Iniciativas unindo cientistas e comunidades locais trouxeram novas esperanças de sobrevivência para quatro espécies da fauna brasileira.
No Paraná, a população de onças-pintadas do Parque Nacional do Iguaçu dobrou depois que fazendeiros pararam de matar os felinos que entram em suas propriedades.
Pesquisas de campo e relatos de moradores revelaram que a anta nunca deixou de circular pela Caatinga, onde era considerada extinta.
Depois de décadas, papagaios-chauá voltaram a habitar uma área de Mata Atlântica no Alagoas; e mais de 180 países aprovaram regras mais duras para o comércio de bichos-preguiça visados pelo tráfico de animais.
Um quarto das espécies animais do mundo já sofre algum tipo de ameaça à sua sobrevivência, segundo a mais recente Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Algumas espécies brasileiras, no entanto, mostraram sinais animadores em 2025, graças a iniciativas que unem cientistas e comunidades locais. A Mongabay noticiou esses avanços; veja a seguir.
Campo e ciência a favor da onça
No Parque Nacional do Iguaçu, no Paraná, a população de onças-pintadas (Panthera onca) dobrou depois que a equipe do Projeto Onças do Iguaçu conseguiu uma trégua entre felinos e produtores rurais. Antes, era comum os fazendeiros matarem os animais como retaliação a eventuais ataques a animais de criação. Graças às orientações da equipe liderada pela bióloga Yara Barros, no entanto, os produtores aprenderam a manter as onças longe das fazendas usando métodos simples, como instalando dispositivos luminosos, impedindo que o gado se aproxime das áreas de mata e cercando galinhas, ovelhas e cabras durante a noite.
“Hoje, quando há um avistamento de uma onça ou uma predação, os proprietários nos comunicam, em vez de matar o animal”, conta Barros.
Outra esperança para a onça-pintada vem de dentro dos laboratórios do grupo de pesquisa Reprocon, no Mato Grosso do Sul. Ali, cientistas usam pedacinhos de tecido dos felinos para produzir embriões, que no futuro podem dar origem a animais clonados e aumentar a variabilidade genética de populações cada vez mais isoladas pelo desmatamento.
Anta na Caatinga
O maior mamífero terrestre do país também tem motivos para comemorar. Por anos, a anta (Tapirus terrestris) foi considerada extinta na Caatinga, mas um conjunto de expedições científicas mostrou que isso provavelmente nunca passou de fake news.
Entre 2023 e 2025, cientistas ligados ao IPÊ (Instituto de Pesquisas Ecológicas) encontraram pegadas, fezes e até um registro da anta feito por armadilha fotográfica em regiões de Minas Gerais, Bahia e Piauí. Mais importante do que as evidências científicas, no entanto, foi o relato de moradores da região — que nunca deixaram de avistar os animais.
“Muitas das pessoas que entrevistamos ao longo deste trabalho foram bastante categóricas ao afirmar que a anta sempre esteve na Caatinga, que nunca houve extinção”, afirma Patricia Medici, engenheira florestal e coordenadora de pesquisas do IPÊ.

Papagaios e preguiças
Em Alagoas, vinte papagaios-chauá (Amazona rhodocorytha) voltaram a habitar uma área de Mata Atlântica de onde estavam desaparecidos há décadas. Conhecidas pela plumagem verde e vermelha, as aves criadas em viveiros foram reintroduzidas na natureza em uma reserva particular em Coruripe, no sul do estado. A ave é endêmica de uma estreita faixa de floresta no Sudeste e no Nordeste.
O ano de 2025 também terminou com uma boa notícia para o bicho-preguiça. Em dezembro, os 185 países signatários da Convenção sobre o Comércio Internacional de Espécies da Fauna e Flora Selvagens Ameaçadas de Extinção (Cites) concordaram em implementar regras mais duras para o comércio de duas espécies de preguiça (Choloepus didactylus e Choloepus hoffmanni), cada vez mais ameaçadas pelo tráfico de animais silvestres.

Imagem do banner: Um projeto no Paraná apaziguou a guerra entre onças e fazendeiros, dobrando a população de felinos. Foto: Leonardo Ramos via Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0).