dentro da floresta. Não conseguimos velar ele direito”, lamentou.
Abimael disse que nunca vai conseguir relaxar completamente. Pouco tempo antes da entrevista, ele conta que apagou um pequeno incêndio perto da mesma área que queimou em 2024. “As pessoas acham que podem queimar um pequeno pedaço de terra para plantar, mas a floresta ainda está seca e o vento pode espalhar tudo novamente. Temos medo de que isso aconteça outra vez. Estamos sempre com medo.”
A cada visita para acompanhar a situação das comunidades, Edson é recebido com carinho e entusiasmo. Ele atribui sua popularidade ao contato próximo que manteve com os moradores durante as crises do clima. Ele até ajudou a organizar uma campanha de doações para os mais afetados pelos incêndios, com o envio de alimentos e mudas de açaí.
Seu trabalho durante e depois da temporada crítica de 2024 foi recentemente reconhecido com a Medalha do Mérito por Distinção Civil, concedida pelo Corpo de Bombeiros do Pará.
“Depois de combater o fogo, muitas pessoas tentaram me convencer a concorrer a vereador”, disse. No entanto, ainda que esteja cursando Ciência Política (sua terceira graduação), ele rejeitou a ideia. “Eu acho que poderia ganhar uma eleição. Mas esta aqui é a minha missão.”
Edição: Alexandre de Santi e Lucas Berti
Referência:
Trejo, P., Azevedo-Ramos, C., & Lenti, F. (2025). Forest fragmentation in the Brazilian Amazon: Trends and conservation strategies. Perspectives in Ecology and Conservation, 23(2), 104-109. doi:10.1016/j.pecon.2025.04.001
Imagem do banner: O ex-seminarista Edson dos Santos visita áreas queimadas em Acará. Foto: Carla Ruas.