Notícias ambientais

Como botas de caubói estão financiando a pesca sustentável de pirarucu na Amazônia

Botas de caubói da marca Cody James, feitas em couro de pirarucu, disponíveis em uma das lojas da rede Boot Barn, nos Estados Unidos. Foto: Julie Larsen/Mongabay.

  • A pesca sustentável do pirarucu no estado do Amazonas vem restaurando as populações antes exauridas desse gigante de água doce, graças a planos de manejo de comunidades tradicionais e a vendas para grifes internacionais.

  • A venda da pele de pirarucu para a indústria da moda, especialmente para a fabricação de botas de caubói no Texas, é essencial para financiar a sua pesca, ajudar a manter preços justos para os pescadores e cobrir parte dos altos custos de transporte, armazenamento e monitoramento comunitário.

  • O manejo depende de intenso esforço coletivo e proteção constante contra a pesca ilegal. As comunidades percorrem longas distâncias, patrulham lagos e enfrentam ameaças armadas — tudo isso recebendo pouco reconhecimento ou apoio político dos governos locais.

Habitante da Bacia Amazônica e um dos maiores peixes de água doce do mundo, o pirarucu (Arapaima gigas) é dotado de uma pele dura que o protege contra ataques de predadores aquáticos (como piranhas), mas que ao mesmo tempo é flexível. Essas características, combinadas com o desenho de suas escamas, em formato de diamante, vêm atraindo o interesse da indústria internacional da moda.

O maior mercado da pele de pirarucu é o estado americano do Texas. Botas em estilo country produzidas com o material são fabricadas nos Estados Unidos e no México e vendidas por esses dois países — um nicho que ajuda a financiar a pesca sustentável das comunidades tradicionais do Amazonas.

A carne é o principal produto de manejo do peixe, mas sua pele, que pesa no mínimo 10 quilos, é vendida por um preço maior: de R$ 170 a R$ 200. Seu uso é em calçados e acessórios da moda.

“A venda da pele de pirarucu é fundamental para manter os R$ 10 por quilo pagos ao manejador”, diz Ana Alice Britto, coordenadora comercial da Associação dos Produtores Rurais de Carauari (Asproc). “Ela também ajuda a pagar uma pequena parcela dos custos com logística, processamento e armazenamento.”

Criada em 1994, a Asproc é a maior organização do Médio Juruá, no Amazonas, e representa 800 famílias de 61 comunidades ribeirinhas. No ano passado, a associação vendeu 180 toneladas de pirarucus manejados.

A atividade comercial do peixe — que pode pesar até 200 quilos e medir 3 metros de comprimento — começou na década de 1960, com o fluxo de pessoas de todo o Brasil para a Amazônia, junto com os avanços da indústria pesqueira, como barcos mais potentes, redes de náilon e fábricas de gelo, entre outros.

Fisherman Marco Aurelio Canuto Viana processes a pirarucu fish at a lake at Medio Jurua region, Amazonia State, Brazil, Monday, Sept. 5, 2022. A Brazilian non-profit has created a new model for land ownership that welcomes both local people and scientists to collaborate in preserving the Amazon, which includes lakes, some with good potential for raising the prized pirarucu fish.
O pescador Marco Aurélio Canuto Viana processa um pirarucu em um lago na região de Médio Juruá, no Amazonas. Foto: AP Photo/Jorge Saenz.

Em 1975, o pirarucu foi incluído na lista de espécies ameaçadas da Convenção sobre o Comércio Internacional das Espécies da Fauna e da Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites), e a sua captura foi proibida no Amazonas de 1996 a 1999 — embora também se encontre em outros estados amazônicos, como Acre, Amapá, Pará, Roraima e Rondônia. Nessa época, o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá lançou o primeiro plano de manejo do pirarucu, que alia conservação ambiental à participação de comunidades ribeirinhas. Ele serviria de modelo para centenas de outros planos de manejo adotados em unidades de conservação, terras indígenas e áreas de acordo de pesca nas décadas seguintes.

Graças à implementação desse sistema, o pirarucu e outras espécies aquáticas voltaram a repovoar áreas protegidas.

“O manejo ajuda a recuperar as populações de pirarucu, que é uma espécie extremamente explorada”, diz Cristina Buck, coordenadora de uso sustentável da fauna e da biodiversidade do Ibama. “Hoje há mais de 1,2 milhão de indivíduos no Amazonas e mais de 15 milhões de hectares em áreas de manejo reconhecidas pela agência.”

Em essência, o manejo do pirarucu permite a captura de, no máximo, 30% dos peixes adultos (com mais de 1,5 metro de comprimento) em uma determinada área. Os 70% restantes devem permanecer intocados, o que permite a preservação dessas populações, que se reproduzem entre dezembro e maio.

“O macho cuida da ninhada e, se ele é capturado, os filhotes também são. Por isso é necessário preservar também os machos adultos”, diz Buck.

Anualmente, o Ibama determina uma cota de pesca para cada plano de manejo, dependendo do número de pirarucus existentes em uma área. “Para isso, o lago [onde ocorre a pesca] é dividido em várias seções e cada uma tem seus indivíduos contados por um manejador treinado e autorizado”, diz disse Joel Araújo, superintendente do Ibama Amazonas.

Cody James brand pirarucu cowboy boots, made from exotic fish leather that stands up to wear, at Boot Barn.
Botas de caubói da marca Cody James, feitas em couro de pirarucu, disponíveis em uma das lojas da rede Boot Barn, nos Estados Unidos. Foto: Julie Larsen/Mongabay.

Esforço coletivo

Em fevereiro, o Ibama oficializou o programa Arapaima, cujo objetivo é aprimorar as práticas de manejo no Amazonas — único estado autorizado pela agência para o manejo da espécie — e expandi-lo a outros estados, segundo Araújo.

“Até hoje os pedidos [de planos de manejo] e as autorizações são enviados por e-mail; é um sistema atrasado”, diz ele. “O programa será unificado e fará parcerias com universidades e institutos de pesquisa.”

Junto com o Ministério do Meio Ambiente e Mudanças Climáticas, o Ibama está preparando uma nova portaria que irá proibir a pesca do pirarucu em toda a Bacia Amazônica, autorizando-a apenas em áreas de manejo.

O manejo comunitário do pirarucu é um exemplo de aliança entre o conhecimento tradicional e a ciência ocidental. Pescadores locais sabem que o peixe sobe à superfície da água para respirar a cada cerca de 20 minutos (o pirarucu possui um sistema de respiração semiaeróbica), e é nesse momento que ele pode ser contado. Em 2004, o pesquisador Leandro Castello validou cientificamente esse método.

A contagem de pirarucus é o início de uma cadeia de várias etapas — e de trabalho físico exaustivo. Os pescadores legalizados, geralmente organizados em associações comunitárias, muitas vezes têm de percorrer grandes distâncias para chegar aos lagos.

“O manejo é uma atividade difícil”, diz Rônisson de Oliveira, antropólogo e pesquisador do Instituto Mamirauá. “É preciso viajar de canoa motorizada por horas, acordar muito cedo porque só se pesca durante o dia, sob o sol intenso. As vísceras do peixe precisam ser retiradas rapidamente para que se mantenham por mais tempo. Depois, transportá-los à noite, já que, muitas vezes, não há gelo no local para preservá-los. As pessoas voltam para casa exaustas.

Workers stretch the skin of pirarucu to dry at the Nova Kaeru tannery factory in Tres Rios municipality, Rio de Janeiro state, Brazil, October, 2022.
Trabalhadores esticam a pele do pirarucu para secar na fábrica de curtumes Nova Kaeru, no município de Três Rios (RJ). Foto: AP Photo/Silvia Izquierdo.

Quando a cota de pesca permitida é alta, as comunidades precisam alugar uma embarcação com armazenamento de gelo ou capacidade de refrigeração, a um custo de R$ 20 mil por semana. Transportar o estoque para uma cidade com instalações de refrigeração industrial, ou diretamente para Manaus, leva de quatro a sete dias.

“Sem organização coletiva, o manejo do pirarucu não é viável”, diz Fernanda Alvarenga, cofundadora do Coletivo do Pirarucu e autora de um estudo sobre o mercado de couro de peixe. “Cem indivíduos pesam, em média, seis toneladas. Como uma única pessoa vai pescá-los e transportá-los? O pirarucu é altamente perecível. Não é como a castanha-do-pará, por exemplo, que tem uma longa vida útil.”

Proteger o habitat do pirarucu é crucial para a sua conservação, o que também exige trabalho em equipe. Quando o nível das águas baixa nos lagos, fica mais fácil capturá-lo, o que atrai pescadores ilegais. Por isso, comunidades de pesca sustentável patrulham os lagos dia e noite.

“A fiscalização dos órgãos ambientais é muito pequena e há pirataria e narcotráfico na região”, diz Pedro Canízio, vice-presidente da Federação dos Manejadores e Manejadoras de Pirarucu de Mamirauá (Femapam), à Mongabay. “Os pescadores ilegais costumam vir armados, mas nós não usamos armas. Fazemos esse trabalho com coragem, mas não é fácil. Em agosto passado, um vigilante foi acertado com um tiro.”

Nem todos os pescadores locais, porém, apoiam o programa. Em um estudo sobre conflitos relacionados à pesca do pirarucu, o antropólogo Oliveira descobriu que um pequeno grupo em sua comunidade de origem, São Paulo do Coraci, rejeita as práticas de manejo do pirarucu, ao contrário dos cerca de 70 pescadores ligados à associação local. Entre os motivos alegados estão a burocracia e a visão religiosa.

“Eles dizem que o manejo tem muitas regras: participar de reuniões bimestrais, discutir os processos de vigilância, não deixar ninguém para trás nos lagos até todos acabarem”, diz Oliveira.

Buck, do Ibama, disse concordar em parte com o argumento. “É realmente mais burocrático, mas, graças a esse sistema, as populações do peixe aumentaram [no Amazonas]. Os manejadores lembram que antes tinham de percorrer distâncias maiores para achar piracurus.”

Outra diferença entre os grupos é religiosa. “Os pescadores de manejo são católicos, enquanto os outros são evangélicos”, explica Oliveira. “Estes últimos acreditam que Deus nunca deixará que lhes faltem recursos, então podem pescar sempre que quiserem.”

Cody James brand exotic pirarucu belt at Boot Barn.
Cinto de pirarucu da marca Cody James na rede estadunidense Boot Barn. Foto: Julie Larsen/Mongabay.

Guardião da espécie carece de apoio

Além de ameaçar a sobrevivência do pirarucu, a pesca ilegal traz outro problema: ela reduz o preço do peixe. “Competimos com a atividade ilegal e, assim, não conseguimos preços melhores”, disse Canízio.

Segundo Alvarenga, a Bacia do Solimões responde por cerca de 70% da produção de manejo de pirarucu no estado. Fora desse modelo, o peixe é vendido por cerca de R$ 4 o quilo, enquanto os pescadores de associações que apoiam a venda coletiva recebem quase o triplo desse valor. “A pesca manejada, no entanto, representa uma pequena parcela da produção total”, diz ela.

Os ganhos dependem do volume vendido e do número de pescadores envolvidos. Em média, cada pescador ganha de R$ 600 a R$ 4 mil por temporada. “É um valor baixo, considerando que eles protegem a espécie”, diz Buck. “Eles monitoram e cuidam dos lagos o ano todo e não recebem nada por isso.”

Araújo, do IBAMA, argumenta que o manejo do pirarucu faz parte da “bioeconomia amazônica”: O peixe é um produto da floresta gerido pelas comunidades tradicionais de forma legal e sustentável. A sociedade precisa valorizar esse olhar, de que os recursos naturais devem ser protegidos”.

O impulso do Brasil rumo a uma bioeconomia — sistema baseado em recursos biológicos renováveis — tem ganhado destaque nos últimos anos. Na Amazônia, isso significa apoiar meios de subsistência tradicionais ligados à floresta, existentes há gerações, em vez de substituí-los por modelos industriais. Exemplos de fontes alternativas de renda para comunidades variam de artesanato sustentável feito de madeira morta à colheita equilibrada de produtos primários, como açaí e cacau.

Apesar do seu potencial para gerar riqueza, o manejo do pirarucu tem sido amplamente ignorado pelos governos locais. “Os políticos da região não demonstram interesse, não percebem a grandeza do manejo”, diz Araújo. “Eles poderiam criar políticas públicas estaduais para a atividade e para os pescadores.”

Alex Dabagh looks at a prototype while assembling pirarucu leather bags, November 2022, in New York.
Montagem de bolsas de couro de pirarucu em uma fábrica de Nova York. Foto: AP Photo/Julia Nikhinson.

Desigualdades na cadeia de valor

Um dos obstáculos enfrentados pelos manejadores é a logística, principalmente quando se trata de agregar valor a essa atividade comercial. “Quem mais lucra com as peles são os frigoríficos, que compram e recebem o pirarucu já eviscerado”, disse Canízio, da federação dos manejadores. “Eles só separam a pele da carne, a congelam e a vendem para os curtumes.”

Poucas associações têm estruturas flutuantes instaladas nos lagos para o processamento imediato do pescado, e um número menor ainda dispõe de instalações de armazenamento refrigerado. “Nossas comunidades gostariam de adquirir frigoríficos para vender diretamente aos mercados e curtumes, mas o custo é alto”, explica Canízio.

A Asproc, a associação de produtores, está finalizando a reconstrução de sua planta de processamento de pescado em Carauari, financiada com recursos próprios e por meio de doações, como as do Fundo JBS pela Amazônia (da gigante de processamento de carnes JBS) e do Fundo Vale (ligada à mineradora homônima). A JBS  é compradora frequente de gado originário de áreas desmatadas na Amazônia, e foi recentemente acusada de submeter trabalhadores a condições análogas à escravidão; a Vale ficou notória pelo rompimento da Barragem do Fundão, em Mariana (MG), que armazenava rejeitos de mineração e que permanece como o pior desastre ambiental da história do Brasil.

A Nova Kaeru, a maior produtora de couro de pirarucu do Brasil, está localizada no interior do estado do Rio de Janeiro. Ela compra a pele do peixe principalmente de frigoríficos, e o restante de apenas quatro associações comunitárias no Amazonas.

“O manejo sustentável do pirarucu existe por causa da carne do peixe, e não da pele”, explica André de Castro,  gerente de marketing da Nova Kaeru. “A legislação determina que os frigoríficos são responsáveis por receber, condicionar e cortar o pirarucu, bem como armazená-lo. Nos poucos casos em que a NK compra diretamente de associações de manejadores, estas tratam diretamente com seus parceiros frigoríficos.”

Enroladas como tecido, as peles são transportadas em caminhões refrigerados até a sede da empresa, onde são processadas para se transformarem em couro sem o uso de cromo e de outros metais pesados, comumente utilizados em curtumes convencionais.

“Usamos substâncias biodegradáveis, além de óleos naturais, como agentes curtidores, e anilina orgânica para tingimento”, diz Castro.

Também baseada no Rio de Janeiro, a marca de moda Osklen é cliente da Nova Kaeru há 16 anos. Ao contrário de grifes internacionais como Givenchy e Dolce & Gabbana, que usaram o couro de pirarucu apenas ocasionalmente, a Osklen tem em seu catálogo produtos feitos com esse material há muito tempo. Entre eles, um par de tênis com detalhes em couro bovino (R$ 2.470) e uma bolsa a tiracolo (R$ 6.750).

“O mercado de luxo tem margens de lucro altas e usa a sustentabilidade para vender seus produtos”, diz Alvarenga, do Coletivo Pirarucu. Falamos que a distribuição de renda é um dos maiores problemas do Brasil, e a cadeia do pirarucu é um exemplo disso.”

A Osklen não respondeu aos pedidos de comentários da Mongabay.

Como secas extremas podem redefinir o futuro dos peixes na Amazônia

 

Imagem do banner: Botas de caubói da marca Cody James, feitas em couro de pirarucu, disponíveis em uma das lojas da rede Boot Barn, nos Estados Unidos. Foto: Julie Larsen/Mongabay.

Exit mobile version