Apesar de uma lei federal de proteção, a Mata Atlântica perdeu, a cada ano entre 2010 e 2020, uma área de floresta madura equivalente ao tamanho de Aracaju, com a maior parte do desmatamento ocorrendo ilegalmente em terras privadas destinadas à agricultura.
A Mata Atlântica é uma importante zona de alta biodiversidadede, que sustenta 70% do PIB do Brasil e abriga quase três quartos da população do país.
Grandes empresas do agronegócio, incluindo COFCO, Bunge e Cargill, foram identificadas como associadas ao desmatamento da Mata Atlântica em suas cadeias de abastecimento de soja, sobretudo nas áreas de transição com o Cerrado e a Caatinga.
Histórias de sucesso em conservação, como a recuperação do mico-leão-preto no oeste paulista a partir do plantio de corredores florestais, demonstram que a restauração da Mata Atlântica é possível.
Em 1970, os cientistas já haviam passado 65 anos acreditando que o mico-leão-preto (Leontopithecus chrysopygus) estava extinto. Naquele ano, no entanto, moradores locais encontraram uma pequena população da espécie lutando pela sobrevivência em um trecho preservado de Mata Atlântica no oeste paulista. Após décadas de esforços, cerca de 1.800 desses primatas hoje se deslocam por corredores florestais restaurados. É uma rara história de sucesso em um dos ecossistemas mais ameaçados do mundo.
Mas, apesar de conquistas como essa na conservação, pesquisas recentes revelam uma realidade preocupante: a Mata Atlântica brasileira continua perdendo milhares de hectares de floresta madura a cada ano, mesmo sendo protegida por lei federal. A Lei da Mata Atlântica permite o desmatamento apenas em circunstâncias excepcionais, o que significa que a maior parte desse desmatamento é ilegal.

“É realmente alarmante constatar que ainda estamos perdendo grandes áreas de floresta madura”, disse Luis Fernando Guedes Pinto, diretor executivo da Fundação SOS Mata Atlântica à Mongabay. É especialmente preocupante, acrescentou ele, “considerando que a Mata Atlântica é uma área crítica de biodiversidade, a floresta tropical mais devastada do Brasil, uma das mais devastadas do mundo, e protegida por uma lei específica”.
Uma nova pesquisa publicada na revista Nature Sustainability analisou mais de 10 mil eventos de desmatamento na Mata Atlântica entre 2010 e 2020. O estudo constatou que o ritmo do desmatamento permaneceu estável, com uma taxa média anual de 18.629 hectares — o equivalente à área do município de Aracaju, capital de Sergipe, perdida a cada ano — ocorrendo principalmente em terras privadas, em pequenas áreas e, sobretudo, para fins agrícolas.
O bioma da Mata Atlântica originalmente cobria vastas áreas da costa brasileira e se estendia ao sul até o Paraguai e a Argentina. Hoje, de acordo com o estudo, estima-se que apenas 24% de sua cobertura florestal original permaneça.

Um tesouro da biodiversidade sob pressão
“As pessoas [no exterior] conhecem a Amazônia, mas não ouviram falar da floresta da costa atlântica, que é um ambiente extraordinariamente rico, com espécies que vivem ali e exclusivamente ali”, disse Stuart Pimm, renomado biólogo conservacionista da Duke University, nos Estados Unidos, que revisou o estudo, mas não participou da pesquisa, à Mongabay. “A Mata Atlântica é uma área crítica de biodiversidade. Ela apresenta um nível extremamente alto de endemismo entre árvores, mamíferos, aves e anfíbios.”
A Mata Atlântica abriga cerca de 5% de todas as espécies de vertebrados da Terra, incluindo mais de mil espécies de aves, 450 de anfíbios, 300 de répteis e 20 mil espécies de plantas vasculares, cerca de 8 mil das quais são endêmicas, ou seja, não encontradas em nenhum outro local. A floresta também abriga cerca de 300 espécies de mamíferos, incluindo macacos-aranha (Brachyteles spp.) e preguiças-de-coleira (Bradypus torquatus).
Quase três quartos da população brasileira vive nesse bioma, principalmente em áreas nas quais a floresta foi destruída. A região também é responsável por cerca de 70% do PIB nacional, devido à concentração de cidades, indústrias e cultivos agrícolas. A floresta fornece serviços essenciais, incluindo regulação climática e hídrica, controle da erosão, polinização e controle de pragas. “Todos os anos, nossas epidemias de dengue, zika, chikungunya e febre amarela também são consequência da perda de nossa floresta, incluindo a Mata Atlântica”, disse Guedes Pinto, principal autor do novo estudo.
![The southern tiger cat, Leopardus guttulus, also known as the Atlantic Forest tiger cat, was only declared a separate species in 2013. This species faces a host of threats, including loss and degradation of its Atlantic Forest habitat, road-killing, and also hybridization with Geoffroy’s cat (Leopardus geoffroyi). “This species is highly dependent on fragments of native forest with good levels of conservation,” says Paula Cruz, an assistant researcher at Brazil’s National Council for Scientific and Technical Research. “These fragments are often outside protected areas, which poses a risk to the long-term conservation [of the species].” Image courtesy of the Tiger Cat Conservation Initiative. Article title - A tiger cat gains new species designation, but conservation challenges remain](https://imgs.mongabay.com/wp-content/uploads/sites/20/2024/04/01221347/Image-7-Leopardus-guttulus-TCCI.jpg)
Agricultura impulsiona a perda de floresta
O estudo revelou que o desmatamento não ocorre de forma aleatória, mas se concentra em regiões específicas. Os pesquisadores identificaram dois principais focos de desmatamento nos quais ocorre a maior parte da destruição, um que abrange o sul da Bahia e o norte de Minas Gerais, e outro entre Paraná e Santa Catarina. A maior parte do desmatamento ocorre nas áreas onde a Mata Atlântica faz transição para os biomas do Cerrado e da Caatinga. Nesses trechos, explicou Guedes Pinto, por estarem próximos a esses outros biomas, os proprietários de terras alegam que a vegetação não pertence à Mata Atlântica e, portanto, não estaria protegida pela lei.
Nessas áreas, cerca de 36% da área total desmatada foi substituída por pastagens, 33% por cultivos florestais e 28% por vegetação secundária. Segundo Guedes, há uma diferença no padrão de uso da terra desmatada: enquanto na Bahia e em Minas Gerais predominam as grandes fazendas, em Santa Catarina e Paraná a floresta foi substituída principalmente por pequenas e médias propriedades. “O sul é uma região agrícola muito antiga”, explicou Guedes Pinto. “Pequenas áreas são cortadas e substituídas principalmente por culturas como soja e milho. Nesses locais, eles estão derrubando as bordas das florestas remanescentes.”
Dados recentes da plataforma de transparência Trase indicam que a produção de soja continua avançando sobre áreas da Mata Atlântica. Mais de 50 mil hectares da safra de 2022 foram plantados em áreas do bioma que haviam sido desmatadas nos cinco anos anteriores, entre 2017 e 2021. O estudo também revelou ligações com grandes empresas do agronegócio. A Trase identificou cinco delas como as mais expostas ao desmatamento em suas cadeias de abastecimento de soja na região: COFCO (6.051 hectares), Bunge (5.625 hectares), Cargill (3.518 hectares), Engelhart (2.262 hectares) e Louis Dreyfus (1.334 hectares).
“A Trase nos informa que a soja proveniente do desmatamento da Mata Atlântica é consumida principalmente no Brasil, mas também é exportada, concentrando-se em três ou quatro comerciantes”, disse Guedes Pinto. “A Cargill é a empresa número um em exposição ao risco de adquirir soja proveniente do desmatamento da Mata Atlântica. “É muito surpreendente saber que existem comerciantes comprando soja de uma região totalmente protegida; é uma grande exceção à proteção legal. Isso nunca deveria acontecer.”

Proteção legal enfrenta desafios de fiscalização
O desmatamento persiste, apesar das fortes proteções legais. A Lei da Mata Atlântica, publicada em 2006, estabelece regras para a conservação e o uso da floresta, permitindo o desmatamento apenas em situações excepcionais de interesse social ou utilidade pública, incluindo serviços como estradas, ferrovias, escolas ou hospitais. “Melhorar ou expandir pastagens e plantações não constitui interesse social ou utilidade pública”, disse Guedes Pinto. “Com base na literatura disponível e na interpretação da lei, há evidências de que quase 100% desse desmatamento é ilegal.”
O estudo do qual ele participou descobriu que 73% do desmatamento ocorreu em propriedades privadas, enquanto áreas protegidas e terras indígenas apresentaram taxas muito mais baixas de perda florestal. Segundo Guedes Pinto, a fiscalização permanece um grande desafio. “Há uma falta de fiscalização da Lei da Mata Atlântica, especialmente na área crítica de desmatamento”, disse. No âmbito federal, a fiscalização é realizada principalmente pelo Ibama, mas a responsabilidade também recai sobre as autoridades ambientais estaduais.
Pimm se pergunta: “A questão é: ‘Por que estamos perdendo a floresta em um local que se pensava estar protegido?’”
O Ibama não respondeu ao pedido de reposta da Mongabay.

Casos de sucesso na conservação
Apesar das perdas contínuas, há exemplos de conservação bem-sucedida na Mata Atlântica que podem servir de modelo para esforços de proteção mais amplos. A história do mico-leão-preto exemplifica o que é possível. Nas últimas três décadas, para combater a perda de habitat que ameaçava a espécie, o Instituto de Pesquisas Ecológicas (IPÊ) plantou mais de 2,7 milhões de mudas em 6 mil hectares de um trecho no Pontal do Paranapanema (SP), criando corredores florestais que conectam as diferentes populações de macacos.
A recuperação da espécie comprova a eficácia do método. Em 2008, o status de conservação do mico-leão-preto foi reclassificado de criticamente ameaçado para ameaçado, com uma população estimada de cerca de 1.800 indivíduos vivendo na natureza atualmente, contra menos de 200 anteriormente.

“Temos um ótimo relacionamento com proprietários de terras, com comunidades locais e municípios”, disse Laury Cullen Jr., coordenador de projetos do IPÊ, à Mongabay. “Confiança e orgulho são palavras-chave que sustentam essas parcerias.” Segundo ele, o projeto evidencia o potencial econômico da restauração florestal. “O processo de restauração é uma ferramenta poderosa para gerar renda”, afirmou Cullen Jr. “Para cada mil hectares restaurados, são gerados 100 empregos diretos. Para cada US$ 1 milhão investido no plantio de florestas nativas, geramos 30 empregos diretos — cinco vezes mais do que na indústria de petróleo e gás.”
Esses projetos de plantio de árvores geraram uma demanda por mudas e fomentaram uma indústria local próspera de viveiros. As mulheres têm sido as principais responsáveis pela gestão dos viveiros, enquanto outras aprenderam a identificar espécies, coletar sementes e manter os estoques de mudas. “Eu produzo mudas nativas”, disse Maria Regina dos Santos, líder de um viveiro. “Hoje vivo exclusivamente do viveiro. Você pode viver bem se você trabalhar bem.”

Exemplo global de restauração
De acordo com uma nova análise divulgada pela SOS Mata Atlântica, a perda de vegetação em áreas de floresta madura diminuiu apenas ligeiramente desde 2020, de 14.697 hectares em 2023 para 14.366 hectares em 2024 — uma redução de apenas 2%. Especialistas alertam que essa diminuição é insuficiente.
“A tendência é de queda, mas a redução é muito menor do que esperávamos”, disse Guedes Pinto. Para conter o desmatamento ilegal, “precisamos garantir que as florestas que permanecem em propriedades privadas e são protegidas por lei não sejam derrubadas. A Mata Atlântica tem potencial para ser a primeira floresta tropical do mundo onde alcançaremos o desmatamento zero, com restauração em grande escala”, acrescentou Guedes Pinto. “Ela pode servir de exemplo global no enfrentamento das crises climáticas e de biodiversidade”.
Os esforços de restauração da Mata Atlântica receberam reconhecimento internacional. Em dezembro de 2022, as Nações Unidas nomearam o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica como um dos 10 Projetos Emblemáticos de Restauração Global durante a 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Diversidade Biológica (COP15), em Montreal, Canadá. O reconhecimento foi concedido a uma coalizão de mais de 300 organizações envolvidas na restauração de 15 milhões de hectares de Mata Atlântica até 2050, no Brasil, Argentina e Paraguai.
“É possível que consigamos realizar isso no Brasil”, disse Guedes Pinto. “Se conseguirmos alcançar isso na Mata Atlântica, podemos replicar em outros biomas e em florestas de outras partes do mundo.”

‘A Mata Atlântica está morrendo’: entrevista com Ricardo Cardim
Imagem do banner: Saíra-pintor (Tangara fastuosa), ave endêmica da Mata Atlântica nordestina. Foto de Hector Bottai (CC BY-SA 4.0).
Liz Kimbrough é redatora da Mongabay e possui doutorado em Ecologia e Biologia Evolutiva pela Tulane University, onde estudou os microbiomas das árvores. Veja mais reportagens dela aqui.
Citações:
Amaral, S., Metzger, J. P., Rosa, M., Adorno, B. V., Gonçalves, G. C., & Guedes Pinto, L. F. (2025). Alarming patterns of mature forest loss in the Brazilian Atlantic Forest. Nature Sustainability, 8(3), 256-264. doi:10.1038/s41893-025-01508-w
Laurance, W. F. (2009). Conserving the hottest of the hotspots. Biological Conservation, 142(6), 1137. doi:10.1016/j.biocon.2008.10.011
Rezende, C. L., Scarano, F. R., Assad, E. D., Joly, C. A., Metzger, J. P., Strassburg, B. B. N., … Mittermeier, R. A. (2018). From hotspot to hopespot: An opportunity for the Brazilian Atlantic Forest. Perspectives in Ecology and Conservation, 16(4), 208-214. doi:10.1016/j.pecon.2018.10.002