Lançado em 2023, o Sustenta Carnaval coleta toneladas de resíduos têxteis que sobram dos desfiles da Sapucaí, reaproveitando fantasias, adereços e estandartes que antes tinham os aterros sanitários como destino certo.
Além de reduzir o lixo, a iniciativa recicla produtos com baixa biodegradabilidade e transforma as sobras da folia em matéria-prima. Peças em boa condição também são vendidas para foliões, projetos de arte e até exportadas para fora do país.
Em sua sede no centro do Rio de Janeiro, o projeto também capacita mulheres minorizadas em oficinas criativas, gerando fontes estáveis de renda que, durante todo o processo, não perdem a consciência ambiental de vista.
O que acontece quando o Carnaval das escolas de samba acaba? Quando as luzes do sambódromo se apagam e o público vai embora, para onde seguem as toneladas de plumas, lantejoulas, fantasias e adereços que deram forma ao espetáculo?
O padrão é que tudo vá parar em aterros sanitários, destino final de toneladas de materiais descartados. No Rio de Janeiro, porém, onde mais de 60 mil pessoas desfilam todo ano na Marquês de Sapucaí, as fantasias começaram a ganhar um novo endereço depois da festa.
Em 2023, um galpão no bairro da Gamboa, na região central, passou a sediar o Sustenta Carnaval, uma iniciativa socioambiental e de economia circular que reaproveita e recicla resíduos têxteis dos desfiles do sambódromo.
A ideia surgiu em 2020, quando a atual diretora artística Mariana Pinho, ao acompanhar os desfiles, percebeu que“há décadas, a situação persistia. Por falta de caminhões ou de equipes [para fazer as coletas], as fantasias iam diretamente para os aterros”, disse à Mongabay.
Embora viva na Inglaterra há 22 anos, onde trabalha em uma organização de arte, a idealizadora do Sustenta Carnaval costuma passar algumas temporadas no Brasil, com a missão de colocar em prática os conhecimentos que adquiriu em sua jornada profissional.
Durante a pandemia de coronavírus, Mariana — que iniciou uma graduação em Moda, mas não concluiu o curso — se dedicou a estudar sustentabilidade por conta própria, buscando mais detalhes sobre o impacto ambiental gerado pelo descarte irregular do que é usado no Carnaval. Os números, ela conta, dão a dimensão da urgência: “Até hoje, nosso projeto já ‘desviou’ 66 toneladas de fantasias que iriam para os aterros”, disse.

É partindo desses princípios — reciclagem e reaproveitamento — que o Sustenta Carnaval visa diminuir o acúmulo de lixo, transformando o que viraria descarte em uma gama de materiais aproveitáveis. O processo envolve coleta seletiva, limpeza, triagem, catalogação e revenda dos itens, gerando um ciclo ecológico duradouro.
Segundo dados municipais, só nas primeiras três noites de desfiles são geradas, em média, 75 toneladas de resíduos. Para Bruna Gama, especialista em Gestão Ambiental e do Agronegócio pela Universidade de São Paulo (USP), é importante enfrentar essa realidade.
“Essas fantasias são compostas majoritariamente por polímeros sintéticos como poliéster, náilon e PVC, além de estruturas metálicas e bases reaproveitáveis, sendo materiais de baixa biodegradabilidade — que permanecem por décadas no ambiente quando destinados ao aterro”, disse. Segundo ela, que atua no mercado de soluções ambientais, ao reinserir esses componentes na cadeia produtiva, o projeto transforma um passivo ambiental em matéria-prima secundária.
“Isso é economia circular aplicada”, diz Bruna.
Uma corrida sustentável contra o tempo
Segundo Mariana, o projeto Sustenta Carnaval não lida com as escolas de samba diretamente — uma vez que o volume de materiais que se acumula é bastante elevado. “A cada 90 minutos, milhares de pessoas saem da Sapucaí, ao mesmo tempo. Existe uma pressão para que se desocupe aquele espaço, de forma que a próxima escola possa entrar”, disse. “Assim, fantasias utilizadas por apenas uma ou duas horas têm uma vida útil muito curta.”
Para lidar com a pilha de resíduos, o projeto depende das ações da Companhia Municipal de Limpeza Urbana da Cidade do Rio de Janeiro (Comlurb), responsável por questionar as escolas sobre o futuro das fantasias. Caso as organizações carnavalescas decidam não recolher os trajes usados por seus foliões, a equipe do Sustenta Carnaval entra em cena, tendo um pouco mais de 10 minutos para levar roupas e adereços para o caminhão-baú, que carrega tudo até o galpão do projeto. O caminhão compactador da Comlurb, enquanto isso, se encarrega do lixo comum, como latas e garrafas.
“É uma operação conjunta, cronometrada e extremamente delicada”, disse Mariana.
Assim, escola por escola, desfile por desfile, o processo se repete, incluindo também as entidades da Série Ouro — o grupo de acesso do Carnaval carioca — e o desfile das campeãs, que volta à avenida no último sábado de celebrações. No total, a atividade lida com a produção excedente de 27 agremiações de diferentes tamanhos.

O passo seguinte consiste em levar os materiais para a sede, onde são separados, categorizados e depositados em arquivos. De acordo com os responsáveis pela iniciativa, os trajes e os adereços — como acessórios de cabeça e estandartes, entre outros — encontram diferentes formas de reutilização.
O destino da revenda, seja de peças ou figurinos completos, é variado. A lista de compradores inclui foliões comuns que se vestem para os blocos de rua; companhias que trabalham com montagem de cenários de peças teatrais, de cinema e editoriais de moda; e escolas de samba de outros municípios e estados.
Além disso, os acessórios também podem ser aperfeiçoados a partir de estratégias de upcycling (ou reutilização criativa), que reaproveitam objetos em boas condições de uso para a criação de itens variados — como porta-passaportes, carteiras, pochetes e ecobags.
Da coleta à separação, todos os funcionários são remunerados diariamente após o expediente. O faturamento obtido pela venda local e exportação de produtos também cobre despesas como aluguel, IPTU e outras contas fixas do espaço. Os únicos incentivos vêm de grandes organizações, como a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa), e cobrem apenas os custos de coleta. A única mão de obra voluntária é a de Mariana.
No ritmo do impacto social
Na outra ponta da cadeia, existem projetos sociais que se desenvolvem a partir da reinterpretação dos resíduos têxteis. No próprio galpão do Sustenta Carnaval, parte do material é transformada pelas mãos do Instituto Mulheres do Sul Global. Com uma equipe de 20 pessoas, a entidade se descreve como uma “fábrica-escola dedicada ao empoderamento econômico de mulheres refugiadas, migrantes e brasileiras através da costura”.
Segundo Manuela Pinheiro, fundadora e diretora do instituto, a parceria ampliou as oportunidades de negócio. “A gente transformou as fantasias naquilo que a gente sabe fazer: em ecobags, chaveiros, uma série de coisas”, disse. Em 2024, durante a última Cúpula de Líderes do G20, realizada na capital carioca, uma ação do projeto de Manuela fabricou brindes para as delegações estrangeiras a partir dos insumos reciclados.

A dias do início dos desfiles de 2026, a Mongabay visitou o galpão do Sustenta Carnaval no coração do Rio. Desde dezembro, a sede passou a estar aberta ao público, o que potencializou o fluxo de vendas, segundo a funcionária Cássia Luenny. Entre as várias funções que exerce, ela também participa da coleta das fantasias.
“Atendemos agremiações menores de outros estados e regiões do Rio, como [dos municípios de] Três Rios, Vassouras e Mendes. Também temos parcerias com o Theatro Municipal do Rio, o [grupo teatral] Nós do Morro, shows e blocos infantis. Todos [trabalham] como figurinos nossos”, disse.

Cássia explicou que, no segundo andar, também funcionam oficinas próprias de capacitação para a confecção de biquínis, acessórios e estandartes. Quem participa são mulheres de grupos minorizados, como profissionais negras, transexuais e mães solo, todas em busca de fontes alternativas de renda alinhadas ao cuidado ambiental.
Luciana Vellasco, professora de educação infantil, foi uma das alunas e participou de uma oficina de customização de fantasias. “Me despertou a atenção o descarte. [Isso] me inspirou a levar a consciência ambiental para os meus alunos e ampliou minhas possibilidades criativas”, disse. A partir do estudo, ela criou sua própria linha de brincos feitos de materiais recicláveis.
O espaço na Gamboa fica aberto durante todo o ano, ainda que passe a receber mais movimento nos meses prévios aos tão aguardados eventos de fevereiro.
Os adeptos de blocos de rua estão entre os mais interessados entre os visitantes do galpão do Sustenta Carnaval, garimpando opções confortáveis para se divertir. Mas diante de uma procura que vai muito além dos carnavais, as portas do galpão já não fecham mais. “Essas fantasias não são apenas de Carnaval para Carnaval, elas podem ser reutilizadas para o cinema, a televisão e a educação. A estética do Carnaval permite essa transversalidade”, disse Mariana.

A empreitada sustentável funciona com o apoio das gestões estaduais e municipais do Rio de Janeiro. Representando a prefeitura, quem estabelece relações com o projeto é a vereadora Tainá de Paula (PT-RJ), que lidera a Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Clima do Rio de Janeiro (Smac). Ela foi responsável por viabilizar a colaboração da Comlurb.
“Antes, existia uma contradição para manter a cidade limpa e com índices ambientais e climáticos favoráveis. O Carnaval era uma das principais fontes de emissão de gases de efeito estufa no primeiro trimestre do ano aqui no Brasil”, disse a vereadora. “O projeto fez uma ponte entre a cultura e o meio ambiente.”
Na esfera estadual, a Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro (Secec-RJ) atua para levar a iniciativa para outros municípios, como Cachoeiras de Macacu — por meio das parcerias com o Sustenta Carnaval, a cidade reivindicou em 2023 o título de primeiro carnaval sustentável do estado do Rio.
Nos últimos tempos, o projeto também atravessou as fronteiras nacionais e cruzou os oceanos. Hoje em dia, países como Suécia, Austrália e Inglaterra já contam com roupas e adereços obtidas pelo projeto de Mariana. “Há quatro anos, atuamos em Londres; nesse período, já exportamos mais de 450 quilos de materiais por meio de diferentes parcerias”, disse.

Um dos blocos que desfilam em terras europeias no embalo da sustentabilidade made in Brazil é o grupo de samba-reggae Dendê Nation, figurinha carimbada no Carnaval de Notting Hill, uma tradicional festa afro-caribenha celebrada todo mês de agosto, em Londres. Os benefícios dessa troca, segundo Mariana, valem a pena.
“Mesmo considerando a pegada de carbono [vinda] da exportação, o impacto é muito menor do que começar uma produção do zero. Muitos materiais utilizados na Europa são importados da China. No nosso caso, o material já está pronto para uso. Pode haver customização, mas nunca terá o mesmo impacto ambiental”, disse.
Para 2026, estima-se que 25 toneladas de descarte sejam recolhidas, iniciando um novo ciclo de produção que, na visão dos idealizadores, se propõe a associar cultura, educação, cuidados ambientais e geração de renda.
Imagem do banner: Sobras do Carnaval do Rio de Janeiro em exibição no galpão do projeto Sustenta Carnaval. Foto: Sustenta Carnaval/Arquivo.
Edição: Lucas Berti.