No coração da planície pantaneira, mulheres ribeirinhas passam até 12 horas por dia submersas em águas turvas, cercadas por jacarés e cobras, coletando iscas vivas que alimentam uma indústria milionária de turismo.
A pesca esportiva no Pantanal gera em torno de US$ 20 milhões por ano, mas as isqueiras recebem apenas centavos por cada isca coletada e ainda sofrem com atrasos no seguro-defeso, cujo pagamento é feito durante o período em que a pesca é suspensa para permitir a reprodução dos peixes.
Segundo dados do governo, 40% dos pescadores profissionais dos estados pantaneiros são mulheres; no Pantanal, são elas que predominam na coleta de iscas.
“Senhor, vá na minha frente, vá limpando os meus caminhos, tirando todo bicho, fera, tudo aquilo que não vem de ti, que seja afastado e que o Senhor abençoe meu trabalho. Em tuas mãos estou. Vá comigo, Pai.”
São 3 horas da madrugada na Ilha do Baguari quando Roseli Oliveira faz sua oração diária antes de entrar nas águas escuras do Pantanal de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Com a lanterna apagada para não espantar as iscas, ela mergulha até a cintura — às vezes até o peito — cercada por jacarés, sucuris e arraias. Ela tem doze horas de trabalho noturno pela frente, com a água suja penetrando seu macacão gasto, mas não há outra escolha: sem isca, não tem sustento. Aos 48 anos, acumula 36 de profissão.
Roseli não está sozinha. Em comunidades ribeirinhas espalhadas pelo Pantanal, dezenas de mulheres trabalham como isqueiras, coletando iscas vivas para a pesca. Armadas com puçás (redes de malha fina) e lanternas, elas capturam caranguejos e pequenos peixes, como tuviras, nas margens de rios e baías.
É um trabalho braçal, invisível e perigoso, mas também essencial para uma cadeia econômica que movimenta milhões de reais e sustenta o turismo de pesca na região — indústria que raramente reconhece essas mãos femininas.
Povo livre, trabalho invisível
Pescadores artesanais, de modo geral, carregam uma característica que os distingue das demais profissões: a autonomia. São “um povo livre, que foge do paternalismo, do coronelismo, da relação empregado e patrão”, define André Luiz Siqueira, diretor da ONG Ecoa — Ecologia e Ação, organização que surgiu em 1989, em Campo Grande (MS), com o intuito de preservar o meio ambiente, promover pesquisas científicas e integrar as comunidades tradicionais nesse processo.
Se a pesca é milenar, a profissionalização do isqueiro surge com força no Pantanal nos anos 1980, impulsionada pela abertura da região ao turismo, explica André. As iscas vivas se tornam necessárias para abastecer pescadores amadores — mas, sobretudo, a pesca esportiva, movimentando toda uma cadeia econômica em ascensão.

Em 2002, o antropólogo Álvaro Banducci percorreu acampamentos de isqueiros e os entrevistou para sua tese de doutorado “Nativos” em trânsito: catadores de iscas e o turismo da pesca no Pantanal Mato-grossense. Encontrou um retrato socioeconômico de marginalização: 25% deles eram analfabetos e quase 60% não haviam completado o ensino fundamental. Sua conclusão: “a captura de iscas atrai justamente a parcela da população para a qual as portas do mercado de trabalho têm insistentemente se fechado”.
Álvaro conta que, durante as pesquisas de campo, embora encontrasse mulheres, a profissão tinha prevalência masculina. Hoje, 24 anos depois, em algumas comunidades pantaneiras a realidade é outra: as mulheres assumiram a coleta de iscas – bem como a liderança política e social – enquanto os homens migraram para a pilotagem de barcos turísticos e a administração de pousadas.
Hoje, segundo o Registro Geral da Atividade Pesqueira de 2023, das 12.319 pessoas cadastradas como pescadoras profissionais nos estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul — o que inclui as isqueiras do Pantanal —, 5.026 são mulheres. Ou seja, cerca de 40% do total.
Água suja, corpo feminino
Elizete Garcia da Costa Soares, conhecida como Zezé, mora em Porto da Manga, uma comunidade localizada a 60 km de Corumbá, na interseção entre o rio Paraguai e a Estrada Parque Pantanal, onde vivem aproximadamente 250 pessoas, distribuídas em 47 famílias.
Dos 61 anos de vida, Zezé vive como isqueira há 34. Já acessou as águas do Pantanal incontáveis vezes, sendo boa parte delas — assim como suas colegas — sem equipamento de proteção. “Dá muita doença ginecológica”, conta. “Todas as mulheres têm [corrimento], porque a água é suja.”
Isso acontece porque a anatomia feminina é mais suscetível a infecções urinárias, vaginais e outras enfermidades ginecológicas. André explica que, em períodos de seca, baías e corixos concentram resíduos orgânicos e a própria eutrofização (acúmulo de nutrientes) acelera a proliferação de algas, fungos e bactérias. Parar, contudo, não é uma opção. Como o trabalho é autônomo, “toda vez que você deixa de ir pro campo, é menos comida dentro de casa”, pontua André.

Roseli lembra como era quando começou, há 36 anos. “A gente não tinha equipamento nenhum, era simplesmente a roupa da gente. Canoinha de um pau só, um remo. Um tamborzinho. E a força de vontade.”
A solução chegou apenas em 2011, quando a Ecoa localizou uma empresa paranaense que fabricava macacão vulcanizado impermeável e botas de alta resistência. O conjunto, além de prevenir o contato com a água, protegia de animais e era maleável o suficiente para subir e descer da embarcação sem rasgar.
O Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul, então, firmou parceria: recursos de multas trabalhistas financiariam a compra dos EPIs, que custam, em média, R$ 290 cada. Há 15 anos, a Ecoa recebe esses valores, faz a compra dos equipamentos de proteção e se encarrega de distribuí-los às isqueiras*.
Contudo, a vida útil do equipamento é de, no máximo, um ano. Sendo assim, mesmo próspera, a parceria nem sempre é suficiente. Zezé, por exemplo, está há dois anos sem receber um macacão novo. Com o seu rasgado, juntou as economias e comprou um por conta própria no valor de R$ 350.
Afinal, para além das doenças ginecológicas e de pele, o equipamento protege contra ataques de animais. Foi ele que salvou Zezé da mordida de uma piranha, “que cortou a tela, saiu e veio direto na minha perna. Deu uma mordidona, ainda bem que pegou só o macacão. Se fosse na perna tinha tirado um pedaço.”
Por conta dos perigos, Roseli teve “várias tentativas [de largar a profissão], mas nenhum sucesso. Eu vi que não tinha outro meio. Tinha que sustentar meus filhos do melhor jeito que pudesse”, diz. Começou a trabalhar como isqueira aos 12 anos ao lado dos pais e só frequentou os estudos até a sexta série incompleta pelo EJA (Educação de Jovens e Adultos).
Centavos por uma vida
As isqueiras trabalham em grupos — mínimo duas pessoas. No barco de Roseli cabem quatro. Quando a pesca está boa, conversam. Quando não está, ficam quietas, “só matando mosquito, porque tem muito à noite”, conta. Usam lanterna, mas a luz fica apagada na maior parte do tempo. Para saber se tem bicho, a regra é clara: prestar atenção. “A gente ouve barulho, movimento na água, no mato. A gente já sabe e sente.” Se percebem onça, saem. “É melhor deixar ela passar. Depois que não tá mais, a gente volta.”
A precariedade do trabalho contrasta com os números apresentados pelo setor. A pesca esportiva, por exemplo, expandiu entre 30% e 40% nos últimos dois anos só no Mato Grosso, segundo dados da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econômico do Estado.
O relatório “Pecuária, pesca e ecoturismo no Pantanal”, produzido pelo IPÊ — Instituto de Pesquisas Ecológicas, em colaboração com o Smithsonian Conservation Biology Institute, dos Estados Unidos, e a Embrapa Pantanal, como resultado de um workshop realizado em agosto de 2021, sintetiza números importantes para entender a dimensão econômica do bioma.

Conforme o documento, são 142 pousadas especializadas em pesca esportiva mapeadas nos dois estados pantaneiros. Cerca de 220 mil turistas visitam o bioma anualmente só para pescar. No Mato Grosso do Sul, a pesca esportiva gera US$ 16,8 milhões por ano. No Mato Grosso, um único trecho do Rio Cuiabá movimenta US$ 1,8 milhão anualmente.
Roseli, mãe solo de quatro filhas — todas isqueiras —, explica como o dinheiro chega até sua família: se o dono de barco-hotel encomenda 800 iscas, elas podem levar até uma semana trabalhando a noite toda para colher essa quantidade, dependendo da época. “Se tá faltando umas 200, eu vejo com minha sobrinha, pego junto e misturo.” A renda mensal da família, somando as cinco, gira em torno de R$ 1.500 a R$ 2.000, menos de um salário mínimo (R$ 1.621, em 2026) por pessoa. “A gente divide tudinho”, conta.
Zezé é realista. “Não falo em renda porque tem época que é boa, quando tem bastante turista. Mas quando não tem, a gente se contenta com pouco.” Não há contratos formais; apenas acordos verbais entre quem compra e quem vende.
As isqueiras das comunidades ribeirinhas competem entre si e com vendedores urbanos e, por estarem distantes da cidade, precisam baixar os preços para conseguir vender. “É tipo uma competição. Se a gente erguer muito [o preço] aqui, não tem quem compra de nós. Porque na cidade também comercializam”, explica Roseli.
Hotéis e pousadas compram iscas a 50 ou 70 centavos e revendem aos turistas por R$ 2 — com um lucro de 300%. “E aí geram conflitos internos, brigas, porque o vizinho fragilizou nosso movimento de manter um preço mínimo digno”, lamenta André.
O defeso e a dívida
Entre novembro e fevereiro, vigora o defeso — proibição da pesca para preservar reprodução das espécies. As isqueiras — e toda a categoria de pescador artesanal — recebem o seguro-defeso, no valor de um salário mínimo por mês. “Mas até agora ninguém recebeu”, conta Zezé, durante entrevista em janeiro de 2026.
Uma medida provisória de 2025 transferiu a gestão do seguro-defeso do INSS para o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), o que atrasou ainda mais os pagamentos. Em 12 de janeiro, a Assembleia Legislativa do Mato Grosso publicou um release dizendo que deputados foram a Brasília cobrar o pagamento do seguro-defeso aos pescadores.
No texto, dimensionam a situação: “milhares de trabalhadores da pesca seguem sem receber qualquer parcela do benefício, mesmo tendo cumprido rigorosamente a paralisação da atividade durante o período proibitivo, fundamental para a reprodução dos peixes”. Até a publicação dessa reportagem, a situação não havia sido normalizada.
Procurado, o MTE respondeu que “não existe atraso por conta da transferência do INSS”. Segundo o ministério, os pagamentos referentes ao período após 1º de novembro, quando a gestão passou a ser do MTE, serão realizados “em fevereiro”.
Em nota divulgada em janeiro de 2026, o ministro Luiz Marinho afirmou estar debatendo o tema com parlamentares e lideranças de pescadores. “Ao todo, cerca de 50 mil pescadores artesanais já apresentaram o Relatório Anual de Exercício da Atividade Pesqueira (REAP), documento necessário para comprovar o exercício contínuo da atividade e a manutenção da licença. O órgão realiza, neste momento, o cruzamento de informações para o fechamento do lote e a liberação dos pagamentos até o fim de fevereiro.”
Segundo o texto, “em relação aos pagamentos referentes a períodos anteriores a 1º de novembro de 2025, quando o benefício era administrado pelo INSS, a situação segue em discussão no âmbito do governo federal. Para os períodos de defeso iniciados entre 1º de abril de 2015 e 31 de outubro de 2025, a competência para recepção, processamento e habilitação dos beneficiários permanece sob responsabilidade do INSS”.
O ministério não respondeu sobre como espera que os pescadores sustentem suas famílias durante os meses sem pagamento, nem se haverá correção monetária ou compensação para quem contraiu dívidas no período. O Registro Geral de Pesca proíbe que pescadores cadastrados exerçam outras atividades remuneradas durante o defeso.
A Mongabay procurou o INSS para esclarecer a falta de orçamento e as investigações de fraude mencionadas pelo MTE, mas não obteve resposta até a publicação.

Segundo André, do Ecoa, mesmo quando há pagamento regular do benefício, o período de defeso é, também, o de maior endividamento dos pescadores. Isso porque o seguro-defeso nem sempre considera as especificidades dessa classe.
Por exemplo, para sacar o dinheiro, Roseli precisa viajar até Corumbá: “Ida e volta dá 100 litros de gasolina. Aí você pega esse dinheiro, tem que comprar combustível, aí o que sobrar faz sua compra. Quase não dá para muita coisa”, desabafa. A Ilha do Baguari fica a 7 horas de barco a motor de Corumbá. “E aqui não tem supermercado, não tem posto de saúde. Não tem nada. É só Pantanal.”
Durante esses meses, as famílias se voltam à roça, à manutenção das casas e ao reparo das embarcações. Para complementar a renda, algumas mulheres trabalham com apicultura e os maridos migram para Corumbá em busca de trabalho na construção civil.
No entanto, o Registro Geral de Pesca, que regula a categoria, proíbe que os cadastrados exerçam outras atividades remuneradas. Ao trabalharem informalmente, ficam sem proteção e “pelos olhos do governo, estão ilegais”, explica André.
Fé e persistência
Em 1912, a comunidade ribeirinha centenária de Porto Esperança, em Corumbá, era o ponto final da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil. A estação ferroviária movimentava a economia local, atraía moradores e garantia conexão com o resto do país. Tudo mudou em 1995, quando o trem de passageiros foi desativado. Grande parte da população migrou, deixando para trás apenas aqueles mais enraizados ao território.
Os que permaneceram enfrentaram o isolamento: sem energia elétrica, sem assistência médica adequada, sem oferta de educação pública de qualidade. Em 1º de fevereiro de 2000, se organizaram e criaram a Associação dos Moradores e Amigos do Distrito de Porto Esperança, hoje presidida por Ingrid Oliveira, de 35 anos.
Há 10 anos, quando chegou na comunidade, Ingrid se surpreendeu com o protagonismo feminino na coleta de iscas. Hoje, cerca de seis mulheres — a maioria idosas — trabalham como isqueiras em Porto Esperança, onde o turismo responde por 90% da economia local.
Para Ingrid, que não é isqueira, mas admira essas mulheres, o que as move diante de tanto perigo é claro: “Elas fazem isso para os filhos não passarem o que passaram. Querem dar vida melhor, para saírem daqui, ter estudo melhor na cidade.”
Todos os dias, antes de sair, Roseli repete a mesma oração que abre esta reportagem. São 36 anos rezando e enfrentando a noite, a água fria, os jacarés, as cobras e a incerteza para sustentar as quatro filhas. Nessa rotina que mistura orgulho e revolta, as isqueiras seguem invisíveis, embora cada anzol da pesca esportiva carregue uma isca coletada por suas mãos.
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* A parceria entre o Ministério Público do Trabalho do Mato Grosso do Sul e a ONG Ecoa, que desde 2011 distribui equipamentos de proteção às isqueiras com recursos de multas trabalhistas, representa uma das poucas ações formais voltadas a essa categoria. A Mongabay procurou o MPT/MS para entender se há reconhecimento formal da atividade, como funciona a fiscalização em áreas remotas, se existe possibilidade de mediar a exploração econômica dessas trabalhadoras pelos empresários do turismo e quais medidas estruturais seriam necessárias para garantir direitos plenos. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
Imagem do banner: Dona Dinha, isqueira no Pantanal. Foto: Raquel Alves/Ecoa.