Segundo relatórios globais, menos de 1% do financiamento climático internacional chega aos povos indígenas e às comunidades tradicionais, apesar de seus papéis de destaque na conservação do meio ambiente, sobretudo na Amazônia.
Além da falta de acesso a opções convencionais de financiamento, muitas iniciativas permanecem isoladas pela burocracia e pelas dificuldades de adaptar os requisitos financeiros à dinâmica comunitária.
Em resposta a esses dilemas, diferentes fundos sob gestão indígena e tradicional buscam soluções. Essas organizações atuam para estruturar novos projetos, alinhando os processos financeiros à realidade das comunidades locais, de modo a garantir a autonomia de seus representantes.
Em 2025, lideranças de fundos indígenas enxergam na COP 30, em Belém, uma janela de oportunidade para atrair a atenção do mundo e buscar novos caminhos em matéria de investimento.
Aos olhos da população brasileira, os povos indígenas são considerados os principais protetores da natureza. Esse é um dos dados revelados por uma nova pesquisa do Greenpeace, divulgada na metade de outubro: segundo o estudo, quando o assunto é cuidar das florestas, 80% dos entrevistados confiam mais nas ações de grupos originários do que nos esforços de qualquer outra instituição.
No entanto, o fluxo global do dinheiro — do qual a proteção ambiental também depende para se manter em pé — ainda segue uma dinâmica distinta.
Em nível mundial, os povos indígenas e as comunidades tradicionais, como os quilombolas, recebem menos de 1% do total destinado a projetos de preservação ambiental e de mitigação das mudanças climáticas. O número, que evidencia um profundo paradoxo, consta em um relatório de 2021 da organização Rainforest Foundation Norway (RFN).
Segundo a ONG norueguesa, a falta de capacidade de gerenciar esses repasses financeiros figura entre os principais motivos pelos quais o dinheiro não chega às mãos desses grupos. Sem a devida estrutura administrativa para lidar com o capital, argumentam, muitas comunidades brasileiras se mantêm atreladas ao gerenciamento de outras organizações — como ONGs internacionais e até mesmo iniciativas sob o poder do Estado.
A análise mostra que esse modelo disperso apresenta pontas soltas. Um dos maiores impasses diz respeito à dependência de intermediários: devido aos altos custos das operações, o montante total que de fato chega aos grupos tradicionais acaba reduzido. Ao mesmo tempo, a estrutura convencional de financiamento prevê etapas que não condizem com a realidade da vida tradicional — como prazos muito rígidos e procedimentos burocráticos —, o que limita a autonomia de seus representantes.
Em resposta a essas lacunas, o Brasil tem testemunhado o surgimento de diferentes fundos comunitários indígenas, que entram em cena para “descomplicar” processos e viabilizar o acesso ao dinheiro que tanto tarda em chegar a grupos historicamente marginalizados. Essas ações — como o Fundo Indígena do Rio Negro (Firn), o Fundo Rutî, o Fundo Timbira e o Podáali — contam com estrutura institucional para gerir os valores doados e atuam sob a liderança de representantes comunitários, sobretudo em regiões da Amazônia.

Pensadas por (e para) grupos tradicionais, essas iniciativas buscam captar recursos de financiadores externos para investir em projetos voltados à preservação socioambiental. O modelo de financiamento direto, do qual dependem, está em ascensão no Brasil e no resto do mundo, segundo suas lideranças. A maior parte das iniciativas surgiu no contexto da pandemia de coronavírus, enquanto outras foram fundadas em tempos recentes — como é o caso do Fundo Jaguatá, associado à Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib).
Com a realização da Cúpula Climática da ONU (COP30), em Belém, organizações e autoridades enxergam uma janela de oportunidade para pedir mais apoio à ação ambiental sob a gestão de povos tradicionais. Naturalmente visado por reunir tomadores de decisão do mundo inteiro, o evento também gera expectativa pelo lançamento de projetos cercados de cifras elevadas, como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF, na sigla em inglês) — cujo aporte inicial já superou 5,5 bilhões de dólares.
Os desafios, no entanto, são inúmeros. Segundo Torbjørn Gjefsen, especialista em financiamento para povos indígenas e comunidades locais da RFN, ainda que “um importante trabalho de base já tenha sido feito”, a “grande virada” no campo do financiamento ainda não ocorreu.
“É importante reconhecer que leva um tempo para desenvolver esse tipo de estrutura e demonstrar que ela funciona”, disse eleà Mongabay. A fala cautelosa de Gjefsen é ouvida à medida que o volume de doações para povos indígenas e comunidades tradicionais permanece em números tímidos: dados atualizados da mesma RFN revelaram que o total de recursos aumentou — mas ainda se mantém abaixo de 1%.
Na linha de frente, fundos indígenas buscam ampliar protagonismo
Neste contexto desafiador, diferentes campanhas foram lançadas nos meses anteriores à COP30. Uma delas ganhou o nome de “A Resposta Somos Nós” e propõe uma série de ações, sob liderança indígena, para enfrentar os desafios ambientais. A rede define o “acesso direto ao financiamento climático” como um dos seus pilares.
“Os recursos para enfrentar a crise climática devem ir direto para quem está na linha de frente: povos da floresta, das águas, do campo e das cidades. Nada de burocracia colonial ou intermediários que desconhecem os territórios. Os repasses climáticos devem ser diretos aos fundos territoriais dos povos”, diz o projeto, criado em 2024 pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab).
Francineide Marinho, gerente do Firn, explica que, por meio da atuação dos fundos, os grupos indígenas também buscam ser valorizados por seu conhecimento e pelas ferramentas de que dispõem para cuidar da natureza — ao mesmo tempo em que pretendem confrontar o rótulo de “improdutividade” que recai sobre a proteção territorial que exercem.
“Quanto mais esses projetos caminham, mais as pessoas nos conhecem — eliminando aquele estigma de ‘território parado’”, disse a gerente à Mongabay. “Nós sempre trabalhamos e produzimos nesse território e agora isso vai ficar [ainda] mais evidente.”

A rede conta com outras iniciativas, como o Fundo Timbira, que envolve o trabalho dos povos Apinajé, Krahô, Krikati e Gavião. Em vez de utilizar o dinheiro enviado por financiadores internacionais, como costuma ocorrer, o projeto foi constituído a partir de compensações de longo prazo: em 2012, indígenas foram indenizados pelos danos causados pela construção da Usina Hidrelétrica de Estreito, cuja área de influência direta compreende parte dos municípios de Estreito, no Maranhão, e de Aguiarnópolis, no Tocantins — no dois casos, ocupando áreas biodiversas.
Segundo Jonas Gavião, membro do comitê executivo da agência implementadora do Fundo Timbira, a chegada de novos recursos pode expandir o trabalho que já é realizado pelo projeto. “A gente está na ponta [do processo] e recebe muitos pedidos e muitas demandas. Tendo recursos, podemos atender nosso povo e nossa comunidade com mais frequência e mais atenção.” Gavião destaca ações locais voltadas ao combate à insegurança alimentar, bem como medidas de estímulo à cultura e à proteção de seus territórios.
A busca pela consolidação de projetos financeiros vem acompanhada de uma preocupação indispensável aos povos indígenas: estruturar soluções financeiras sem desconsiderar as particularidades comunitárias. Essa é uma das preocupações do Podáali – Fundo Indígena da Amazônia Brasileira, um dos primeiros mecanismos de abrangência amazônica para a captação e a redistribuição de recursos.
Rose Meire Apurinã, vice-diretora da organização, disse à Mongabay que a criação de fundos indígenas significa “desafiar a lógica” dos modelos convencionais de financiamento socioambiental. “Como a gente consegue fazer processos que considerem e reconheçam as formas próprias de organização social dos povos indígenas, garantidas pela Constituição?”, disse Rose , explicando que o trabalho dos fundos “deve responder a essas perguntas”.
Ela também cita o apoio a organizações e coletivos indígenas que “não possuem CPNJ”.
Josimara Baré, coordenadora do Fundo Indígena Rutî, iniciativa do Conselho Indígena de Roraima (CIR), vai além. “Eu diria que os fundos não são apenas um mecanismo ou uma ferramenta. Eles são uma estratégia de resistência”, disse. “[Historicamente] a gente só recebe, só aceita. Outras pessoas falam e fazem por nós. Esse contexto está mudando. Nós sabemos gerir os nossos próprios recursos e nós vamos construir os nossos próprios mecanismos financeiros. Não estamos reinventando a roda: estamos mudando os processos.”

Um futuro de obstáculos e expectativas
Nas palavras da vice-diretora do Podáali, grande parte dos fundos indígenas ainda sofre com a falta de confiança por parte dos doadores — muitos, explica, ainda não estão habituados aos novos modelos de financiamento. Como solução, ela defende a “flexibilização” de alguns prazos e o estabelecimento de novos cronogramas para aprimorar o processo.
“Assim como um doador apresenta suas normas, nós apresentamos as nossas”, disse.
A lista de entraves é longa. Representantes consultados pela Mongabay explicaram que muitas comunidades enfrentam o desafio de transmitir o conhecimento sobre os fundos às próprias comunidades, sobretudo em áreas isoladas. Além disso, há empecilhos tributários, uma vez que o funcionamento de muitos fundos desafia o padrão contábil tradicional. Outros projetos também sofrem com a falta de experiência e de repertório de gestão.
Francineide Marinho, do Firn, complementa dizendo que muitos territórios estão “distantes de grandes centros urbanos”. Em muitos casos, para colocar projetos em prática seguindo as exigências dos financiadores, são necessários vários dias de viagem de barco até uma cidade — onde só assim será possível obter produtos ou serviços com nota fiscal.
Dinaman Tuxá, coordenador-executivo da Apib, apresenta uma análise mais otimista.
Apesar de reconhecer os obstáculos que ainda estão no caminho, ele diz que já é possível observar transformações na vida das comunidades indígenas a partir das atividades realizadas pelos fundos locais.
Ele menciona avanços em alguns processos de demarcação de terras, cuja realização foi facilitada pelo financiamento parcial por parte das iniciativas indígenas — que agiram diante da falta de recursos do poder público. Dinaman também destaca a rápida atuação dos fundos indígenas em momentos emergenciais, como no enfrentamento a enchentes: “Na crise climática, há várias ações extremas [eventos extremos]. Quando se instala uma crise, os fundos dão uma resposta imediata.”
Os fundos consultados pela reportagem disseram que, até o momento, não contam com qualquer apoio financeiro por parte do governo, seja em nível federal, estadual ou municipal. Segundo seus representantes, o único contato com entidades públicas ocorre por meio do diálogo sobre políticas públicas.
Questionados pela Mongabay, o Ministério dos Povos Indígenas (MPI) e a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) manifestaram apoio aos fundos, mas confirmaram que não há repasses financeiros a essas entidades.
Segundo o MPI, no entanto, a relação com os fundos indígenas tem tudo para se estreitar durante a COP30, a partir do lançamento do Vítuke, um novo mecanismo financeiro originário. Criada em parceria com o Fundo Brasileiro para a Biodiversidade (Funbio), a plataforma se propõe a “canalizar recursos de forma contínua e adequada para o fortalecimento institucional de fundos e organizações indígenas”, disseram, por e-mail.
Já a Funai, por meio de sua diretora de Gestão Ambiental e Territorial, Lúcia Alberta Baré, disse que o governo é “parceiro dos povos indígenas e que as iniciativas se somam aos programas do Estado”.

“COP é oportunidade de formar novas alianças”, dizem lideranças indígenas
Para muitos representantes dos povos indígenas da Amazônia, a realização da COP30 em um estado integrante do bioma tropical tem grande valor. “É algo bem simbólico: trazer o mundo para o pulmão do mundo”, disse Rose , do Podáali.
Segundo a líder indígena, o evento pode gerar uma mudança de perspectivas. “O mundo costuma olhar a Amazônia de cima — vê muito verde e acha que está tudo bem, mas não consegue ver que, por trás desse verde, há muita fumaça, muita invasão, muito rio contaminado. E que também há pessoas que trabalham e lutam pela vida.”
A participação ativa das comunidades locais é amplamente vista como uma das principais vantagens por trás da escolha da sede da cúpula climática. Fruto de uma articulação entre o MPI, a Apib, o governo do Pará e a Universidade Federal do Pará (UFPA), a chamada “Aldeia COP” dispõe de estrutura para hospedar até 3 mil representantes indígenas. O evento também já conta com milhares de lideranças de nove países amazônicos.
Nesse sentido, Francineide Marinho acredita que o evento pode “aumentar a visibilidade” dos projetos realizados na Amazônia. “Eu espero que olhem mais para nós, que já estamos trabalhando com essa questão da destinação de recursos diretos. E que vejam que eles têm muito a aprender conosco. Eu espero que, no mínimo, nos enxerguem e nos ouçam. A COP é muito focada em soluções; e a solução somos nós.”

Josimara , do Fundo Rutî, encara tudo com cautela. Em entrevista, ela repete um discurso que aponta diversas inconsistências na retórica climática que cerca o evento, que ocorre enquanto terras indígenas sofrem com o avanço da mineração e a Amazônia arde em razão de secas prolongadas e de uma epidemia de incêndios.
“As COPs são lugares para falar muito e fazer pouco”, disse ela .
As diferentes lideranças à frente dos fundos brasileiros concordam que todo o sistema se fortalecerá à medida que seus projetos compartilhem o mesmo caminho. Do outro lado do mundo, Torbjørn Gjefsen, da RFN, também projeta um futuro mais claro entre as iniciativas brasileiras e os potenciais doadores. Segundo ele, novos projetos “têm o potencial de mudar muitas coisas”.
“Pode-se mudar o equilíbrio de poder entre o doador, o financiador e os próprios povos indígenas, garantindo que eles possam ter mais poder de decisão sobre como — e o que — financiar.”
Josimara Baré, por sua vez, defende que é preciso dar um “salto de fé” ao falar das novas formas de financiar projetos. “A gente só consegue fazer grandes mudanças se está aberto a grandes riscos. É preciso se arriscar. Não dá para fazer mais do mesmo”, disse.
Imagem do banner: Uma horta comunitária administrada por indígenas do Fundo Rutî. Foto: Divulgação/Fundo Rutî.