Em 2025, uma investigação da Mongabay revelou que instituições públicas estão comprando carne de tubarão em larga escala e servindo-a em escolas, creches e hospitais, entre outras entidades.
A série de reportagens impactou o debate público, motivando um pedido de audiência pública no Congresso Nacional, uma citação no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e em uma ação civil pública; o trabalho também contribuiu para a suspensão do uso da carne do animal em escolas públicas estaduais no Rio de Janeiro.
Neste texto, Philip Jacobson, da Mongabay, e Kuang Keng Kuek Ser, do Pulitzer Center, explicam como foi construído um banco de dados de licitações de carne de tubarão e a metodologia aplicada, que pode ser usada por outros jornalistas.
Em julho de 2025, a Mongabay publicou uma investigação que revelou compras públicas de carne de tubarão, feitas em grande escala, para alimentar crianças em idade escolar, pacientes de hospitais e detentos em várias regiões do país. O Brasil é o maior consumidor e importador mundial da carne desse animal e as licitações despertaram preocupações ambientais, uma vez que os tubarões sofrem sobrepesca — em todo o mundo, suas populações em mar aberto diminuíram cerca de 71% no último meio século. A investigação também desencadeou alertas sobre os riscos à saúde, uma vez que a carne de tubarão tende a conter altos níveis de metais pesados, o que pode ser especialmente perigoso para crianças, gestantes, lactantes e outros grupos vulneráveis.
Entre seus vários impactos, a série de reportagens movimentou o debate público, motivando um pedido de audiência pública no Congresso Nacional, uma citação no Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) e em uma ação civil pública; o trabalho também contribuiu para a suspensão do uso da carne do animal em escolas públicas estaduais no Rio de Janeiro.
Durante a pesquisa, passamos meses vasculhando dezenas de portais de transparência nos quais os governos estaduais e municipais são obrigados por lei a publicar as licitações. Foi um trabalho desafiador e que juntou as peças de um quebra-cabeça, unidas por dados catalogados com termos de busca muitas vezes inconsistentes. Na matéria a seguir, contaremos como isso foi feito, na esperança de inspirar e facilitar o caminho de outros jornalistas e pesquisadores interessados nessa linha de investigação.
Foi um trabalho árduo, mas também recompensador: rastreamos 1.012 licitações de carne de tubarão (emitidas desde 2004) e identificamos 5.900 instituições públicas — entre creches, abrigos, maternidades, bases militares, casas de cuidados para idosos, e até residências de governadores — que potencialmente receberam a carne do animal por meio dessas aquisições. No Brasil, as repórteres investigativas Karla Mendes e Fernanda Wenzel também desempenharam papéis fundamentais na investigação, investigando em campo as pistas reveladas pelo nosso banco de dados.
Havia uma motivação objetiva para o início da investigação: sabíamos que algumas instituições governamentais compravam carne de tubarão para crianças em idade escolar. Em 2021, a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo cancelou uma compra de 650 toneladas métricas do alimento após críticas da ONG de conservação marinha Sea Shepherd Brasil; à época, o caso ganhou repercussão em programas de TV. Naquele mesmo ano, a cidade de Santos também anunciou que baniria a carne de tubarão das merendas escolares, evitando que quase meia tonelada métrica fosse servida às crianças.
Enquanto isso, especialistas nos diziam que as aquisições também ocorriam em outros lugares. Mas, além dos casos citados e de algumas menções passageiras em artigos acadêmicos, não foi possível encontrar relatórios ou estudos que abordassem a abrangência do tema no país. As perguntas, no entanto, permaneciam: quão disseminadas eram as compras públicas de carne de tubarão no Brasil? Quais agências estavam comprando? E para quem estavam servindo? Quais as espécies envolvidas? Os funcionários responsáveis por essas aquisições sequer sabiam que “cação” — termo genérico sob o qual a carne é embalada e vendida no Brasil — era sinônimo de tubarão?
Conforme a investigação avançava, concluímos que os portais de transparência, onde constam os registros de compras públicas, seriam o melhor caminho para dar o próximo passo. Porém, pesquisar cada um dos portais de 5.569 municípios e dos 26 estados e do Distrito Federal estava muito além da nossa alçada. Assim, restringimos a análise a algumas localidades, já que nosso objetivo não era identificar cada compra de carne de tubarão, mas sim comprovar a hipótese de que tais compras são feitas de forma generalizada.

Carne de tubarão à venda no mercado de Santos, rotulada como “cação”. Foto: Philip Jacobson/Mongabay.
Como pesquisamos os portais
Depois de localizar o portal de transparência do estado ou do município a ser pesquisado, foi necessário descobrir como navegar na ferramenta de busca e se poderíamos usá-la para encontrar licitações de carne de tubarão. A tarefa nem sempre foi simples: enquanto alguns portais têm design variado, outros são bastante arcaicos, oferecendo uma funcionalidade de busca limitada. Quando possível, desenvolvemos raspadores de dados (web scrapers) personalizados, uma ferramenta para extrair dados de sites de forma automatizada. No entanto, apesar de fazermos a raspagem de dados usando a linguagem de programação Python, identificar as licitações de carne de tubarão quase nunca se resumia a simplesmente pesquisar “cação”. Eis os motivos:
- Os portais normalmente fornecem um número limitado de campos nos quais os usuários podem pesquisar as licitações (como órgão contratante, ID da licitação, ano de emissão, etc.). A lista de itens destinados à compra raramente é pesquisável. Portanto, focamos nossas buscas de palavras-chave no campo “objeto” — que resume o propósito geral da licitação (por exemplo, “compra de peixe para merenda escolar na cidade X”) — o que, geralmente, era pesquisável.
- Descobrimos que poucas licitações de carne de tubarão de fato mencionam “carne de tubarão” ou “cação” no objeto. Por isso, pesquisamos palavras-chave como “peixe”, “carne” ou “alimentação” e, só depois, examinamos os resultados para encontrar as licitações que buscávamos. Para fazer isso, tivemos que percorrer a lista de resultados e abrir cada página de licitação, uma a uma. Frequentemente, tínhamos que clicar em camadas de páginas adicionais e/ou baixar arquivos anexos para encontrar a lista de itens, na qual poderíamos ver se a carne de tubarão havia sido incluída.
- A palavra genérica usada para carne de tubarão — cação — é um sufixo comum na língua portuguesa. Portanto, mesmo que algumas licitações mencionassem cação no objeto, a busca pela palavra naquele campo geralmente resultava em um número grande de falsos positivos. A maioria dos portais também careciam de funcionalidade de pesquisa com aspas para isolar termos específicos, algo que nos teria ajudado a filtrar esses falsos positivos.
- No geral, os arquivos para serem baixados, nos quais as listas de itens eram frequentemente encontradas, apareciam em formato PDF. No entanto, também encontramos arquivos em Word, planilhas ou outros tipos, que tendiam a organizar as informações de suas próprias maneiras idiossincráticas ao longo de dezenas ou até centenas de páginas. Essa falta de consistência impediu nossa capacidade de automatizar o processo de extração de informações. Geralmente, tivemos que ler todos os arquivos para extrair as informações desejadas — não apenas para checar se “cação” estava na lista de itens, mas também para verificar dados como preço de compra, licitante vencedor e outros. Foi um exercício tedioso e demorado.
De modo geral, nossa estratégia, em primeiro lugar, consistia em confirmar que uma pesquisa específica em um determinado portal produziria resultados que incluíssem pelo menos algumas licitações de carne de tubarão. Então, se houvesse uma quantidade muito grande de resultados, usaríamos scripts Python para automatizar a verificação desses resultados, sempre em busca de menções à carne de tubarão.
Os primeiros quatro estados
Para começar, escolhemos quatro estados: São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais — os três mais populosos do país — e Paraná, o sexto mais populoso e que, segundo apuramos, estava comprando carne de tubarão. Também queríamos examinar os estados de Santa Catarina e Rio Grande do Sul, onde a pesca e o consumo de cação são generalizados — seus portais, no entanto, eram difíceis de navegar, por isso seguimos em frente.
Mesmo assim, mais tarde, identificamos aquisições de carne de tubarão por órgãos estaduais no Rio Grande do Sul através de outro site (www.portaldecompraspublicas.com.br), que compila licitações de várias jurisdições. Também identificamos compras municipais de carne de tubarão em ambos os estados do sul através de portais municipais.
Paraná
Página de busca das licitações: https://www.transparencia.pr.gov.br/pte/assunto/5/115?origem=3
Inicialmente, ficamos confusos sobre a forma de navegar nesse portal, já que havia duas maneiras de pesquisar as licitações. Entramos em contato com funcionários do estado do Paraná e fomos aconselhados a verificar tanto licitações quanto contratos no banco de dados. Após várias rodadas de pesquisa e comparação de dados, percebemos que ambos nos davam as mesmas licitações; os resultados da pesquisa de licitações, porém, forneciam informações mais detalhadas.
Esse foi um dos poucos portais no qual a lista de itens a serem adquiridos era um campo pesquisável (chamado item/palavra-chave). Usamos um scraper que pesquisou os termos “peixe” e “pescado”, tanto no campo “item” quanto no campo “objeto”, baixando cada resultado em seguida — havia mais de 900 — como um arquivo XLS separado. A busca foi desafiadora, pois o site carregava muito lentamente ou falhava ao carregar, enquanto o botão “voltar” às vezes não funcionava.
Depois disso, pesquisamos em cada arquivo por ” cação”, com um espaço na frente, e suas variações — ” cacao”, ” cacão”, ” caçao”, ” cação” — e então verificamos manualmente os que continham uma dessas palavras para confirmar se era realmente uma licitação de carne de tubarão e não um falso positivo. Para cerca de 50 licitações de carne de tubarão verificadas, registramos manualmente informações como empresa fornecedora, preço de compra, etc., em nossa própria planilha.
São Paulo
Página de busca das licitações: https://www.imprensaoficial.com.br/ENegocios/BuscaENegocios_14_1.aspx
Ao contrário do que se viu no portal do Paraná, os campos “item” e “objeto” não eram pesquisáveis no portal de São Paulo. Apesar desse obstáculo, fomos motivados a criar uma solução alternativa, porque São Paulo era o maior consumidor de carne de tubarão do país. Acabamos usando um scraper para baixar todas as licitações emitidas entre 2004 e 2024, arquivadas no portal em “Subárea: Alimentação”, uma categoria que continha pelo menos algumas licitações de carne de tubarão — confirmamos isso ao testar algumas buscas manuais e clicar nos resultados. Isso resultou em cerca de 75.000 licitações.
Nesse portal, cada licitação tinha sua própria página, geralmente com dados e documentos adicionais; era possível baixar o edital e outros documentos, como o aviso de homologação, que eram copiados e colados em páginas separadas. Fizemos outro scraper para acessar mais de 350.000 páginas de documentos das 75.000 licitações e pesquisar o conteúdo de cada página pelas palavras-chave “pescado”, “peixe”, “ cacao” e suas variações. Descobrimos que cerca de 1.000 licitações continham essas palavras-chave. Analisamos, então, cada licitação para checar se ela realmente incluía carne de tubarão (falsos positivos podiam surgir, por exemplo, de palavras como “indicação” divididas por uma quebra de linha) e, em caso afirmativo, registramos os detalhes da compra em nossa própria planilha. No final do processo, localizamos 701 licitações de carne de tubarão nesse portal.
Minas Gerais
Página de busca das licitações: https://www1.compras.mg.gov.br/processocompra/pregao/consulta/consultaPregoes.html
Esse portal foi relativamente mais fácil de utilizar, mas foi necessário recorrer a uma VPN para acessá-lo fora do Brasil. A busca no campo “objeto” usando seis palavras-chave (alimentação, alimentícios, refeições, refeição, peixes, pescados) retornou cerca de 900 licitações publicadas desde 2009, o ano mais antigo disponível no portal. Apuramos os detalhes de cada licitação e baixamos cerca de 3.000 arquivos de editais em vários formatos.



Convertemos todos os arquivos DOC e DOCX para PDF. Em seguida, escrevemos outro script Python para pesquisar dentro dos anexos e identificar aqueles com as palavras “ cacao” e “ cação”. Para arquivos que não puderam ser convertidos para PDF, fizemos o mesmo, mas manualmente. Revisamos esses documentos para verificar se mencionavam carne de tubarão e conseguimos confirmar 22 licitações.
Rio de Janeiro
Página de busca das licitações: https://compras.rj.gov.br/
Painel de busca para licitações concluídas: https://compras.rj.gov.br/EditaisLicitacoes/listar.action?origemIndex=true
Painel de busca de licitações em andamento: https://compras.rj.gov.br/EditaisLicitacoes/listar.action?origemIndex=true
Aqui focamos, novamente, no campo “objeto”. Pesquisar por “ cação”, com um espaço na frente, rendeu dois resultados, ambos licitações reais de carne de tubarão. “Peixe” e “pescado” também trouxeram alguns resultados (20 e quatro, respectivamente), alguns dos quais eram as licitações que procurávamos.

Dado o baixo número de contratos, testamos outros termos de busca e percebemos que poderíamos usar a palavra-chave “aliment”, pois ela retornava licitações com palavras como alimentos, alimentação e alimentícios no objeto, para encontrar licitações adicionais. Esse termo provou ser o mais frutífero no geral. (“Congelado”, “refeiç” e “carne” também nos ajudaram a encontrar licitações de carne de tubarão em alguns portais).
A busca por “aliment” trouxe 467 resultados. Esse portal permitia ao usuário exportar os resultados da pesquisa como uma planilha onde os itens de cada licitação eram visíveis e pesquisáveis, permitindo-nos determinar facilmente quais tinham carne de tubarão. Para a maioria dos portais, foi mais eficiente pesquisá-los manualmente. O processo de busca ocorreu da seguinte forma:
- Pesquisar por “aliment” no campo objeto.
- Configurar o portal para mostrar 100 resultados por página (a quantidade máxima).
- Exportar os dados para uma planilha.

- Ir para a segunda página de resultados (101-200) e exportar esses dados para outra planilha. Repetir para cada página de resultados.

- Para cada planilha exportada, vá para a aba intitulada “Itens/Lote” e faça uma pesquisa de texto por ” cacao” (importante: com um espaço à frente) para identificar quaisquer licitações de carne de tubarão.

Dessa forma, identificamos licitações com cação na lista de itens. Para cada uma delas, encontramos uma página correspondente no portal, confirmamos se a licitação havia avançado para a fase de execução (algumas foram canceladas antes da fase de adjudicação e, portanto, omitidas de nossos dados) e, em caso afirmativo, registramos os outros dados que queríamos, como nome do fornecedor, preço final, valor final, etc. Isso muitas vezes envolvia baixar e revisar documentos, como o edital.
Nossa experiência com esse portal nos mostrou que automatizar o processo com scrapers e scripts de codificação só fazia sentido se houvesse resultados suficientes, como no caso do estado de São Paulo. Só assim nós realmente economizaríamos tempo. Para a maioria dos portais, parecia mais eficiente pesquisá-los manualmente; então, foi isso que fizemos a partir desse ponto.
Outras fontes de dados
Além desses quatro estados, analisamos manualmente dezenas de outros portais de transparência municipais e estaduais. Para obter uma lista dos portais onde encontramos licitações de carne de tubarão, consulte a “List of data sources” que aparece nesta planilha.
Nosso método de escolha de portais adicionais para análise não foi sistemático. Tentamos examinar as maiores cidades e estados do país, dando uma olhada rápida em seus portais para ver se conseguíamos identificar as licitações desejadas.
O Google, com sua funcionalidade de pesquisa avançada, provou ser útil na identificação de licitações de carne de tubarão, muitas vezes em cidades pequenas onde não teríamos procurado de outra forma. Pesquisas no Google como esta (1), esta (2) e esta (3) geraram links para licitações em muitas localidades e, quando encontrávamos uma licitação de carne de tubarão dessa forma, podíamos ir diretamente ao portal para aprofundar a busca..
Compilando os destinatários
Além de tentar provar que as aquisições públicas de carne de tubarão eram generalizadas, também queríamos determinar, de forma precisa, onde ela estava sendo servida.
Algumas licitações deixavam isso claro no campo “objeto”. Por exemplo, cada licitação do sistema prisional do estado de São Paulo era criada, geralmente, para comprar alimentos para uma única penitenciária — então, se a carne de tubarão aparecesse na lista de itens, era possível saber imediatamente qual instituição a receberia. A maioria das licitações, porém, adquiria alimentos para vários locais ao mesmo tempo e, em alguns casos, para diferentes tipos de instituições supervisionadas por órgãos governamentais distintos. Nesses casos, não queríamos apenas confirmar que a licitação incluía carne de tubarão — também tentávamos identificar as escolas, hospitais e outras instituições específicas para as quais a carne era comprada.
Em muitos casos, era mais fácil dizer do que fazer. Eis os fatores que complicavam a tarefa:
- A lista de unidades destinatárias nem sempre era enviada para cada licitação.
- Quando disponível, a lista de destinatários geralmente podia ser encontrada em algum lugar do edital ou termo de referência, mas esses documentos poderiam conter centenas de páginas com formatação inconsistente.
- Mesmo quando as unidades receptoras eram nomeadas, nem sempre ficava claro quais instituições ou departamentos recebiam quais alimentos. Em alguns casos, a licitação especificava quais produtos eram destinados a quais instalações — o portal do Paraná, por exemplo, era muito claro quanto a isso. Escrevemos para as agências contratantes responsáveis por algumas dezenas das maiores licitações para perguntar quais unidades receberam carne de tubarão nas licitações que encontramos (entre outras perguntas), mas a maioria não respondeu. Se não pudéssemos afirmar com certeza quais unidades receberam a carne do animal em uma determinada licitação, incluímos todas as unidades nomeadas em nossa base de dados de destinatários. Por esse motivo, essa lista deve ser considerada uma relação de locais que, potencialmente, e não definitivamente, receberam o alimento que investigávamos.
Depois de obter as listas de destinatários das várias propostas, foi necessário extrair os nomes das unidades para incluí-los em nossa base de dados principal. Como as listas geralmente estavam em formato PDF ou, menos frequentemente, em DOC, tivemos que usar ferramentas para convertê-las em um formato que pudesse ser automatizado, como arquivos CSV (valores separados por vírgulas). Usamos uma combinação de ferramentas para fazer isso: Google Drive (abrindo arquivos PDF com o Google Docs), Tabula (código aberto) e ExtractTable (uma ferramenta paga).
De maneira geral, as listas eram confusas. Por exemplo: algumas incluíam apenas os nomes das unidades, enquanto outras tinham detalhes como endereços e informações de contato. Essas especificidades poderiam estar escritas em uma tabela ou em uma única linha de texto. Em alguns casos, tivemos que dividir o nome, endereço, bairro e outros detalhes antes que a unidade pudesse ser registrada em nossa lista principal — publicada como uma tabela pesquisável na parte inferior da primeira reportagem.
Também tivemos que remover duplicatas da nossa lista principal, pois nosso objetivo era contar o número de destinatários únicos, e muitos apareciam em várias licitações. Em alguns casos, o mesmo destinatário aparecia em diferentes compras públicas com seu nome escrito de forma ligeiramente diferente ou com um erro ortográfico no nome, o que fazia com que parecesse um destinatário diferente.
Havia,também, entidades distintas com nomes muito semelhantes; duas escolas com o nome da mesma figura pública em cidades diferentes, por exemplo. Tivemos que garantir que nossas contas não estivessem duplicadas.
Para resolver isso, usamos a função de agrupamento do OpenRefine, uma ferramenta de código aberto projetada para trabalhar com dados desorganizados. Com ela agrupamos destinatários com nomes semelhantes. Em seguida, comparamos manualmente seus endereços, bairros, municípios e estados para determinar se eram duplicatas. Foi um processo meticuloso, mas necessário para garantir a integridade dos nossos dados. No total, identificamos 5.900 destinatários únicos.
Em seguida, classificamos manualmente essas unidades em várias categorias: escola, prisão, saúde, militar, serviços sociais, polícia e outras, etapa útil para fazer a visualização de dados.

Para as 5.391 escolas que identificamos, queríamos saber, também, quantas ofereciam educação infantil, uma vez que os metais pesados que tendem a se acumular nos tecidos dos tubarões (e outros predadores de topo de cadeia) representam riscos específicos para crianças. No fim, não pudemos resolver esse problema completamente. Como as escolas públicas podem ser administradas por órgãos municipais, estaduais ou federais, é preciso verificar as escolas uma a uma.
Primeiro, tentamos inserir os nomes das escolas em ferramentas de modelos de linguagem ampla (LLMs), como ChatGPT Pro, Claude e Google Gemini. Pedimos ao LLM para pesquisar cada escola na internet, visitar sites que mencionassem a escola, ler os sites para produzir um resumo da instituição e determinar se ela oferecia educação infantil. Os resultados não foram confiáveis; percebemos que os LLMs criavam sites falsos ou confundiam uma escola com outra.
Por fim, criamos uma solução mais rápida que permitia verificar um grande número de escolas, eliminando a necessidade de conferências individuais. A maioria dos nomes das escolas tinha uma sigla indicando o tipo de instituição, e algumas dessas siglas indicavam a oferta de educação infantil. Por exemplo, Cmei significa Centro Municipal de Educação Infantil; o mesmo vale para Emeif (Escola Municipal de Educação Infantil e Fundamental); e Umei (Unidade Municipal de Educação Infantil). Os nomes das escolas com a palavra creche também eram destinados a crianças em seus primeiros anos de vida. Com base nessas siglas e em algumas pesquisas complementares no Google, identificamos 1.153 escolas voltadas para crianças pequenas entre as 5.391 escolas da lista de nossos destinatários. Pode haver um número maior, mas não tivemos tempo para verificar. Mesmo assim, os dados mostram claramente que o envio de carne de tubarão para centros de educação infantil é generalizado. Isso foi um fato importante nas entrevistas com autoridades governamentais que fizemos após a coleta dos dados.
Limitações
Nossa lista final de 1.012 licitações de carne de tubarão deve ser considerada um valor mínimo, sendo provável que o número real seja significativamente maior. As principais razões são:
- Não tivemos capacidade para analisar os portais de todos os estados e municípios do Brasil.
- Mesmo nos portais que pesquisamos, pode haver muitos outros editais de licitação de carne de tubarão que não encontramos.
- Nem todos os portais publicaram editais de licitação a partir de 2004. Por exemplo, o portal de Minas Gerais só tinha editais a partir de 2009.
- Encontramos algumas licitações que buscavam adquirir “peixe” sem especificar o tipo, levantando a possibilidade de que carne de tubarão também tenha sido comprada por meio dessas licitações.
- Algumas licitações tinham itens solicitando “cação OU tilápia”, “cação OU pescada”, etc. As licitações para cerca de 20 hospitais da agência de saúde do estado de Minas Gerais eram assim, por exemplo. Omitimos essas licitações de nosso conjunto de dados final.
- As licitações em nosso conjunto de dados são quase todas compras diretas, nas quais uma agência solicita uma quantidade específica de carne de tubarão. Mas também encontramos muitas licitações usando o modelo de terceirização, em que uma empresa é contratada para fornecer refeições para um sistema escolar ou uma prisão durante um determinado período. Em alguns casos, é possível ver no edital ou nos termos de referência que a carne de tubarão faz parte do cardápio, e incluímos essas licitações em nosso banco de dados. Em muitos casos, porém, as licitações terceirizadas não apresentavam informações claras sobre o que seria servido. Muitas vezes, por exemplo, elas incluíam “peixe” sem mencionar o tipo.
De outra perspectiva, as aproximadamente 5.400 toneladas métricas de carne de tubarão das 1.012 licitações em nossa base de dados são um limite máximo, pois as quantidades das compras representam os volumes máximos de fornecimento, e as entregas reais ao longo do período do contrato podem ser menores ou nulas. Alguns portais permitem baixar os avisos de entrega; muitos outros, não. Mesmo que estivessem disponíveis, havia centenas de avisos para uma única licitação, por isso não as analisamos como parte da investigação.
As 1.012 licitações em nosso banco de dados incluem apenas os editais que avançaram para a fase de execução, na qual um licitante vencedor foi escolhido para fornecer uma determinada quantidade de carne de tubarão a um determinado preço. Encontramos muitos editais que incluíam cação, mas que foram cancelados por algum motivo ou nos quais nenhum fornecedor foi escolhido para o item. Por isso, também não foram incluídos.
Para o número relativamente pequeno de licitações que apresentavam informações incompletas em termos de quantidade encomendada, valor pago e/ou unidades destinatárias, incluímos essas informações em nosso conjunto de dados, mas excluímos as informações ausentes de nossa análise.
Outras questões foram analisadas pela equipe à medida que surgiram. Por exemplo, a maior licitação em nosso conjunto de dados, emitida em 2022 pelo departamento de educação do Paraná para adquirir carne de tubarão e outros alimentos para 2.250 escolas, tinha uma lista confusa de unidades receptoras. Podíamos ver quantas escolas havia, mas não foi possível ler seus nomes. Portanto, adicionamos 2.250 escolas à nossa contagem de unidades que potencialmente receberam carne de tubarão, mas não pudemos avaliar quantas ofereciam serviços de educação infantil. Nesse caso, o chefe do departamento confirmou por e-mail que a carne de tubarão foi adquirida para todas as 2.250 escolas.
Nossa análise não incluiu o portal de transparência do governo federal. Em vez disso, consultamos uma análise separada da Sea Shepherd, elaborada de forma simultânea à nossa investigação, que analisou as compras federais realizadas entre 2021 e 2024 e encontrou mais 866 licitações de carne de tubarão, totalizando 231 toneladas métricas de cação. Nosso conjunto de dados de licitações municipais e estaduais não inclui essas compras.

As lições aprendidas
Muitos governos divulgam seus portais como prova de transparência e responsabilidade. No entanto, se os portais não forem fáceis de usar, são mera fachada. Nossa experiência na coleta de dados de compras públicas em mais de 60 portais de transparência municipais e estaduais do país revelou vários problemas, como carregamento lento, usabilidade deficiente (funções de pesquisa limitadas), interfaces confusas, dados inconsistentes e ausência de opções para baixar vários arquivos em lotes. Se um jornalista ou pesquisador quiser compilar dados desses bancos de dados, deverá reservar o tempo e os recursos necessários para descobrir como lidar com cada portal; essas operações costumam ser mais difíceis do que parecem.
Os LLMs ainda não são confiáveis quando se trata de tarefas complexas e com várias etapas. Nossa tentativa de usar LLMs para verificar se uma escola oferece educação infantil, por exemplo, não produziu resultados satisfatórios, apesar de iterarmos as solicitações por meio de interfaces de chat e interfaces de programação de aplicações (APIs), que traduzem solicitações entre diferentes sistemas. Embora a maioria dos resultados parecesse precisa, ainda havia erros, o que poderia ter afetado a precisão de nossa análise.
Usamos o ChatGPT Pro para uma tarefa simples, que era entender as diferentes siglas nos nomes das escolas e se o serviço de educação infantil é oferecido por diferentes categorias de escolas. Em seguida, revisamos os resultados e descobrimos que eles eram precisos.
Embora tenha sido possível determinar que as licitações de carne de tubarão são, de fato, comuns no Brasil, e quais órgãos governamentais e instituições públicas as estão comprando e recebendo, não ficou claro nos portais quais espécies estavam sendo adquiridas. A grande maioria das licitações solicitava simplesmente cação, sem mais especificações. Isso por si só se tornou uma descoberta importante em nossa reportagem: especialistas nos disseram que a falta de clareza no processo de licitação significava que espécies ameaçadas de extinção poderiam fazer parte das compras do governo.
Ao analisarmos as licitações, também percebemos que algumas agências estaduais do Rio Grande do Sul solicitavam peixe-anjo — uma referência aos tubarões-anjo (gênero Squatina), uma espécie ameaçada de extinção. Isso se tornou o tema de outra reportagem. Alguns funcionários públicos responsáveis por essas compras nos disseram que não sabiam que estavam comprando tubarão-anjo e que não o comprariam mais. Alguns nutricionistas do governo também nos disseram que não sabiam que “cação” significava tubarão. A palavra tubarão, por sinal, praticamente nunca foi mencionada nessas licitações.
Escrevemos este texto e explicamos nossa metodologia em detalhes com a esperança de que outros jornalistas que atuam em diferentes estados e municípios do Brasil — e, talvez, em outros países onde o consumo de carne de tubarão também é conhecido por ser generalizado — possam replicar ou adaptar essa abordagem para investigar a compra de carne do animal (ou de outros produtos potencialmente problemáticos nas licitações públicas). Caso você tenha dúvidas sobre a metodologia utilizada, entre em contato conosco.
Banner image: Carne de tubarão é preparada para distribuição na Ceagesp, na cidade de São Paulo, o maior centro de abastecimento de alimentos da América Latina. Foto: Philip Jacobson/Mongabay.
Estado do Rio proíbe carne de tubarão em merenda escolar por riscos à saúde e ao meio ambiente
