A grande jornada

Até meados dos anos 2000, quem estava a cidade de Porto Velho podia visitar nas proximidades da capital de Rondônia as conhecidas cachoeiras de Teotônio. Ali, a atração era a pesca de grandes bagres, que no momento em que o rio começava a baixar, faziam a piracema. As fotos mostram exímios pescadores utilizando um pier improvisado, mais bem uma pinguela projetada sobre as corredeiras para sacar delas a espécie considerada mais nobre: a dourada

Pouco se sabia no passado sobre a impressionante migração feita pelo bagre amazônico, embora sua longa jornada a montante tenha garantido a subsistência de milhares de pescadores do Brasil à Bolívia por muitas décadas. Os cientistas só recentemente descobriram que o peixe realiza regularmente a mais longa migração de água doce na Terra, uma viagem de ida e volta de oito mil a 11 mil km das cabeceiras nos Andes até o estuário do Amazonas e vice-versa ao longo de seu período de vida de 12 a 15 anos. A perna a montante excede em si o recorde migratório de longa distância, uma vez detido pelo salmão que nadava pelo rio Yukon.

A dourada começa seu ciclo de vida onde os Andes se transformam em florestas. Peixes adultos desovam nos afluentes do alto rio Madeira. Os ovos eclodem e as larvas de bagre seguem rio abaixo com a corrente por 40 dias até chegarem ao estuário amazônico, onde a comida é abundante.

Lá eles permanecem até a maturidade, um período de três a quatro anos. Depois disso, eles começam a árdua jornada rio acima contra as correntes do rio e através das corredeiras, de volta às cabeceiras, onde o ciclo recomeça.

Impactos a montante

ONG Faunagua, com sede em Cochabamba, na Bolívia, monitora um dos locais mais importantes para a desova da dourada, procurando a presença de peixes reprodutores nas cabeceiras do rio Ichilo, um afluente do rio Beni, que, perto da fronteira com o Brasil, junta-se ao Mamoré para se tornar o Madeira.

A Faunagua estuda um trecho do rio a cerca de 1.500 quilômetros a montante das duas megabarragens brasileiras.  A organização coletou dados de 1998 a 2009 e, após uma pausa, retomou seus levantamentos de bagres em 2015. Esses dois conjuntos de dados fornecem uma base para comparação antes e depois da construção das barragens, afirma o pesquisador da ONG Paul Van Damme. Os últimos levantamentos revelam que as contagens recentes de dourada representam apenas 10% do que existia uma década antes das barragens.

Van Damme disse que esta evidência, juntamente com a pesquisa de Marília Hauser, indicam que a população de bagres na parte alta da Madeira despencou e pode eventualmente ser extinta. Como resultado dessas descobertas alarmantes, Van Damme, outros pesquisadores e organizações não- governamentais estão solicitando que a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) aumente o status de conservação de B. rousseaxii na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção de vulnerável a criticamente ameaçada.

Mas a ação para salvar a dourada parece improvável no curto prazo. Van Damme, que participou da comissão bilateral que discutiu os impactos das barragens de Santo Antônio e Jirau entre 2006 e 2008, diz que a questão simplesmente não está mais na agenda dos governos brasileiro ou boliviano.

Ele diz que está ainda mais preocupado com o que o declínio da dourada diz sobre o que está acontecendo sob a superfície turva do rio Madeira e seus afluentes. A dourada “é apenas uma espécie que podemos monitorar, mas há muitas outras sobre as quais não sabemos o que está acontecendo, o que não podemos mostrar”.

Há esperança, mas a ação é necessária agora

Além dos estudos sobre a dourada, outras pesquisas argumentam que os pescadores do Madeira estão passando por dificuldades. As capturas de peixes registradas em Humaitá, uma cidade a 200 quilômetros a jusante das represas hidrelétricas, mostram uma queda de 39% na captura mensal média entre janeiro de 2002 e setembro de 2017.

Nesse caso, os pesquisadores liderados por Rangel Santos, da Universidade Federal de Minas Gerais, não olharam apenas para os declínios da dourada. Várias espécies de importância comercial, incluindo pacu, branquinha e jaraqui , entre outras, também foram avaliadas. Em um artigo publicado na revista Fisheries Management and Ecology , a equipe de pesquisa identificou mudanças no fluxo da Madeira devido às barragens como uma das principais razões para o declínio da pesca.

“O rio se tornou imprevísivel e por isso o pescador opta por não sair pois quando mais cheio rio menos produtiva é a pesca”, diz Santos.

No momento em que foram projetadas as usinas hidrelétricas, um parecer de técnicos do próprio governo brasileiro questionou a viabilidade dos empreendimentos exatamente pela falta de informações sobre o impacto nas douradas e outras espécies migradoras. Como solução, os consórcios construtores propuseram o uso de tecnologias comuns nas hidrelétricas de países temperados: as escadas de peixe.

No caso da barragem de Santo Antônio, eles instalaram um canal que tenta emular o fluxo das antigas corredeiras. Velludo, bióloga da Santo Antônio Energia, disse que essa foi a primeira vez que essa tecnologia foi aplicada na Amazônia. O canal tem 15 metros de comprimento, 10 metros de largura e três metros de profundidade.

Para a pesquisadora e professora Carolina Doria, que coordena diversos doutorandos na Universidade Federal de Rondônia, já está claro que os mecanismos de mitigação dos impactos não funcionaram e que as mudanças no Madeira são drásticas. Além do trabalho de Hauser, ela orientou a pesquisadora Maria Alice Leite Lima, que em sua tese em 2017, registou a queda de 74,4% no desembarques da dourada em portos pesqueiros do Madeira.

Velludo contestou este achado, dizendo que a pesquisa de Lima considerou apenas a biomassa, ou o peso total das capturas de peixe no período observado. Ela apontou que a inundação recorde no Madeira em 2014 teria forçado os pescadores a gastar menos tempo e dinheiro pescando nos anos seguintes. Em outras palavras, suas capturas eram menores porque pescavam menos, não necessariamente porque havia menos peixes no rio.

No entanto, isso levanta outra questão: a extensão da inundação foi exacerbada pela presença das barragens? Não há uma resposta clara ainda.

Doria criticou os consórcios de energia hidrelétrica por interromperem seus acordos com a universidade que permitiram o monitoramento independente das espécies migratórias. As empresas também estão em desacordo com os pescadores, que são frequentemente presos por entrarem nas áreas proibidas perto das represas em busca de peixes que não conseguem mais encontrar. “As empresas simplesmente não querem ouvir”, disse Doria em entrevista por telefone.

Fabrice Duponchelle, pesquisador do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento da França, que há anos colabora com pesquisadores na Amazônia, está preparando um artigo com Marília Hauser e Carolina Doria defendendo evidências de que a migração da dourada foi prejudicada represas. Como Doria, ele pede mudanças imediatas no sistema de transposição de Santo Antônio e novos diálogos com o gerenciamento da barragem de Jirau. Este último, ele diz, precisa agir não está funcionando como esperado. Em Jirau, existe um mecanismo para controlar o acesso do peixe ao sistema de transposição. Isto é feito para separar e controlar populações de espécies predadoras .

Mas como poderiam os pescadores do Madeira e os entusiasmados pela migração épica da dourada encontrar esperança? Bem, aparentemente, naquelas pepitas de pedra dentro da cabeça do peixe . Os otólitos que Hauser analisou mostraram que 16% da dourada capturada no estuário do rio Amazonas nasceram após a construção das represas. Isso, disse Duponchelle, apresenta um vislumbre de luz para o futuro: “De alguma forma eles passaram, então ainda há esperança”.

Estudos citados

Hauser, Marilia

1.” Migração de bagres grandes na perspectiva dos isótopos de estrôncio em otólitos. ” (2018) Universidade Federal de Rondônia (UNIR), Tese de Doutorado

2. RE Santos , RM Pinto ‐ Coelho , R. Fonseca , NR Simões , F. B. Zanchi, “The decline of fisheries on the Madeira River, Brazil: The high cost of the hydroelectric dams in the Amazon Basin”, Fisheries Management and Ecology, Volume25, Issue5, October 2018 Pages 380-391. DOI: 10.1111/fme.12305

3. Ronaldo B. Barthem, Michael Goulding, Rosseval G. Leite, Carlos Cañas, Bruce Forsberg, Eduardo Venticinque, Paulo Petry, Mauro L. de B. Ribeiro, Junior Chuctaya & Armando Mercado, “Goliath catfish spawning in the far western Amazon confirmed by the distribution of mature adults, drifting larvae and migrating juveniles”, Nature, Scientific Reports volume 7, Article number: 41784 (2017)

*Imagem de abertura
Michael Goulding / WCS.

Essa matéria foi publicada em português pela InfoAmazonia. Leia o conteúdo completo em português.

Artigo original: https://news.mongabay.com/2019/03/brazil-madeira-river-dams-may-spell-doom-for-amazons-marathon-catfish-studies/

Matéria publicada por Maria Salazar
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