O armazenamento de carbono no fundo do mar, seja em poços de petróleo e gás ou em aquíferos, ganha força como uma possível solução climática, impulsionando a criação de projetos privados e estatais ao redor do mundo.
Visto como uma alternativa para compensar as emissões de gases de efeito estufa de indústrias poluidoras — como a siderúrgica, a química e a do cimento, entre outras —, o método é defendido como uma tática viável para ajudar o meio ambiente.
Especialistas, no entanto, dizem que a prática apresenta riscos e pode repetir erros vistos em iniciativas ineficazes de captura e armazenamento de carbono em terra.
Projetos oceânicos também geram preocupações ambientais ante possíveis vazamentos de carbono, podendo prejudicar esforços climáticos ao causar danos à vida marinha — aumentando a já crescente acidificação dos oceanos, entre outras ameaças ao bioma.
Entre críticas e apoio, o armazenamento de carbono em reservatórios de petróleo e gás no fundo do oceano ganha força contra a crise climática. Em todo o mundo, já existem planos em andamento para lançar projetos desse tipo — seja no Mar do Norte (localizado entre o Reino Unido e a Escandinávia), no Golfo do México ou no Sudeste Asiático. Muitas dessas iniciativas já são financiadas por governos locais.
A prática consiste na captura do carbono (em geral, obtido diretamente de indústrias poluidoras, como a do cimento e as metalúrgicas, por exemplo) e em sua transformação em CO2 supercrítico – ou seja, quando está acima da sua temperatura e pressão críticas, sendo “otimizado” para a manipulação.
Após esse processo, o produto é levado por navios ou gasodutos até uma estrutura localizada no oceano. Ao chegar lá, o CO2 é injetado em um poço inativo, que em seguida é “lacrado”.
“Essas mesmas formações [geológicas] armazenaram petróleo e gás por milhões de anos até serem perfuradas. Por esse motivo, sabemos que o CO2 pode ser depositado de forma permanente e na mesma escala de tempo. Temos dados detalhados e uma compreensão sólida sobre a geologia desses poços e o quanto eles podem armazenar”, disse Chris Consoli, especialista em armazenamento do Global CCS Institute.
No entanto, essa proposta de solução climática, que pretende pegar carona na infraestrutura já existente dos combustíveis fósseis, é vista por críticos como uma justificativa para que esse modelo siga sendo explorado, usando métodos pouco eficientes e com histórico problemático.
Para os que se opõem à estratégia, a ideia de usar o fundo do oceano como depósito de carbono torna necessária a existência de uma vasta infraestrutura e grandes investimentos em energia. Ao mesmo tempo, especialistas citam diversos riscos ambientais que podem acompanhar essa nova tendência.

A busca por intensificar a captura de carbono
Em nível global, cerca de 70 operações de captura e armazenamento de carbono estão ativas atualmente, estocando cerca de 61,5 milhões de toneladas de CO2 por ano, de acordo com o Global CCS Institute. Hoje em dia, a maior parte dessas atividades ainda ocorre em terra, e são poucos os projetos oceânicos em andamento — exemplo do Brasil, da China, da Itália, da Noruega e da Dinamarca.
Contudo, há expectativa de que o panorama mude nas próximas décadas, à medida que surgem perspectivas de investimentos bilionários no setor. Além disso, dezenas de projetos já estão em fase de planejamento com o objetivo de armazenar milhões de toneladas de carbono de forma alternativa. Além de propostas para conservar o material em poços de petróleo e gás no fundo do mar, há intenção de estocar o produto em formações basálticas e aquíferos.
A União Europeia, por exemplo, estabeleceu planos para armazenar pelo menos 50 milhões de toneladas do composto por ano em 2030, em sua maioria no Mar do Norte. Em 2024, a multinacional de petróleo e gás ExxonMobil comprou uma área de 110 mil hectares na costa do Texas, no sul dos Estados Unidos, com o mesmo objetivo. Até o momento, o campo de exploração texano é considerado o maior espaço marinho de armazenamento de carbono do país norte-americano.
“O potencial exato de armazenamento de cada campo varia conforme as avaliações específicas. No entanto, a escala é suficiente para garantir uma ampla descarbonização em setores que vão precisar disso para zerar suas emissões”, disse Consoli.
Segundo o especialista, o carbono armazenado no fundo do oceano é indicado para reduzir as emissões de indústrias cuja atividade encontra “difícil compensação”, caso das produtoras de cimento, aço, químicos e plásticos, entre outros mercados.
Todavia, há um contrassenso: já existem planos para atrelar esse armazenamento a novos projetos de extração de combustíveis fósseis, especialmente o gás. Para Rachel Kennerley, que trabalha com o tema no Centro de Direito Ambiental Internacional (CIEL, na sigla em inglês), o caso é “muito preocupante”, uma vez que pode justificar um aumento nas emissões do setor de hidrocarbonetos.
Nos dias de hoje, as companhias de petróleo e gás estão à frente da maior parte dos projetos de captura e armazenamento de carbono. Nesse caso, o CO2 capturado no próprio processo de extração é reinjetado nos reservatórios, assim impedindo sua liberação na atmosfera. O processo, porém, é feito, principalmente, para recuperar jazidas de difícil acesso.
Esse processo, conhecido como “recuperação avançada de petróleo”, pode aumentar as emissões de CO2 ao se considerar o petróleo extraído.
Nesse sentido, surgem novos questionamentos sobre projetos de recuperação de carbono em águas profundas, já que muitas dessas iniciativas podem se tornar um pretexto para que mais petróleo seja recuperado. No Brasil, por exemplo, isso ocorre na Bacia de Santos, um dos principais campos petrolíferos do país: nesse local, o carbono capturado e rearmazenado no fundo do mar vem sendo utilizado para extrair mais petróleo.

Kennerley acrescenta que o armazenamento de carbono no fundo do oceano seguirá envolvendo altos custos e que o barateamento desse tipo de empreendimento não será simples diante da necessidade de se criar tecnologias sob medida (cenário oposto às soluções em energia renovável). Um outro impasse diz respeito ao tamanho da infraestrutura necessária para aumentar a capacidade de armazenamento oceânico — o que inclui dispositivos de captura, gasodutos e instalações para receber o fluxo de CO2 de diferentes origens.
O bloco econômico europeu estima que cerca de 7,3 mil quilômetros de gasodutos serão necessários para satisfazer os planos de armazenamento de CO2 até 2030, sob um custo de cerca de 19,5 bilhões de euros (aproximadamente 121 bilhões de reais).
Grant Hauber, consultor financeiro de estratégia energética para a Ásia do Instituto para Economia Energética e Análise Financeira, com sede nos EUA, questiona as alegações a favor da viabilidade e comprovação de projetos de carbono em águas profundas.
Segundo ele, estruturas em atividade, como o da Noruega, usadas como exemplo por partes interessadas no armazenamento oceânico, têm enfrentado “surpresas”. Entre os impasses, ele cita a entrada do carbono em áreas submarinas não identificadas e estimativas que superdimensionam a quantidade de carbono que é de fato armazenado.
“Esses projetos, de certa forma, estão estatisticamente funcionando. Há, porém, muitas dúvidas e eventos que surgem de forma inesperada. Só realmente saberemos o que vai acontecer com o CO2 depois de injetá-lo no subsolo. E então, a única coisa que poderemos fazer é acompanhá-lo [dali em diante].”
Preocupações ambientais se acumulam
Da mesma forma que a extração de combustíveis fósseis no mar deixa uma pegada ecológica (ou seja, um determinado impacto da ação humana no ambiente marinho), o mesmo vale para a reintrodução do carbono nesses poços. Em 2023, o CIEL publicou um relatório listando os perigos associados ao armazenamento oceânico de carbono — incluindo a contribuição para a ocorrência de terremotos, riscos de contaminação da água subterrânea e o deslocamento de depósitos salinos tóxicos.
Especialistas consultados pela Mongabay também se mostraram preocupados diante das chances de vazamento. “Se o CO2 vazar, então não teremos feito nada pelo clima”, disse David Ho, professor de oceanografia na Universidade do Havaí.
Mais ainda, caso esse vazamento ocorra em um duto localizado no leito marinho ou em um poço de armazenamento, poderá impactar o ecossistema ao seu redor, principalmente por aumentar a acidificação do oceano. Isso, por si só, já é um problema antigo para esse bioma: maior sumidouro de carbono do mundo, os oceanos enfrentam altos índices de acidificação ao absorver grandes quantidades de CO2 atmosférico — algo que já é alertado por especialistas.
Jerry Blackford, do Laboratório Marinho de Plymouth, nos EUA, defende que estudos podem minimizar os riscos. Para ele, os vazamentos em poços têm “pouquíssima probabilidade de ocorrer desde que a geologia dos locais tenha sido adequadamente caracterizada”. A pesquisa de Blackford sugere que o armazenamento de carbono em águas profundas é viável e seguro. “Há maior probabilidade do que eu chamaria de ‘vazamentos operacionais’ dos equipamentos usados para injetar o CO2. Em outras palavras, dos dutos”, disse.

Sonja Eisfeld-Pierantonio, coordenadora da área que trabalha contra a poluição marinha na Whale and Dolphin Conservation (Conservação de Baleias e Golfinhos), uma organização sem fins lucrativos do Reino Unido, elenca outros possíveis problemas. Segundo ela, a exploração e o desenvolvimento de operações de armazenamento de carbono podem trazer poluição sonora, causar o deslocamento de habitat e afetar as populações de presas de animais marinhos, prejudicando especialmente grupos sensíveis, como os cetáceos.
A especialista entende que a compreensão desses efeitos ainda é um campo novo de estudo. “Há poucas evidências de longo prazo sobre como a captura e o armazenamento de carbono podem afetar as dinâmicas dos ecossistemas, especialmente se essas estruturas estiverem ligadas ao aparato de petróleo e gás, que também provoca vazamentos de hidrocarbonetos”, disse.
As atividades também podem prejudicar espécies que já enfrentam a pressão de outras indústrias extrativistas, da indústria naval e das mudanças climáticas, especialmente em locais próximos a áreas marinhas protegidas ou onde animais se reproduzem.
“Expandir a atividade industrial em águas profundas em nome de justificar a continuidade da extração de petróleo e gás cria mais pressões evitáveis sobre espécies marinhas”, disse Eisfeld-Pierantonio. “Uma rápida transição para fontes de energia verdadeiramente renováveis, combinada à proteção dos habitats, seria um caminho menos arriscado.”
Já Consoli, do CCS Institute, diz que, até agora, a prática nos oceanos é “bem administrada e altamente regulamentada, com exigência de monitoramento e relatórios rigorosos”. Ele acrescenta que isso “ajuda a garantir que riscos potenciais sejam identificados e mitigados de forma eficiente, fornecendo ampla proteção ao meio ambiente e às comunidades [locais]”.

Entre a tendência e o risco
O incentivo à adoção do armazenamento de carbono em águas profundas cresce no mundo — e é provável que novos projetos saiam do papel nos próximos anos, aumentando a quantidade de carbono estocado nessas condições.
“A prática oferece uma solução escalonada e de longo prazo essencial para setores com dificuldade de compensar e zerar suas emissões mundialmente. É difícil acreditar em um caminho para zerar as emissões sem essa atividade. Mesmo com uma redução rápida dos combustíveis fósseis, o armazenamento de carbono no oceano é fundamental”, disse Consoli.
Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, na sigla em inglês), práticas de captura de carbono serão necessárias para zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2050.
No entanto, especialistas, como Kennerley, do CIEL, questionam a propaganda e os investimentos envolvidos. “Ao final, [a prática] não reduzirá as emissões de forma significativa. Sendo assim, trata-se de um grande desperdício de dinheiro público, que deveria ir para outros projetos.”
Já para Grant Hauber, armazenar carbono em reservas esgotadas de petróleo e gás no oceano apresenta um risco duplo — uma vez que a atividade acontece “longe dos olhos e do conhecimento” de entidades independentes de monitoramento e regulação. Os especialistas entrevistados pela Mongabay também defendem a necessidade de regulação de projetos em águas profundas, a transparência de dados sobre os sítios geológicos e um monitoramento independente e rigoroso dessas atividades offshore.
A fiscalização também deve incluir o monitoramento de vazamentos, reforça Blackford, pesquisador de Plymouth.
“Caso essa prática nos oceanos se estabeleça, é importante que seja fortemente monitorada. Isso responderá se ela impacta ou não o meio ambiente. Há um sério risco de negligência quanto ao CO2”, disse Hauber. “Em resumo, é como usar uma série de curativos para tentar prolongar a vida, mas sem resolver o problema de fato.”
Imagem do banner: Uma tartaruga-verde (Chelonia mydas) nada próximo ao leito oceânico. Foto: Charles J. Sharp via Wikimedia Commons (CC BY-NC-SA 4.0).
Citações:
Dewar, M., Blackford, J., Espie, T., Wilford, S., & Bouffin, N. (2022). Impact potential of hypersaline brines released into the marine environment for CCS reservoir pressure management. International Journal of Greenhouse Gas Control, 114, 103559. doi:10.1016/j.ijggc.2021.103559
Findlay, H. S., Feely, R. A., Jiang, L., Pelletier, G., & Bednaršek, N. (2025). Ocean acidification: Another planetary boundary crossed. Global Change Biology, 31(6). doi:10.1111/gcb.70238
Connelly, D. P., Bull, J. M., Flohr, A., Schaap, A., Koopmans, D., Blackford, J. C., … Yakushev, E. (2022). Assuring the integrity of offshore carbon dioxide storage. Renewable and Sustainable Energy Reviews, 166, 112670. doi:10.1016/j.rser.2022.112670